Saúde

Seu filho faz birra? Ciência explica comportamento

Psiquiatra avalia o que a ciência revela sobre as explosões emocionais na infância e como os pais podem entender melhor o comportamento

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 Ciência explica explosões emocionais na infância | Foto: Magnific

Ciência explica explosões emocionais na infância | Foto: Magnific

A cena é conhecida: a criança ouve um “não”, começa a chorar, gritar ou se joga no chão. Ao redor, surgem olhares e comentários: “é manha”, “está manipulando os pais”. Para quem cuida, muitas vezes vem outra pergunta: “Onde foi que eu errei?”

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O que a birra costuma significar de verdade

Na maioria das vezes, porém, essa não é a melhor maneira de compreender uma birra. Ela costuma ser uma manifestação de desregulação emocional: por alguns minutos, aquilo que a criança sente é maior do que sua capacidade de organizar e controlar a própria reação.

Na infância, emoções como raiva, medo e frustração podem ser muito intensas, enquanto habilidades como esperar, tolerar um “não”, mudar de plano, colocar sentimentos em palavras e controlar impulsos ainda estão se desenvolvendo. É como se o “acelerador” emocional já funcionasse muito bem, enquanto os “freios” ainda estivessem sendo aperfeiçoados.

Quando a frustração ultrapassa essa capacidade de regulação, a criança pode transbordar. A birra, portanto, muitas vezes é uma forma de comunicar pelo comportamento aquilo que ela ainda não consegue organizar ou dizer em palavras.

Birra, aprendizado e a ideia de “manipulação”

Isso significa que uma criança nunca pode aprender a usar a birra para conseguir algo? Não. Se, repetidamente, uma explosão faz com que um limite seja retirado, ela pode aprender que aquele comportamento produz determinado resultado. Mas isso é diferente de imaginar que uma criança pequena, no auge de uma crise, esteja friamente planejando manipular os adultos.

Um comportamento pode ser aprendido sem ter sido planejado como manipulação.

Acolher não é ceder: como ajudar na hora da crise

As birras são muito comuns nos primeiros anos de vida e tendem a diminuir conforme amadurecem a linguagem, o controle dos impulsos e a capacidade de lidar com frustrações. Antes de conseguir se acalmar sozinha, porém, a criança frequentemente depende da corregulação: a presença de um adulto que a ajude a atravessar aquela emoção sem aumentar ainda mais a intensidade da crise.

É por isso que acolher não significa ceder.

Um adulto pode dizer: “Eu sei que você ficou muito bravo porque queria continuar brincando, mas agora precisamos ir embora”. O sentimento é reconhecido, mas o limite permanece. A emoção pode ser acolhida sem que a regra desapareça.

Depois que a crise termina, ajudar a criança a nomear o que aconteceu – “você ficou bravo porque queria ficar no parque” – contribui para que, pouco a pouco, ela desenvolva outras formas de reconhecer e expressar aquilo que sente.

Talvez, portanto, a pergunta mais útil diante de uma birra não seja apenas “como faço isso parar?”, mas também: “o que esta criança ainda não está conseguindo administrar?”

Essa mudança de olhar não significa considerar toda birra normal nem deixar de estabelecer limites. Significa compreender que, muitas vezes, por trás de uma explosão não há uma criança “má” ou pais que fracassaram, mas um cérebro em desenvolvimento aprendendo uma tarefa difícil: sentir emoções intensas sem ser dominado por elas.

Quando as crises são muito frequentes, prolongadas, intensas ou prejudicam a vida da criança e da família, porém, elas podem merecer um olhar mais cuidadoso. Esse será o tema do próximo artigo.

**Ricardo Akiyoshi Nakamura é psiquiatra geral e da infância e adolescência

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