Lula faz mea culpa em recado a governos de esquerda: “Nos tornamos o sistema”
Em discurso na 1ª reunião da Mobilização Progressista Global, em Barcelona, presidente diz que progressistas devem cumprir agenda pela qual foram eleitos


Victor Schneider
Em pronunciamento na 1ª reunião da Mobilização Progressista Global, em Barcelona, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mandou um recado à esquerda ao dizer neste sábado (18) que a ascensão da extrema-direita pelo mundo está ligada a uma desconexão entre o discurso e a prática de governos progressistas.
Para Lula, partidos de esquerda perderam a credibilidade entre o eleitorado por assumir mandatos com uma promessa mas, quando no governo, aplicarem medidas de austeridade fiscal e contração de gastos públicos.
“Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende que o outro lado se apresenta agora como antissistema. O primeiro mandamento para os progressistas tem que ser a coerência. Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo, mesmo que boa parte da população não se veja como progressista, ela quer o que nós propomos”, afirmou o petista a uma plateia formada por líderes globais em defesa da democracia e do multilateralismo.
O petista disse que a falta do cumprimento de pautas ligadas à garantia de acesso digno a serviços básicos e uma jornada de trabalho equilibrada com o ganho salarial foi capitalizada pela extrema-direita, que “canalizou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras".
Na fileira em frente a Lula acompanharam o discurso figuras como o ex-premiê da Espanha José Luis Zapatero (2004-2011) e o atual, Pedro Sánchez; a primeira-dama Janja; e o governador de Minnesota, Tim Walz, candidato a vice-presidente pelo Partido Democrata na chapa de Kamala Harris em 2024.
“A gente tem que entender uma coisa muito importante: várias vezes fomos vítimas da nossa inocência política. Quantas vezes, Pedro [Sánchez], a gente ganha a eleição e depois a imprensa, o sistema financeiro, os acadêmicos conservadores escrevem artigos e matérias na imprensa obrigando a gente a tentar destruir aquilo que foi a razão da nossa eleição? A gente vai ficando com medo, tentando agradar o mercado, agradar o empresário. E o que acontece é que nós acabamos ficando desmoralizados", afirmou.
Lula apontou o dedo para bilionários como os verdadeiros culpados pela crise global e atribuiu ao grupo – que, segundo a Forbes, reúne hoje 3.428 pessoas – a responsabilidade pela concentração de renda, a destruição da natureza, a fragmentação social via manipulação de algoritmos e a exploração do trabalho.
Na sequência, o petista soltou uma indireta mirando a família Bolsonaro ao citar as incongruências praticadas pela direita.
“Nosso papel é desmascarar essas forças, aqueles que dizem estar ao lado do povo, mas governam para os mais ricos. Que dizem ser patriotas, mas põem a soberania à venda e pedem sanções contra o seu próprio país; que proclamam defender a família, mas fecham os olhos para a violência contra as mulheres e o abuso sexual de crianças; que se declaram donos da verdade, mas espalham mentiras e desinformação; que se consideram homem de Deus, mas não tem amor ao próximo; que falam em liberdade, mas perseguem quem é diferente”.
Mais cedo, durante o 4ª encontro do Fórum em Defesa da Democracia, Lula voltou a criticar a Organização das Nações Unidas (ONU) pela incapacidade de impedir conflitos globais. Durante a tarde, ele fez uma cobrança direta voltada aos líderes dos EUA, China, França, Reino Unido e Rússia, que compõem o núcleo duro do Conselho de Segurança e tem direito a vetar resoluções.










