Muitas pessoas têm ansiedade social – mas quase não falam sobre o assunto; como identificar?
Pelo menos metade dos indivíduos que sofre com a condição evita procurar ajuda, aponta livro; veja sinais de atenção
Quem nunca sentiu um frio na barriga ou um leve sinal de desespero antes de um discurso ou apresentação em público? A ansiedade social é uma experiência comum, presente em diferentes níveis em todos nós.
No entanto, algumas pessoas sofrem de uma forma mais intensa dessa ansiedade, e isso pode trazer prejuízos para a sua vida: como limitar significativamente suas interações sociais devido ao medo crônico de serem humilhadas ou envergonhadas.
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Líder mundial em diagnósticos, o Brasil tem quase 19 milhões de pessoas vivendo com algum grau patológico de ansiedade, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). No entanto, a ansiedade social, que também é um tipo de ansiedade patológica a depender do grau, ainda é pouco discutida.
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Como identificar?
Em seu livro "Ansiedade Social: Medos e Vergonha Ocultos em Adolescentes e Adultos", publicado pela American Psychiatric Association Publishing (e que ainda não foi lançado no Brasil), o professor clínico de psiquiatria e neurociência Thomas E. Brown aponta que pelo menos metade dos indivíduos que lutam contra a ansiedade social evitam procurar ajuda.
Thomas afirma que esse tipo de ansiedade é prevalente entre adolescentes e adultos, mas raramente recebe o diagnóstico e o tratamento adequados.
Por definição, a ansiedade social é o medo e ansiedade de exposição a certas situações sociais ou de desempenho. O diagnóstico é baseado em critérios clínicos, como os sentimentos sendo desproporcionais à ameaça real e que causam sofrimento significativo ou prejudicam muito o funcionamento social ou ocupacional do indivíduo. Dessa forma, os pacientes passam evitar sistematicamente as situações.
Segundo o autor, os medos vinculados à ansiedade social, em grande parte, são infundados.
“A ansiedade social é uma preocupação constante sobre o que os outros pensam de nós. Ela pode estar ligada a medos específicos de que informações pessoais sejam divulgadas ou a preocupações sobre como pessoas próximas, como pais, amigos ou parceiros, reagiriam ao saber de determinados pensamentos ou ações.”, explica Brown.
Na obra, é explorado como essa condição pode prejudicar relacionamentos e levar à solidão e depressão, com 22 relatos de casos, que se dividem entre 11 adultos e 11 adolescentes.
Quais são as consequências?
De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), a ansiedade social pode ter sérias consequências, como maior evasão escolar, desemprego, menor status socioeconômico e maior probabilidade de permanecer solteiro ou divorciar-se.
“Apenas cerca de metade das pessoas que sofrem de ansiedade social procuram tratamento. Muitos se sentem envergonhados de seus medos, e os que buscam ajuda geralmente o fazem após anos de sofrimento. Essa ansiedade pode ser hereditária ou adquirida em ambientes familiares excessivamente protetores.”, explica Brown.
Ansiedade social na adolescência
Brown observa que adolescentes que enfrentam mudanças físicas precoces, como o desenvolvimento dos seios ou questões de altura, podem se sentir particularmente autoconscientes, exacerbando a ansiedade em situações sociais. Essa ansiedade pode afetar relacionamentos românticos e a vida sexual, especialmente entre jovens universitários.
Como lidar?
Brown sugere que intervenções psicoterapêuticas, familiares e medicamentos podem ajudar a reduzir a ansiedade social.
O psicólogo brasileiro Mateus José dos Santos compartilha, de forma bem humorada em suas redes sociais, como algumas pequenas situações sociais, como fazer um pedido em um restaurante, podem refletir uma forma de ansiedade social.
"Você já esteve em uma situação onde algo deu errado, mas, ao invés de falar, preferiu se calar? Pediu uma coisa e recebeu outra, mas o medo de chamar o garçom e corrigir o pedido foi maior? Se sim, você não está sozinho.", disse na legenda.
E completa: "a ansiedade social pode transformar o simples ato de se expressar em um obstáculo gigante".
Segundo ele, a repetição desses comportamentos pode afetar a confiança, trazendo a sensação de invisibilidade e impotência.
"Mas lembre-se: é possível mudar essa narrativa."
*Com informações do Futurity