Ministra recebeu 12 buquês e um vaso de orquídea após desabafo no STF; magistradas destacam trajetória e prestam solidariedade à Cármen
Gabriela Tunes
Flores enviadas para ministra Cármen Lúcia após sessão de terça-feira | Reprodução
Doze buquês de flores e um vaso de orquídea chegaram ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quarta-feira (16) com uma carta carinhosa dizendo: “A senhora não está sozinha”.
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As flores foram enviadas à ministra Cármen Lúcia por 12 coletivos de juízas de diferentes tribunais do país, um dia depois de a magistrada expor, durante sessão que avaliava a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes, a tristeza e a consternação diante da crise enfrentada pelo Supremo.
Junto às flores, uma carta. No texto, as magistradas deixam de lado processos, votos e divergências jurídicas para falar diretamente à mulher por trás da toga.
“Ouvimos ontem sua voz, sua tristeza, sua consternação”, diz um dos trechos.
A manifestação faz referência ao discurso de Cármen Lúcia durante a sessão de terça-feira (15), quando a ministra pediu desculpas à população brasileira e se questionou sobre o que poderia ter feito para contribuir para que o Supremo não chegasse ao atual momento de tensão.
A fala sensibilizou as magistradas.
Na carta, elas fazem uma distinção entre responsabilidade e culpa e pedem que Cármen Lúcia não carregue individualmente o peso de uma crise que envolve a instituição.
“Não transforme em culpa pessoal a tristeza de quem ainda se importa profundamente”, afirmam.
A carta também resgata a trajetória de Cármen Lúcia e a experiência de mulheres que ocupam espaços historicamente marcados pela presença masculina.
Em um dos trechos mais pessoais, as magistradas dizem que, por algumas horas, Cármen Lúcia não precisa ser a ministra encarregada de encontrar a palavra certa ou a juíza que precisa apresentar uma solução.
“Pode simplesmente ser Cármen.”
Hoje, segundo o relatório Justiça em Números 2026, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), as mulheres representam 39,4% da magistratura brasileira. Os homens são 60,3%. (CNJ)
Veja a íntegra da carta:
“Hoje, estas flores chegam de diferentes Tribunais, trazidas por mulheres que quiseram lhe dizer uma coisa muito simples: a senhora não está sozinha.
Ouvimos ontem sua voz, sua tristeza, sua consternação. E ouvimos quando a senhora buscou em Clarice Lispector as palavras para traduzir um sentimento que talvez já não coubesse inteiramente nas palavras.
Foi à Clarice de Mineirinho que a senhora recorreu — justamente a Clarice que se inquieta diante da Justiça e que, ao olhar para a dor do outro, também olha para dentro de si:
‘Eu não me perdi, mas experimentei a perdição.’
Talvez tenha sido justamente nesse instante, quando a Ministra recorreu à literatura para conseguir falar, que muitas de nós enxergamos mais claramente a mulher.
A mulher que existe antes da toga e para além dela. A menina de Minas que cresceu ouvindo da mãe que, para chegar ao mesmo lugar que os homens, as mulheres precisariam trabalhar mais.
A filha que aprendeu com o pai o tamanho do compromisso de ser juíza. A mulher que trabalhou, estudou, persistiu e chegou a um lugar que, antes dela, pouquíssimas mulheres haviam alcançado.
E talvez por conhecermos um pouco dessa história tenha nos tocado tanto ouvi-la pedir desculpas.
A senhora se perguntou se poderia ter feito mais. Se poderia ter ajudado mais. Se poderia ter contribuído para devolver serenidade a um momento tão difícil. E foi então que sentimos vontade de lhe responder. Há uma diferença imensa entre sentir responsabilidade e transformar esse sentimento em culpa.
Talvez nós, mulheres, conheçamos particularmente bem esse lugar: o de, diante de uma ruptura que não produzimos sozinhas, procurarmos primeiro dentro de nós aquilo que poderíamos ter feito diferente. O de nos perguntarmos se faltou alguma palavra, algum gesto, alguma tentativa a mais.
Por isso, ministra, estas flores não chegam para lhe pedir explicações ou respostas.
Chegam para lhe dizer, com carinho: não transforme em culpa pessoal a tristeza de quem ainda se importa profundamente.
Ontem, a senhora nos levou a Clarice. E nós voltamos a ela procurando alguma coisa que pudéssemos lhe devolver. Encontramos, em ‘A Paixão Segundo G.H’: ‘Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém me está dando a mão.’
Talvez estas flores sejam exatamente isso. Uma mão. Na verdade, muitas. Mãos de mulheres que também vestem toga. Não nos cabe, nesta carta, falar de processos, votos ou divergências. Cabe-nos falar da mulher que, em meio a tudo isso, ainda se permitiu sentir.
Mulheres de diferentes cidades, diferentes tribunais, diferentes histórias, que reconheceram ontem não apenas a Ministra do Supremo Tribunal Federal, mas uma mulher profundamente tocada pelo peso do lugar que ocupa.
Mulheres que conhecem, cada uma à sua maneira, o peso de decidir. Que sabem o que é entrar em espaços onde, durante tanto tempo, quase todas as cadeiras foram ocupadas por homens. Que conhecem a cobrança de acertar, de resistir, de manter a serenidade e, tantas vezes, de parecer mais fortes do que realmente se sentem.
Hoje, porém, não queremos lhe pedir força. A senhora já precisou ser forte muitas vezes. Não queremos que procure mais uma vez dentro de si aquilo que poderia ter feito.
Talvez, por algumas horas, a senhora possa simplesmente deixar de ser a Ministra que precisa encontrar a palavra certa, a juíza que precisa solucionar, a mulher que sente que deveria ter conseguido fazer mais.
Pode simplesmente ser Cármen. A filha de Anésia e Florival. A menina de Minas.
A mulher que chegou tão longe e que, depois de tantos anos, ainda conserva algo que nenhuma toga deveria nos retirar: a capacidade de se importar, de se entristecer e de se comover.
Talvez tenha sido exatamente isso que vimos ontem. Não uma confissão de culpa. Humanidade. E foi a essa humanidade que quisemos responder.
Clarice precisou imaginar que alguém lhe dava a mão para conseguir atravessar a experiência que narrava. A senhora, ministra, não precisa imaginar. Estamos aqui. Por trás de cada uma destas flores existe uma mulher estendendo a mão. E, se ontem a senhora experimentou a perdição, hoje queremos apenas lhe lembrar que não precisa atravessá-la em solidão.
Receba estas flores como aquilo que elas pretendem ser: presença. E receba, junto delas, o carinho e o abraço de mulheres que, de diferentes lugares do Brasil, quiseram chegar um pouco mais perto da senhora hoje.
Com carinho, respeito e gratidão.”
Juízas enviam flores e carta a Cármen LúciaMinistra recebeu 12 buquês e um vaso de orquídea após desabafo no STF; magistradas destacam trajetória e prestam solidariedade à CármenPolítica2026-09-16T16:23:24.915ZDoze buquês de flores e um vaso de orquídea chegaram ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quarta-feira (16) com uma carta carinhosa dizendo: “A senhora não está sozinha”. As flores foram enviadas à ministra Cármen Lúcia por 12 coletivos de juízas de diferentes tribunais do país, um dia depois de a magistrada expor, durante sessão que avaliava a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes, Junto às flores, uma carta. No texto, as magistradas deixam de lado processos, votos e divergências jurídicas para falar diretamente à mulher por trás da toga. “Ouvimos ontem sua voz, sua tristeza, sua consternação”, diz um dos trechos. A manifestação faz referência ao discurso de Cármen Lúcia durante a sessão de terça-feira (15), quando a ministra pediu desculpas à população brasileira e se questionou sobre o que poderia ter feito para contribuir para que o Supremo não chegasse ao atual momento de tensão. A fala sensibilizou as magistradas. Na carta, elas fazem uma distinção entre responsabilidade e culpa e pedem que Cármen Lúcia não carregue individualmente o peso de uma crise que envolve a instituição. “Não transforme em culpa pessoal a tristeza de quem ainda se importa profundamente”, afirmam. A carta também resgata a trajetória de Cármen Lúcia e a experiência de mulheres que ocupam espaços historicamente marcados pela presença masculina. Em um dos trechos mais pessoais, as magistradas dizem que, por algumas horas, Cármen Lúcia não precisa ser a ministra encarregada de encontrar a palavra certa ou a juíza que precisa apresentar uma solução. “Pode simplesmente ser Cármen.” Hoje, segundo o relatório Justiça em Números 2026, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), as mulheres representam 39,4% da magistratura brasileira. Os homens são 60,3%. (CNJ) Veja a íntegra da carta: “Hoje, estas flores chegam de diferentes Tribunais, trazidas por mulheres que quiseram lhe dizer uma coisa muito simples: a senhora não está sozinha. Ouvimos ontem sua voz, sua tristeza, sua consternação. E ouvimos quando a senhora buscou em Clarice Lispector as palavras para traduzir um sentimento que talvez já não coubesse inteiramente nas palavras. Foi à Clarice de Mineirinho que a senhora recorreu — justamente a Clarice que se inquieta diante da Justiça e que, ao olhar para a dor do outro, também olha para dentro de si: ‘Eu não me perdi, mas experimentei a perdição.’ Talvez tenha sido justamente nesse instante, quando a Ministra recorreu à literatura para conseguir falar, que muitas de nós enxergamos mais claramente a mulher. A mulher que existe antes da toga e para além dela. A menina de Minas que cresceu ouvindo da mãe que, para chegar ao mesmo lugar que os homens, as mulheres precisariam trabalhar mais. A filha que aprendeu com o pai o tamanho do compromisso de ser juíza. A mulher que trabalhou, estudou, persistiu e chegou a um lugar que, antes dela, pouquíssimas mulheres haviam alcançado. E talvez por conhecermos um pouco dessa história tenha nos tocado tanto ouvi-la pedir desculpas. A senhora se perguntou se poderia ter feito mais. Se poderia ter ajudado mais. Se poderia ter contribuído para devolver serenidade a um momento tão difícil. E foi então que sentimos vontade de lhe responder. Há uma diferença imensa entre sentir responsabilidade e transformar esse sentimento em culpa. Talvez nós, mulheres, conheçamos particularmente bem esse lugar: o de, diante de uma ruptura que não produzimos sozinhas, procurarmos primeiro dentro de nós aquilo que poderíamos ter feito diferente. O de nos perguntarmos se faltou alguma palavra, algum gesto, alguma tentativa a mais. Por isso, ministra, estas flores não chegam para lhe pedir explicações ou respostas. Chegam para lhe dizer, com carinho: não transforme em culpa pessoal a tristeza de quem ainda se importa profundamente. Ontem, a senhora nos levou a Clarice. E nós voltamos a ela procurando alguma coisa que pudéssemos lhe devolver. Encontramos, em ‘A Paixão Segundo G.H’: ‘Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém me está dando a mão.’ Talvez estas flores sejam exatamente isso. Uma mão. Na verdade, muitas. Mãos de mulheres que também vestem toga. Não nos cabe, nesta carta, falar de processos, votos ou divergências. Cabe-nos falar da mulher que, em meio a tudo isso, ainda se permitiu sentir. Mulheres de diferentes cidades, diferentes tribunais, diferentes histórias, que reconheceram ontem não apenas a Ministra do Supremo Tribunal Federal, mas uma mulher profundamente tocada pelo peso do lugar que ocupa. Mulheres que conhecem, cada uma à sua maneira, o peso de decidir. Que sabem o que é entrar em espaços onde, durante tanto tempo, quase todas as cadeiras foram ocupadas por homens. Que conhecem a cobrança de acertar, de resistir, de manter a serenidade e, tantas vezes, de parecer mais fortes do que realmente se sentem. Hoje, porém, não queremos lhe pedir força. A senhora já precisou ser forte muitas vezes. Não queremos que procure mais uma vez dentro de si aquilo que poderia ter feito. Talvez, por algumas horas, a senhora possa simplesmente deixar de ser a Ministra que precisa encontrar a palavra certa, a juíza que precisa solucionar, a mulher que sente que deveria ter conseguido fazer mais. Pode simplesmente ser Cármen. A filha de Anésia e Florival. A menina de Minas. A mulher que chegou tão longe e que, depois de tantos anos, ainda conserva algo que nenhuma toga deveria nos retirar: a capacidade de se importar, de se entristecer e de se comover. Talvez tenha sido exatamente isso que vimos ontem. Não uma confissão de culpa. Humanidade. E foi a essa humanidade que quisemos responder. Clarice precisou imaginar que alguém lhe dava a mão para conseguir atravessar a experiência que narrava. A senhora, ministra, não precisa imaginar. Estamos aqui. Por trás de cada uma destas flores existe uma mulher estendendo a mão. E, se ontem a senhora experimentou a perdição, hoje queremos apenas lhe lembrar que não precisa atravessá-la em solidão. Receba estas flores como aquilo que elas pretendem ser: presença. E receba, junto delas, o carinho e o abraço de mulheres que, de diferentes lugares do Brasil, quiseram chegar um pouco mais perto da senhora hoje. Com carinho, respeito e gratidão.”São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/politica/juizas-enviam-flores-e-carta-a-carmen-lucia
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