Horário e exercício podem mudar resultado de exame; entenda
Especialista explica por que a preparação para uma coleta de sangue pode fazer diferença nos resultados
Brazil Health
Veja a importância da preparação correta antes do exame de sangue | Reprodução
Fazer um exame de sangue parece simples: receber o pedido médico, ir ao laboratório, fazer a coleta e aguardar o resultado. Mas o organismo não funciona da mesma maneira durante as 24 horas do dia. Hormônios obedecem a ritmos biológicos, alimentos modificam temporariamente diversos componentes do sangue e atividades aparentemente banais, como praticar exercício ou ter uma relação sexual, podem interferir em alguns marcadores.
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Isso não significa que um exame realizado fora das condições ideais necessariamente esteja errado. Significa que, em determinadas situações, a preparação e o momento da coleta precisam ser considerados na interpretação. Por isso, além de seguir as orientações do médico e do laboratório, vale conhecer alguns exames particularmente sensíveis a essas variáveis.
É um dos exemplos mais conhecidos. A testosterona apresenta variação ao longo do dia, com concentrações geralmente mais elevadas pela manhã. Para investigação de hipogonadismo masculino, recomenda-se que a testosterona total seja dosada entre 7h e 10h, após jejum noturno. Se o resultado estiver baixo, o diagnóstico não deve ser estabelecido por uma única dosagem: é necessária a confirmação em outra coleta realizada em condições semelhantes.
Sono, alimentação, doenças agudas e alguns medicamentos também podem interferir. Portanto, encontrar testosterona baixa em um exame isolado não significa necessariamente deficiência hormonal.
Cortisol: hormônio que acompanha relógio biológico
Poucos exames demonstram tão claramente a importância do horário quanto o cortisol. Em pessoas com ciclo habitual de sono e vigília, sua concentração começa a aumentar durante a madrugada, atinge níveis elevados no início da manhã e diminui progressivamente ao longo do dia, chegando aos valores mais baixos à noite.
É justamente essa oscilação que permite utilizar diferentes horários de coleta na investigação de determinadas doenças. Dependendo da suspeita clínica, pode ser necessário medir o cortisol pela manhã ou avaliar seus níveis tarde da noite. Nesse caso, o horário não é apenas uma recomendação prática: faz parte da própria lógica do exame.
Prolactina: estresse e exercício também contam
A prolactina é outro hormônio sujeito a oscilações fisiológicas. O sono interfere em sua secreção e situações de estresse e exercício podem provocar elevações transitórias. Por isso, diante de um resultado discretamente aumentado, o médico pode solicitar nova dosagem em condições mais controladas antes de concluir que existe uma alteração.
Até a ansiedade provocada pela coleta deve ser considerada em determinados pacientes. É um bom exemplo de porque o resultado laboratorial nunca deve ser analisado isoladamente, sem levar em conta as condições em que o material foi obtido.
PSA: atenção ao que aconteceu nas 48 horas anteriores
No PSA, utilizado principalmente na avaliação da próstata, a questão não é fazer o exame pela manhã. O que aconteceu antes da coleta pode ser mais importante. Ejaculação e algumas atividades que exercem pressão ou impacto sobre a região, como ciclismo intenso, podem provocar elevações temporárias do marcador.
Por isso, costuma-se orientar que essas situações sejam evitadas nas 48 horas anteriores à coleta. Procedimentos urológicos e manipulações da próstata também podem alterar o PSA e precisam ser informados ao médico.
TSH: a tireoide também tem ritmo
O TSH, hormônio que estimula a tireoide, também sofre variações ao longo das 24 horas. Isso não significa que todos os pacientes devam obrigatoriamente fazer o exame no mesmo horário, mas a informação ganha importância quando são comparados resultados seriados, principalmente quando os valores estão próximos dos limites de referência.
Em acompanhamentos nos quais pequenas diferenças podem influenciar a interpretação, manter condições semelhantes entre as coletas ajuda a distinguir uma verdadeira mudança hormonal de uma oscilação fisiológica.
Ferro: nem sempre jejuar mais é melhor
O ferro sérico é influenciado pela alimentação e apresenta variabilidade biológica. Um grande estudo com mais de 270 mil resultados mostrou que, em adultos, concentrações representativas foram encontradas após aproximadamente cinco a nove horas de jejum. Curiosamente, jejuns muito prolongados, de 12 horas ou mais, podem produzir valores mais elevados.
O exemplo serve para desfazer uma crença comum: aumentar por conta própria o período de jejum não necessariamente torna o exame mais preciso. Quando houver orientação específica para a coleta, ela deve ser seguida.
Exercício antes do exame: cuidado com a CK
Quem pratica atividade física intensa pode apresentar elevação importante da creatinoquinase, conhecida como CK ou CPK, uma enzima encontrada principalmente nos músculos. Depois de exercícios vigorosos, especialmente quando são incomuns para aquela pessoa, seus níveis podem permanecer elevados por algum tempo.
A informação é relevante porque uma CK aumentada também pode aparecer em situações de lesão muscular e em pacientes que utilizam determinados medicamentos. Se o médico desconhecer que houve treinamento intenso antes da coleta, um resultado fisiologicamente alterado pelo exercício pode exigir investigação desnecessária. Outros marcadores, como AST/TGO e LDH, também podem sofrer influência da atividade física.
Colesterol: o jejum de 12 horas não é mais regra para todos
Durante muitos anos, pedir perfil lipídico praticamente significava receber junto a recomendação de jejum prolongado. Hoje, colesterol total, HDL e outros componentes do perfil lipídico podem ser avaliados sem jejum em muitas situações.
Os triglicérides merecem atenção especial porque aumentam depois das refeições. Quando aparecem muito elevados, pode ser necessária uma nova coleta em jejum para melhor avaliação. Portanto, não se deve decidir sozinho entre fazer ou não jejum: a condição da coleta depende do objetivo do exame e da orientação recebida.
Preparar-se para o exame também faz parte do diagnóstico
Exames laboratoriais transformam processos biológicos em números, mas esses números são obtidos de um organismo em constante mudança. Hora do dia, sono, alimentação, exercício, medicamentos e outras atividades podem modificar temporariamente alguns resultados.
A melhor orientação, portanto, não é decorar uma lista de proibições nem adotar por conta própria o maior jejum possível. É informar-se sobre o preparo específico solicitado, avisar ao médico e ao laboratório sobre situações que possam interferir e, principalmente, tentar manter condições semelhantes quando um exame é repetido para acompanhamento. Um resultado confiável começa antes de a agulha chegar ao braço.
** Douglas Schreck é médico com especialização em Radiologia e Diagnóstico por Imagem do SIR-Mãe de Deus, coordenador do CDI-ultrassom do grupo Vila Nova (HRES) e membro Brazil Health
Horário e exercício podem mudar resultado de exame; entendaEspecialista explica por que a preparação para uma coleta de sangue pode fazer diferença nos resultados
Saúde2026-09-16T14:00:12.701ZFazer um exame de sangue parece simples: receber o pedido médico, ir ao laboratório, fazer a coleta e aguardar o resultado. Mas o organismo não funciona da mesma maneira durante as 24 horas do dia. Hormônios obedecem a ritmos biológicos, alimentos modificam temporariamente diversos componentes do sangue e atividades aparentemente banais, como praticar exercício ou ter uma relação sexual, podem interferir em alguns marcadores. Isso não significa que um exame realizado fora das condições ideais necessariamente esteja errado. Significa que, em determinadas situações, a preparação e o momento da coleta precisam ser considerados na interpretação. Por isso, além de seguir as orientações do médico e do laboratório, vale conhecer alguns exames particularmente sensíveis a essas variáveis. Testosterona: por que de manhã? É um dos exemplos mais conhecidos. A testosterona apresenta variação ao longo do dia, com concentrações geralmente mais elevadas pela manhã. Para investigação de hipogonadismo masculino, recomenda-se que a testosterona total seja dosada entre 7h e 10h, após jejum noturno. Se o resultado estiver baixo, o diagnóstico não deve ser estabelecido por uma única dosagem: é necessária a confirmação em outra coleta realizada em condições semelhantes. Sono, alimentação, doenças agudas e alguns medicamentos também podem interferir. Portanto, encontrar testosterona baixa em um exame isolado não significa necessariamente deficiência hormonal. Cortisol: hormônio que acompanha relógio biológico Poucos exames demonstram tão claramente a importância do horário quanto o cortisol. Em pessoas com ciclo habitual de sono e vigília, sua concentração começa a aumentar durante a madrugada, atinge níveis elevados no início da manhã e diminui progressivamente ao longo do dia, chegando aos valores mais baixos à noite. É justamente essa oscilação que permite utilizar diferentes horários de coleta na investigação de determinadas doenças. Dependendo da suspeita clínica, pode ser necessário medir o cortisol pela manhã ou avaliar seus níveis tarde da noite. Nesse caso, o horário não é apenas uma recomendação prática: faz parte da própria lógica do exame. Prolactina: estresse e exercício também contam A prolactina é outro hormônio sujeito a oscilações fisiológicas. O sono interfere em sua secreção e situações de estresse e exercício podem provocar elevações transitórias. Por isso, diante de um resultado discretamente aumentado, o médico pode solicitar nova dosagem em condições mais controladas antes de concluir que existe uma alteração. Até a ansiedade provocada pela coleta deve ser considerada em determinados pacientes. É um bom exemplo de porque o resultado laboratorial nunca deve ser analisado isoladamente, sem levar em conta as condições em que o material foi obtido. PSA: atenção ao que aconteceu nas 48 horas anteriores No PSA, utilizado principalmente na avaliação da próstata, a questão não é fazer o exame pela manhã. O que aconteceu antes da coleta pode ser mais importante. Ejaculação e algumas atividades que exercem pressão ou impacto sobre a região, como ciclismo intenso, podem provocar elevações temporárias do marcador. Por isso, costuma-se orientar que essas situações sejam evitadas nas 48 horas anteriores à coleta. Procedimentos urológicos e manipulações da próstata também podem alterar o PSA e precisam ser informados ao médico. TSH: a tireoide também tem ritmo O TSH, hormônio que estimula a tireoide, também sofre variações ao longo das 24 horas. Isso não significa que todos os pacientes devam obrigatoriamente fazer o exame no mesmo horário, mas a informação ganha importância quando são comparados resultados seriados, principalmente quando os valores estão próximos dos limites de referência. Em acompanhamentos nos quais pequenas diferenças podem influenciar a interpretação, manter condições semelhantes entre as coletas ajuda a distinguir uma verdadeira mudança hormonal de uma oscilação fisiológica. Ferro: nem sempre jejuar mais é melhor O ferro sérico é influenciado pela alimentação e apresenta variabilidade biológica. Um grande estudo com mais de 270 mil resultados mostrou que, em adultos, concentrações representativas foram encontradas após aproximadamente cinco a nove horas de jejum. Curiosamente, jejuns muito prolongados, de 12 horas ou mais, podem produzir valores mais elevados. O exemplo serve para desfazer uma crença comum: aumentar por conta própria o período de jejum não necessariamente torna o exame mais preciso. Quando houver orientação específica para a coleta, ela deve ser seguida. Exercício antes do exame: cuidado com a CK Quem pratica atividade física intensa pode apresentar elevação importante da creatinoquinase, conhecida como CK ou CPK, uma enzima encontrada principalmente nos músculos. Depois de exercícios vigorosos, especialmente quando são incomuns para aquela pessoa, seus níveis podem permanecer elevados por algum tempo. A informação é relevante porque uma CK aumentada também pode aparecer em situações de lesão muscular e em pacientes que utilizam determinados medicamentos. Se o médico desconhecer que houve treinamento intenso antes da coleta, um resultado fisiologicamente alterado pelo exercício pode exigir investigação desnecessária. Outros marcadores, como AST/TGO e LDH, também podem sofrer influência da atividade física. Colesterol: o jejum de 12 horas não é mais regra para todos Durante muitos anos, pedir perfil lipídico praticamente significava receber junto a recomendação de jejum prolongado. Hoje, colesterol total, HDL e outros componentes do perfil lipídico podem ser avaliados sem jejum em muitas situações. Os triglicérides merecem atenção especial porque aumentam depois das refeições. Quando aparecem muito elevados, pode ser necessária uma nova coleta em jejum para melhor avaliação. Portanto, não se deve decidir sozinho entre fazer ou não jejum: a condição da coleta depende do objetivo do exame e da orientação recebida. Preparar-se para o exame também faz parte do diagnóstico Exames laboratoriais transformam processos biológicos em números, mas esses números são obtidos de um organismo em constante mudança. Hora do dia, sono, alimentação, exercício, medicamentos e outras atividades podem modificar temporariamente alguns resultados. A melhor orientação, portanto, não é decorar uma lista de proibições nem adotar por conta própria o maior jejum possível. É informar-se sobre o preparo específico solicitado, avisar ao médico e ao laboratório sobre situações que possam interferir e, principalmente, tentar manter condições semelhantes quando um exame é repetido para acompanhamento. Um resultado confiável começa antes de a agulha chegar ao braço. ** Douglas Schreck é médico com especialização em Radiologia e Diagnóstico por Imagem do SIR-Mãe de Deus, coordenador do CDI-ultrassom do grupo Vila Nova (HRES) e membro Brazil Health São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/saude/horario-e-exercicio-podem-mudar-resultado-de-exame-entenda