Quem perde e quem escapa do tarifaço dos EUA?
Taxa de 25% sobre produtos brasileiros entra em vigor em 22 de julho, governo Lula acionará a Lei da Reciprocidade e especialistas avaliam os impactos


O presidente Lula e Donald Trump | Foto: Ricardo Stuckert
O governo dos Estados Unidos confirmou, na noite desta quarta-feira (15) a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre a maior parte dos produtos brasileiros exportados ao mercado americano a partir de 22 de julho, ampliando a tensão comercial entre os dois países. A medida pode atingir mais de 4.100 mercadorias, o equivalente a R$ 14,9 bilhões em exportações, segundo estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
A Casa Branca justificou a decisão alegando que o Brasil adota práticas consideradas prejudiciais à indústria americana. Entre os pontos citados pelo governo Donald Trump estão o Pix, questões relacionadas ao combate à corrupção, desmatamento, tributação do etanol americano, proteção à propriedade intelectual e acordos comerciais firmados pelo Brasil com países como México e Índia. Apesar da sobretaxa, autoridades americanas afirmam que as negociações seguem abertas e que a medida poderá ser revista caso haja avanços nas tratativas.
A reação brasileira veio de forma imediata. Na manhã desta quinta-feira (16), o governo federal anunciou que iniciará os procedimentos para aplicar a Lei da Reciprocidade Econômica e acionará a Organização Mundial do Comércio (OMC).
🔎A Lei da Reciprocidade, promulgada em 2025, autoriza o governo brasileiro a adotar medidas de retaliação contra países ou blocos econômicos que imponham barreiras comerciais consideradas prejudiciais aos interesses do Brasil.
Em nota, o Palácio do Planalto classificou a medida como unilateral e sem justificativa econômica, além de contestar a legitimidade das investigações conduzidas pelos Estados Unidos com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O governo também destacou que os próprios dados americanos apontam um superávit de US$ 424,5 bilhões dos EUA no comércio bilateral de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos.
A crise diplomática ganhou novos contornos após o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, responsabilizar diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela imposição das tarifas. Em publicação nas redes sociais, Rubio afirmou que o governo brasileiro não negociou "de boa-fé" e declarou que Lula teria colocado "seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro". Já o representante do Comércio dos EUA, Jamieson Greer, sustentou que a medida busca garantir condições justas de concorrência para trabalhadores e empresas americanas dentro da política "America First" do governo Trump.
Mas quem será realmente afetado?
Entre os itens afetados estão etanol, máquinas agrícolas, vestuário, maquinário elétrico, calçados, papel, açúcar orgânico, produtos químicos e manufaturados em geral. Por outro lado, café, carne bovina, laranja, suco de laranja, além de determinados produtos dos setores de energia e aeroespacial, ficaram de fora da cobrança.
"A população brasileira corre risco de desemprego", explica o especialista em Comércio Exterior Jackson Campos. Segundo ele, alguns produtos comercializados com os Estados Unidos não podem ser direcionados para outros países.
Para Higor Rabelo, sócio da Valor Investimentos, embora os Estados Unidos continuem sendo um parceiro relevante, a dependência brasileira do mercado americano é menor do que em décadas anteriores.
"O mais provável é volatilidade no câmbio e muito barulho no mercado, especialmente diante do cenário eleitoral. Mas isso não representa uma ruptura na economia", completa, lembrando que a China é atualmente o principal destino das exportações brasileiras.
O economista Davi Lelis, também sócio da Valor Investimentos, avalia que o tarifaço pode provocar efeitos indiretos importantes sobre a economia nacional. "O real está resiliente por causa do elevado juro brasileiro, mas uma tarifa cheia pressionaria a balança comercial e reintroduziria um prêmio de risco sobre o câmbio, justamente quando o IPCA dava sinais de desaceleração", afirma.
Para ele, o principal risco não está apenas na cobrança do imposto, mas na possibilidade de empresas americanas substituírem fornecedores brasileiros por concorrentes de outros países. "O problema acontece quando o importador americano passa a comprar de fornecedores do México, Vietnã ou Índia. O dano real é perder contratos e participação de mercado", alerta.
"Pouca gente se beneficia. O governo americano pode se beneficiar um pouco com os impostos, mas ao mesmo tempo pune a população dele. Não existe um ganhador", completa Campos.
Qual o impacto político?
Além dos efeitos econômicos, o tarifaço também deve ampliar a disputa política entre governo e oposição às vésperas das eleições de 2026. Para Jackson Campos, o desafio do Brasil será reagir sem ampliar os prejuízos para consumidores e empresas.
"O brasileiro corre o risco de pagar duas vezes por essa disputa comercial. Primeiro, com a redução das exportações para os Estados Unidos, que pode diminuir a produção, ameaçar empregos e reduzir a renda nos setores mais afetados. Depois, com uma eventual retaliação mal calibrada, que pode encarecer produtos, máquinas e insumos importados, pressionando os custos das empresas e os preços ao consumidor. A Lei da Reciprocidade deve ser usada com firmeza, mas de forma seletiva e estratégica, para pressionar os Estados Unidos sem impor um prejuízo adicional à população brasileira", avalia.
Ele ainda avalia que a decisão dos Estados Unidos também tende a favorecer um dos lados da disputa ao Planalto. O especialista afirma que a atuação de integrantes do campo bolsonarista durante as negociações poderá ser explorada politicamente pelo governo.
"Existiu uma campanha de Eduardo Bolsonaro e do bolsonarismo em si para que as tarifas fossem aplicadas no Brasil. O Flávio foi lá tentar arrefecer, mas o próprio Marco Rubio já havia dito que o Eduardo solicitou e por isso seriam aplicadas. Isso deve pesar na campanha de Flávio, porque a campanha de Lula vai aproveitar disso para dizer que Lula, ou a esquerda, é a favor da soberania do Brasil, enquanto o bolsonarismo pede tarifas e sanções contra o Brasil", afirma.
Segundo o especialista, a tendência é que o episódio seja incorporado ao discurso eleitoral dos dois lados, com o governo buscando associar a oposição às sanções americanas, enquanto adversários de Lula devem reforçar críticas à condução da política externa e comercial do país.
Tarifas vão além da economia
Na avaliação de Alessandra Brandão, sócia-coordenadora de Direito Tributário do Marcelo Tostes Advogados, as tarifas devem ser analisadas sob uma perspectiva mais ampla do comércio global.
"Hoje, praticamente nenhuma indústria consegue operar de forma totalmente autônoma. Empresas dependem de matérias-primas e componentes produzidos em outros países, de modo que uma tarifa pode encarecer justamente os insumos necessários para a indústria nacional", explica.
Como exemplo, ela cita o setor americano de suco de laranja, que depende parcialmente da matéria-prima brasileira e pode acabar enfrentando custos mais elevados.
A especialista também chama atenção para a insegurança jurídica provocada pelo uso crescente de tarifas como instrumento de pressão política e geopolítica.
"Mais relevante do que o percentual das tarifas é a imprevisibilidade regulatória gerada por medidas dessa natureza. Alterações frequentes das regras comerciais dificultam o planejamento empresarial, aumentam os custos de transação e reduzem a segurança necessária aos investimentos de longo prazo", afirma.
Para ela, a diversificação de mercados e a revisão de contratos passam a ser medidas fundamentais para empresas exportadoras. "A evolução do protecionismo demonstra que as tarifas deixaram de ser apenas instrumentos de proteção da indústria nacional e passaram a integrar, cada vez mais, a estratégia geopolítica dos Estados", conclui.














