Saúde

Esquecimento é normal ou Alzheimer? Veja os sinais e como se proteger agora

Geriatra explica quando lapsos de memória fazem parte da idade e quando exigem investigação, além de hábitos que podem reduzir o risco de demência

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cérebro humano

Como médica geriatra, não tem um dia sequer nos meus atendimentos de consultório em que eu deixe de atender “jovens idosos” me questionando: se esquecer onde guardou objetos, demorar alguns instantes para lembrar um nome de algo ou precisar conferir novamente uma informação pode ser considerado alteração de memória. Essas são situações relativamente comuns na nossa rotina diária, especialmente com o avanço da idade, e podemos garantir que pequenas falhas de memória podem fazer parte do envelhecimento normal e, na maioria das vezes, não significam doença.

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Quando o esquecimento deixa de ser normal

No entanto, quando os esquecimentos passam a interferir na rotina, alterando a funcionalidade do idoso, tornando-o mais dependente e dificultando tarefas habituais, compromissos, finanças ou a orientação em lugares conhecidos, é importante, sim, uma avaliação médica e uma investigação. Nessas situações, pode haver um quadro de comprometimento cognitivo ou até o início de uma demência, como a doença de Alzheimer, por exemplo.

Apesar de, até o presente momento, ainda não existir uma cura definitiva nem medicamentos promissores a longo prazo, a ciência tem trazido notícias encorajadoras: uma parcela significativa dos casos de demência pode ser evitada ou retardada com mudanças na rotina de vida. Estudos indicam que até cerca de 45–50% dos casos podem estar associados a fatores de risco potencialmente modificáveis ao longo da vida.

Isso significa que cuidar da saúde do cérebro começa muito antes de qualquer sintoma aparecer.

O que a ciência já sabe sobre prevenção

Pesquisas recentes identificaram 14 fatores modificáveis que, quando prevenidos ou tratados, podem reduzir significativamente o risco de desenvolver demência.

1. Baixo nível de escolaridade – a educação estimula o cérebro e contribui para a chamada reserva cognitiva (capacidade de o cérebro compensar alterações relacionadas ao envelhecimento). É aquela velha frase dos nossos pais: “Estude hoje para plantar o seu futuro amanhã”.

2. Perda auditiva não tratada – uma das condições mais comuns do envelhecimento e também uma das mais negligenciadas. Quando não tratada, pode levar ao isolamento social e exigir maior esforço cognitivo do cérebro. Ouvir não é apenas uma função do ouvido; esse processo envolve várias áreas do cérebro, como sons, compreensão, linguagem e interpretação de informações.

3. Hipertensão arterial – uma das doenças crônicas mais comuns no mundo. Devido a alterações em vasos sanguíneos cerebrais, de forma silenciosa, por meio da redução do fluxo sanguíneo cerebral e, consequentemente, menor oxigenação e maior risco de microlesões vasculares. Quando essas alterações se acumulam ao longo do tempo, contribuem para o desenvolvimento da chamada demência vascular, uma das formas mais prevalentes após a doença de Alzheimer.

4. Colesterol LDL elevado – níveis altos do chamado “colesterol ruim” estão associados a doenças cardiovasculares e também a maior risco de comprometimento cerebral, devido ao estreitamento das artérias cerebrais por acúmulo de “gordura”, prejudicando, consequentemente, a circulação cerebral.

5. Diabetes – quando mal controlado, pode causar danos vasculares e metabólicos que impactam diretamente o funcionamento do cérebro.

6. Obesidade – um dos maiores desafios de saúde pública no mundo. O excesso de tecido adiposo está associado à inflamação crônica e a alterações metabólicas que podem influenciar a saúde cerebral.

7. Sedentarismo – a atividade física regular melhora a circulação cerebral, favorece conexões entre neurônios e está associada a menor risco de demência.

8. Tabagismo – afeta a circulação sanguínea e aumenta processos inflamatórios no organismo, prejudicando também o cérebro.

9. Consumo de álcool – não existem quantidades seguras de ingestão; seu uso crônico e/ou abusivo pode causar lesões diretas nas células cerebrais ao longo do tempo.

10. Depressão – entre os fatores associados ao declínio cognitivo, ocupa um lugar muitas vezes subestimado. Mais do que uma condição emocional, está relacionada a alterações hormonais associadas ao estresse crônico, redução de atividade em regiões cerebrais importantes da memória, como o hipocampo. Quando persistente e não tratada, está associada a maior risco de declínio cognitivo (ou, mais conhecida, como o “fenômeno de pseudodemência depressiva”), devido à dificuldade de reter informações e organizar tarefas, afetando diretamente a atenção e a capacidade de raciocínio. Quando estivermos diante de queixas de memória acompanhadas de tristeza persistente, desânimo ou perda de interesse, sempre devemos levantar a hipótese de depressão.

11. Isolamento social – manter relações sociais, trocas de ideias, participar de atividades em grupo e estimular interações emocionais ajuda a preservar funções cognitivas.

12. Traumatismo craniano – especialmente quando de forma repetida (mesmo que leve) ou grave, pois essas lesões repetidas podem desencadear processos inflamatórios e degenerativos.

13. Poluição do ar – durante muito tempo, os efeitos da poluição foram associados apenas a doenças respiratórias e cardiovasculares. No entanto, a exposição prolongada a poluentes ambientais tem sido associada à inflamação cerebral, aumento do estresse oxidativo, alteração na função dos neurônios e prejuízo na comunicação entre as células nervosas, que, com o tempo, podem favorecer alterações cognitivas.

14. Perda de visão não corrigida – pode reduzir estímulos cognitivos e aumentar o isolamento social.

Sinais de alerta e a mensagem principal

É importante lembrar que nem todo esquecimento significa doença. O que merece atenção são mudanças progressivas na memória, na linguagem, no comportamento ou na capacidade de realizar atividades do cotidiano.

Quando passamos a observar esses 14 fatores simples e em conjunto, fica claro que a saúde do cérebro está profundamente ligada ao estilo de vida e ao cuidado com doenças crônicas e que muitas das condições que afetam o cérebro no envelhecimento começam a se desenvolver muitos anos antes dos primeiros sintomas. O cérebro é um órgão altamente sensível não apenas ao que comemos ou às doenças que desenvolvemos, mas também ao ambiente em que vivemos. Controlar pressão, colesterol e diabetes, manter-se fisicamente ativo, estimular o aprendizado e preservar vínculos sociais são atitudes que beneficiam não apenas a memória, mas o envelhecimento saudável como um todo. A mensagem mais importante é simples: prevenir demência começa décadas antes dos primeiros sintomas.

Dra. Julianne Pessequillo CRM 160.834 // RQE: 71.895

Geriatria e clínica médica – Longevidade saudável

Membro Brazil Health

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