Saúde

Saiba como estresse e saúde mental afetam o coração no dia a dia

Ansiedade, sobrecarga e hábitos emocionais podem influenciar funcionamento do órgão ao longo do tempo, explica especialista

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Tratamento para insuficiência cardíaca evoluiu ao longo dos anos | Freepik

Quando falamos em saúde do coração, as primeiras imagens que vêm à mente são colesterol, pressão arterial, cigarro e sedentarismo, provavelmente. São fatores de risco clássicos, todos muito reais e extremamente importantes. Mas, ao longo dos meus anos como cardiologista, aprendi que o coração é muito mais do que um músculo que bombeia sangue para nosso corpo. Ele sente. Ele responde. E, sim, ele pode adoecer (ou se curar) com base no que vivemos emocionalmente.

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Quando a emoção chega antes da razão

Pense naquele momento em que você recebeu uma notícia muito ruim. O coração disparou, o peito apertou, a respiração ficou mais curta. Isso não foi imaginação sua: foi o seu sistema nervoso liberando adrenalina e cortisol em resposta a uma ameaça, ainda que essa ameaça seja emocional, não física. O problema é que o coração não distingue muito bem entre os dois tipos de perigo. Ele sempre reage da mesma forma.

Quando isso acontece de forma esporádica, o organismo se recupera. Nesse caso, o estresse é até útil, pois nos prepara para enfrentar desafios. O perigo começa quando esse estado de alerta se torna crônico. Quando o estresse deixa de ser um episódio e vira uma forma de vida.

O estresse crônico leva o organismo a produzir cortisol em excesso de forma contínua. Esse hormônio, quando elevado persistentemente no sangue, aumenta a pressão arterial, favorece a inflamação dos vasos sanguíneos, eleva a glicemia, promove ganho de gordura abdominal e contribui para o surgimento de aterosclerose (o conhecido estreitamento das artérias). Em outras palavras: uma mente constantemente sobrecarregada pode construir, tijolo a tijolo, uma doença cardíaca manifesta.

A conexão real entre coração e cérebro

A ciência já demonstrou que não existe uma separação real entre o que sentimos e o que acontece no nosso corpo. O cérebro e o coração comunicam-se de forma constante e bidirecional, seja por vias hormonais, neurais ou imunológicas. Depressão, ansiedade e estresse pós-traumático aumentam de forma mensurável o risco de doenças cardiovasculares. E o contrário também é verdadeiro, quem sofre um infarto ou passa por uma cirurgia cardíaca tem risco significativamente maior de desenvolver depressão.

Um exemplo que sempre impressiona nós, cardiologistas, é a chamada Síndrome de Takotsubo, popularmente conhecida como “Síndrome do Coração Partido”. Essa condição ocorre quando um choque emocional intenso, como a perda de um ente querido, uma discussão gravíssima, ou até uma emoção de alegria extrema, provoca uma perda temporária de função do músculo cardíaco. Os sintomas são idênticos aos de um infarto: dor no peito, falta de ar, alterações no eletrocardiograma compatíveis com infarto. Mas, quando fazemos o cateterismo cardíaco, as artérias do coração estão completamente livres. Não há placa de gordura, não há obstrução. O que “entupiu” aquele coração foi única e exclusivamente a emoção.

O que eu vejo na prática clínica diária

Ao longo de quase duas décadas atendendo pacientes com doenças do coração, aprendi a perguntar além dos sintomas e dos exames realizados. Pergunto sobre trabalho, relacionamentos, sono, ansiedades, angústias. E, com certa frequência, encontro histórias como estas:

Um executivo de 48 anos, sem histórico familiar de doença cardíaca, com dieta razoável e que caminhava três vezes por semana. A pressão alta, porém, nunca cedia. Quando aprofundamos a conversa, ele me descrevia uma rotina de 14 horas de trabalho por dia, conflitos constantes na empresa, insônia e a sensação de que “nunca era suficiente”. Ao incorporar acompanhamento psicológico, técnicas de respiração e redução da jornada de trabalho, teve sua pressão normalizada em menos de seis meses – e sem nenhuma mudança na medicação.

Ou uma senhora de 62 anos que chegou ao pronto-socorro com dor no peito após a morte do marido. Os exames indicavam alterações compatíveis com um infarto do coração. Mas era a Síndrome de Takotsubo, e seu coração havia literalmente “partido”. Com suporte emocional e tratamento medicamentoso adequado, recuperou-se completamente após um tempo.

Esses casos ensinaram que tratar o coração sem tratar a pessoa por inteiro é como consertar o encanamento de uma casa com medo de ela alagar, mas ignorar simultaneamente que o telhado está vazando e permitindo a entrada da chuva.

A boa notícia é que o mesmo mecanismo que conecta emoções negativas ao coração também funciona no sentido oposto. Cultivar bem-estar emocional protege o sistema cardiovascular de forma mensurável clinicamente. Um estudo de longo prazo demonstrou que cada ponto a mais numa escala de emoções positivas estava associado a uma redução de 22% no risco de desenvolver doenças cardíacas ao longo de uma década. Ser mais feliz ou menos sobrecarregado, é parte ativa do tratamento.

Algumas estratégias com evidência científica sólida:

· Exercício físico regular: além dos benefícios cardiovasculares diretos, a atividade aeróbica reduz cortisol, aumenta serotonina e melhora a tolerância ao estresse.

· Sono de qualidade: dormir entre 7 e 9 horas por noite é um dos pilares mais subestimados da saúde cardíaca. A privação crônica de sono eleva diretamente a pressão arterial e marcadores inflamatórios no sangue.

· Mindfulness e meditação: essas práticas reduzem a ativação do eixo do estresse, melhoram a variabilidade da frequência cardíaca (um marcador importante de saúde hormonal) e ajudam a processar emoções de forma mais saudável.

· Conexões humanas genuínas: estudos acompanhando pessoas por décadas mostram que a qualidade dos relacionamentos interpessoais é um dos preditores mais fortes de longevidade e saúde cardiovascular.

· Acompanhamento psicológico quando necessário: buscar ajuda profissional para ansiedade, depressão ou estresse não é fraqueza. É prevenção cardíaca e mental.

Uma nova forma de cuidar do coração

A cardiologia moderna não pode mais se dar ao luxo de ignorar o que acontece na mente de cada paciente. A antiga ideia de que “coração” e “cabeça” são departamentos separados da saúde não se sustenta diante da ciência atual. Eles são partes de um mesmo sistema, profundamente interligados.

Da próxima vez que você sentir aquele aperto no peito antes de uma reunião difícil, ou perceber que sua pressão está subindo junto com o nível de estresse no trabalho, lembre-se: seu coração está tentando dizer algo. E vale muito a pena ouvir para buscar o motivo.

Cuidar do coração começa muito antes da consulta médica. Começa na forma como você dorme, como você respira, como você se relaciona e na coragem de pedir ajuda quando o peso emocional está grande demais para carregar sozinho.

** Leonardo Jorge Cordeiro de Paula é médico cardiologista do InCor-HCFMUSP e diretor médico EBRAMED/Digital Medicina

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