Parto prematuro: dá pra prevenir? Veja o que diz a medicina
Identificar riscos permite adotar estratégias capazes de reduzir a prematuridade em situações específicas; entenda
Brazil Health
Parto prematuro: veja se é possível evitar | Freepik
O parto prematuro, definido como aquele que ocorre antes de 37 semanas completas de gestação, continua sendo um dos grandes desafios da obstetrícia. Parte da dificuldade está no fato de que não existe uma única causa. Infecções, alterações do colo do útero, gestação múltipla, problemas maternos e placentários e diferentes mecanismos inflamatórios podem terminar no mesmo desfecho: o nascimento antes do tempo.
Por isso, perguntar se é possível prevenir um parto prematuro não tem uma resposta simples. Em algumas gestantes, conseguimos identificar fatores de risco e agir antes que o trabalho de parto comece. Em outras, a prematuridade ocorre mesmo sem sinais prévios evidentes.
Um dos fatores mais importantes é o histórico obstétrico. Uma mulher que já teve um parto prematuro espontâneo apresenta risco maior de repetição. Mas a maioria dos partos prematuros muito precoces também pode ocorrer em mulheres sem esse antecedente, o que explica por que a medicina procura maneiras mais eficientes de identificar quem está em risco.
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Uma das ferramentas mais importantes é a avaliação do comprimento do colo uterino por ultrassonografia transvaginal. Durante a gestação, um colo que se torna curto precocemente está associado a maior risco de parto prematuro espontâneo.
A informação pode modificar o acompanhamento. Em uma gestação única, por exemplo, a progesterona vaginal é recomendada em determinadas situações quando o colo curto é identificado antes de 24 semanas. Já mulheres com história de parto prematuro espontâneo podem precisar de acompanhamento seriado do comprimento cervical.
A cerclagem, um procedimento cirúrgico que funciona como um reforço mecânico para ajudar a manter o colo fechado durante a gestação, também pode ser indicada em grupos selecionados, especialmente quando existe histórico obstétrico compatível com insuficiência cervical ou combinação de antecedentes e alterações do colo. Ela não é, porém, uma intervenção indicada para toda gestante com risco aumentado.
Esse é um dos pontos centrais da prevenção: progesterona, cerclagem e acompanhamento ultrassonográfico não são tratamentos intercambiáveis nem receitas universais. A escolha depende do histórico, do tipo de gestação, da idade gestacional e das alterações encontradas.
Nem todo parto prematuro é espontâneo. Em algumas situações, a equipe precisa antecipar o nascimento porque continuar a gestação representa risco para a mãe ou para o bebê. Hipertensão grave, pré-eclâmpsia, alterações placentárias e comprometimento fetal estão entre os problemas que podem levar a essa decisão.
Por isso, prevenção da prematuridade também passa pelo pré-natal adequado, controle de doenças maternas, interrupção do tabagismo, diagnóstico e tratamento de condições clínicas e identificação precoce de complicações da gravidez.
Gestação de gêmeos ou múltiplos também apresenta risco maior, mas novamente não existe uma estratégia preventiva única que possa ser aplicada da mesma maneira às gestações únicas. As recomendações para progesterona, cerclagem e outras intervenções variam conforme o contexto.
Também é importante desfazer uma ideia antiga: repouso no leito não é recomendado rotineiramente para prevenir parto prematuro. Além de não ter demonstrado benefício, a imobilidade prolongada pode trazer outros riscos à gestante.
Exame de sangue
Uma das fronteiras mais interessantes está nos biomarcadores. O PreTRM é um exame de sangue que analisa proteínas maternas relacionadas ao risco de parto prematuro espontâneo. A proposta é identificar, ainda durante uma gestação aparentemente normal, mulheres que apresentam maior probabilidade de dar à luz antes do tempo.
Em 2026, foram publicados resultados do estudo PRIME, um ensaio clínico randomizado envolvendo 5.018 gestantes. As participantes foram submetidas a uma estratégia de rastreamento baseada em biomarcadores, e aquelas classificadas como de maior risco receberam acompanhamento e intervenções preventivas previamente estabelecidas.
Os resultados chamaram atenção: a estratégia foi associada a redução de 56% nos nascimentos antes de 32 semanas e de 32% nos partos antes de 35 semanas. Houve também 20% menos internações em UTI neonatal e redução das complicações dos recém-nascidos.
É um avanço importante, mas precisa ser interpretado corretamente. O estudo avaliou uma estratégia de testar e intervir. Portanto, não é o exame isoladamente que previne um parto prematuro. Ele procura identificar gestantes que poderiam se beneficiar de cuidados direcionados antes que apareçam sintomas.
Também não significa que o PreTRM deva ser incorporado automaticamente ao pré-natal de todas as gestantes. É necessário definir em quais populações o teste oferece maior benefício, como integrar seu resultado aos fatores clínicos já conhecidos e quais intervenções devem acompanhar uma classificação de alto risco.
A possibilidade, porém, é relevante. Grande parte da prevenção atual começa quando existe um antecedente conhecido ou quando o ultrassom encontra uma alteração, como o colo curto. Biomarcadores podem acrescentar uma nova camada: reconhecer risco biológico em uma mulher que, pelos critérios tradicionais, parecia ter uma gestação de baixo risco.
A medicina ainda não consegue impedir todos os nascimentos antes das 37 semanas. Mas já consegue fazer algo fundamental: identificar melhor algumas mulheres que correm maior risco e agir antes do início do trabalho de parto. Se os novos biomarcadores confirmarem sua utilidade em diferentes populações e contextos, essa janela de prevenção poderá começar ainda mais cedo.
** Ana Horovitz é ginecologista e membro da Brazil Health
Parto prematuro: dá pra prevenir? Veja o que diz a medicinaIdentificar riscos permite adotar estratégias capazes de reduzir a prematuridade em situações específicas; entendaSaúde2026-09-25T14:02:41.515ZO parto prematuro, definido como aquele que ocorre antes de 37 semanas completas de gestação, continua sendo um dos grandes desafios da obstetrícia. Parte da dificuldade está no fato de que não existe uma única causa. Infecções, alterações do colo do útero, gestação múltipla, problemas maternos e placentários e diferentes mecanismos inflamatórios podem terminar no mesmo desfecho: o nascimento antes do tempo. Por isso, perguntar se é possível prevenir um parto prematuro não tem uma resposta simples. Em algumas gestantes, conseguimos identificar fatores de risco e agir antes que o trabalho de parto comece. Em outras, a prematuridade ocorre mesmo sem sinais prévios evidentes. Um dos fatores mais importantes é o histórico obstétrico. Uma mulher que já teve um parto prematuro espontâneo apresenta risco maior de repetição. Mas a maioria dos partos prematuros muito precoces também pode ocorrer em mulheres sem esse antecedente, o que explica por que a medicina procura maneiras mais eficientes de identificar quem está em risco. + Colo do útero Uma das ferramentas mais importantes é a avaliação do comprimento do colo uterino por ultrassonografia transvaginal. Durante a gestação, um colo que se torna curto precocemente está associado a maior risco de parto prematuro espontâneo. A informação pode modificar o acompanhamento. Em uma gestação única, por exemplo, a progesterona vaginal é recomendada em determinadas situações quando o colo curto é identificado antes de 24 semanas. Já mulheres com história de parto prematuro espontâneo podem precisar de acompanhamento seriado do comprimento cervical. A cerclagem, um procedimento cirúrgico que funciona como um reforço mecânico para ajudar a manter o colo fechado durante a gestação, também pode ser indicada em grupos selecionados, especialmente quando existe histórico obstétrico compatível com insuficiência cervical ou combinação de antecedentes e alterações do colo. Ela não é, porém, uma intervenção indicada para toda gestante com risco aumentado. Esse é um dos pontos centrais da prevenção: progesterona, cerclagem e acompanhamento ultrassonográfico não são tratamentos intercambiáveis nem receitas universais. A escolha depende do histórico, do tipo de gestação, da idade gestacional e das alterações encontradas. + Prevenção Nem todo parto prematuro é espontâneo. Em algumas situações, a equipe precisa antecipar o nascimento porque continuar a gestação representa risco para a mãe ou para o bebê. Hipertensão grave, pré-eclâmpsia, alterações placentárias e comprometimento fetal estão entre os problemas que podem levar a essa decisão. Por isso, prevenção da prematuridade também passa pelo pré-natal adequado, controle de doenças maternas, interrupção do tabagismo, diagnóstico e tratamento de condições clínicas e identificação precoce de complicações da gravidez. Gestação de gêmeos ou múltiplos também apresenta risco maior, mas novamente não existe uma estratégia preventiva única que possa ser aplicada da mesma maneira às gestações únicas. As recomendações para progesterona, cerclagem e outras intervenções variam conforme o contexto. Também é importante desfazer uma ideia antiga: repouso no leito não é recomendado rotineiramente para prevenir parto prematuro. Além de não ter demonstrado benefício, a imobilidade prolongada pode trazer outros riscos à gestante. Exame de sangue Uma das fronteiras mais interessantes está nos biomarcadores. O PreTRM é um exame de sangue que analisa proteínas maternas relacionadas ao risco de parto prematuro espontâneo. A proposta é identificar, ainda durante uma gestação aparentemente normal, mulheres que apresentam maior probabilidade de dar à luz antes do tempo. Em 2026, foram publicados resultados do estudo PRIME, um ensaio clínico randomizado envolvendo 5.018 gestantes. As participantes foram submetidas a uma estratégia de rastreamento baseada em biomarcadores, e aquelas classificadas como de maior risco receberam acompanhamento e intervenções preventivas previamente estabelecidas. Os resultados chamaram atenção: a estratégia foi associada a redução de 56% nos nascimentos antes de 32 semanas e de 32% nos partos antes de 35 semanas. Houve também 20% menos internações em UTI neonatal e redução das complicações dos recém-nascidos. É um avanço importante, mas precisa ser interpretado corretamente. O estudo avaliou uma estratégia de testar e intervir. Portanto, não é o exame isoladamente que previne um parto prematuro. Ele procura identificar gestantes que poderiam se beneficiar de cuidados direcionados antes que apareçam sintomas. Também não significa que o PreTRM deva ser incorporado automaticamente ao pré-natal de todas as gestantes. É necessário definir em quais populações o teste oferece maior benefício, como integrar seu resultado aos fatores clínicos já conhecidos e quais intervenções devem acompanhar uma classificação de alto risco. A possibilidade, porém, é relevante. Grande parte da prevenção atual começa quando existe um antecedente conhecido ou quando o ultrassom encontra uma alteração, como o colo curto. Biomarcadores podem acrescentar uma nova camada: reconhecer risco biológico em uma mulher que, pelos critérios tradicionais, parecia ter uma gestação de baixo risco. A medicina ainda não consegue impedir todos os nascimentos antes das 37 semanas. Mas já consegue fazer algo fundamental: identificar melhor algumas mulheres que correm maior risco e agir antes do início do trabalho de parto. Se os novos biomarcadores confirmarem sua utilidade em diferentes populações e contextos, essa janela de prevenção poderá começar ainda mais cedo. ** Ana Horovitz é ginecologista e membro da Brazil HealthSão PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/saude/parto-prematuro-e-possivel-prevenir-veja-o-que-diz-a-medicina
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