Falas de Lula sobre Venezuela não impactam negociações do tarifaço, avalia especialista
Rodrigo Medina, da Unifesp, descarta que postura do brasieliro atrapalhe negociações sobre tarifas. Encontro entre Trump e Lula deve acontecer no domingo (26)
Lara Curcino, Victória Melo
As falas feitas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos últimos dias sobre a Venezuela e em defesa da soberania da América Latina não impactam a recente aproximação diplomática entre Brasil e Estados Unidos. A avaliação é do chefe do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Rodrigo Medina. Ele também considera que o posicionamento do presidente brasieliro não atrapalha a negociação dos dois países por um recuo nas tarifas de 50% aplicadas pelo governo americano sobre os produtos brasileiros.
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“O presidente Lula fez as declarações, é claro, em tom de crítica, mas é importante recordar que ele não citou nominalmente Donald Trump, a referência dele foi à interferência política na região, ao dizer que intervenções estrangeiras são danosas à América Latina e que é preciso manter a região como uma zona pacífica. É claro que o fato-base para essas declarações é a crise no Mar do Caribe, instaurada com um posicionamento de navios de guerra norte-americanos e o bombardeio em embarcações venezuelanas sem absolutamente nenhuma comprovação de que estariam a serviço do narcotráfico. E, ainda que [as embarcações] estivessem, [os EUA] fizeram isso sem respeito aos institutos basilares, à democracia liberal e ao devido processo legal. Some-se a isso a autorização recente de operações da CIA em solo venezuelano”, pontuou o especialista.
No próximo domingo (26), Lula e Trump devem se reunir na cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), em Kuala Lumpur, na Malásia. A expectativa é de que os mandatários conversem sobre as tarifas aplicadas pelos EUA ao Brasil, após reunião entre o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, e o secretário de Estado americano, Marco Rubio, na semana passada.
Para Medina, as declarações de Lula sobre a Venezuela e os atritos recentes entre os Estados Unidos e o país caribenho não são “um tema prioritário” para nenhum dos dois líderes e não devem ser discutidos em detalhes no encontro.
“É possível que seja tratado [o assunto da Venezuela], mas não é um tema prioritário na agenda da política externa brasileira, nem da parte do governo Trump. Não acredito que seja o caso de tocar nesse ponto de tensão, até porque a prioridade é superar os termos desta guerra tarifária movida pelos Estados Unidos contra uma série de países. Também pesa [para o governo americano] o fato de que a diplomacia brasileira foi movida para encontrar alternativas à taxação dos EUA, que têm sido bastante exitosas, a exemplo do tratado entre o Mercosul e a União Europeia. Então os dois países buscam um acordo com celeridade e alguns pontos sensíveis devem ser evitados por ambas as delegações”, apontou o professor.
Falas de Lula
O presidente Lula disse, na noite da última quinta-feira (16), que líderes de outros países não devem “dar palpite” na Venezuela, frisando que “o povo venezuelano é dono do seu destino”. Apesar de não citar Donald Trump, a declaração do petista ocorreu em meio às movimentações dos Estados Unidos em Caracas. A fala aconteceu durante participação no congresso partidário do PCdoB, em Brasília.
Também sem mencionar nominalmente Trump, Lula disse nesta segunda-feira (20) que a América Latina é um continente livre e que "intervenções estrangeiras podem causar danos maiores". A fala do presidente foi feita no Itamaraty, durante a chegada oficial de 28 novos embaixadores no Brasil. Dentre eles, 16 da África e Ásia, sete da Europa e três da América.
Entenda
Venezuela e Estados Unidos vivem momentos de tensão desde agosto, quando Washington enviou navios militares ao sul do Caribe, próximo à costa venezuelana, em uma missão contra o narcotráfico. A operação despertou alerta no presidente Nicolás Maduro, que começou a mobilizar militares e milicianos.
Isso porque o venezuelano teme que a operação naval norte-americana seja uma ofensiva disfarçada, com o objetivo de mudar o regime do país à força. Washington considera o presidente como um dos principais narcotraficantes do mundo, alegando que o político usa organizações criminosas internacionais para levar drogas aos Estados Unidos.
A tensão entre os países aumentou nas últimas semanas, quando militares norte-americanos lançaram ataques contra embarcações venezuelanas que supostamente transportavam narcóticos ilegais. Desde então, Maduro ordenou reforço no patrulhamento da fronteira, enviando 25 mil soldados das Forças Armadas ao Caribe e aumentando as inspeções aéreas sobre os navios norte-americanos.
Já na última quarta-feira (15), Trump autorizou a Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês) a conduzir operações secretas na Venezuela. A Casa Branca deixou claro, em conversas particulares citadas pelo The New York Times, que o objetivo final é remover Maduro do poder.
Falas de Lula sobre Venezuela não impactam negociações do tarifaço, avalia especialistaRodrigo Medina, da Unifesp, descarta que postura do brasieliro atrapalhe negociações sobre tarifas. Encontro entre Trump e Lula deve acontecer no domingo (26)Política2025-10-20T23:42:51.307ZAs falas feitas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos últimos dias eAmérica Latina não impactam a recente aproximação diplomática entre Brasil e Estados Unidos. A avaliação é do chefe do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Rodrigo Medina. Ele também considera que o posicionamento do presidente brasieliro não atrapalha a por um recuo nas tarifas de 50% aplicadas pelo governo americano sobre os produtos brasileiros. “O presidente Lula fez as declarações, é claro, em tom de crítica, mas é importante recordar que ele não citou nominalmente Donald Trump, a referência dele foi à interferência política na região, ao dizer que intervenções estrangeiras são danosas à América Latina e que é preciso manter a região como uma zona pacífica. É claro que o fato-base para essas declarações é a crise no Mar do Caribe, e o bombardeio em embarcações venezuelanas sem absolutamente nenhuma comprovação de que estariam a serviço do narcotráfico. E, ainda que [as embarcações] estivessem, [os EUA] fizeram isso sem respeito aos institutos basilares, à democracia liberal e ao devido processo legal. Some-se a isso a autorização em solo venezuelano”, pontuou o especialista. No próximo domingo (26), na cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), em Kuala Lumpur, na Malásia. A expectativa é de que os mandatários conversem sobre as tarifas aplicadas pelos EUA ao Brasil, entre o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, e o secretário de Estado americano, Marco Rubio, na semana passada. Para Medina, as declarações de Lula sobre a Venezuela e os atritos recentes entre os Estados Unidos e o país caribenho não são “um tema prioritário” para nenhum dos dois líderes e não devem ser discutidos em detalhes no encontro. “É possível que seja tratado [o assunto da Venezuela], mas não é um tema prioritário na agenda da política externa brasileira, nem da parte do governo Trump. Não acredito que seja o caso de tocar nesse ponto de tensão, até porque a prioridade é superar os termos desta guerra tarifária movida pelos Estados Unidos contra uma série de países. Também pesa [para o governo americano] o fato de que a diplomacia brasileira foi movida para encontrar alternativas à taxação dos EUA, que têm sido bastante exitosas, a exemplo do tratado entre o Mercosul e a União Europeia. Então os dois países buscam um acordo com celeridade e alguns pontos sensíveis devem ser evitados por ambas as delegações”, apontou o professor. Falas de Lula O presidente Lula disse, na noite da última quinta-feira (16), que líderes de outros países não devem “dar palpite” na Venezuela, frisando que “o povo venezuelano é dono do seu destino”. Apesar de não citar Donald Trump, a declaração do petista ocorreu em meio às movimentações dos Estados Unidos em Caracas. A fala aconteceu durante participação no congresso partidário do PCdoB, em Brasília. Também sem mencionar nominalmente Trump, Lula disse nesta segunda-feira (20) que a América Latina é um continente livre e que "intervenções estrangeiras podem causar danos maiores". A fala do presidente foi feita no Itamaraty, durante a chegada oficial de 28 novos embaixadores no Brasil. Dentre eles, 16 da África e Ásia, sete da Europa e três da América. Entenda Venezuela e Estados Unidos vivem momentos de tensão desde agosto, quando Washington enviou navios militares ao sul do Caribe, próximo à costa venezuelana, em uma missão contra o narcotráfico. A operação despertou alerta no presidente Nicolás Maduro, que começou a mobilizar militares e milicianos. Isso porque o venezuelano teme que a operação naval norte-americana seja uma ofensiva disfarçada, com o objetivo de mudar o regime do país à força. Washington considera o presidente como um dos principais narcotraficantes do mundo, alegando que o político usa organizações criminosas internacionais para levar drogas aos Estados Unidos. A tensão entre os países aumentou nas últimas semanas, quando militares norte-americanos lançaram ataques contra embarcações venezuelanas que supostamente transportavam narcóticos ilegais. Desde então, Maduro ordenou reforço no patrulhamento da fronteira, enviando 25 mil soldados das Forças Armadas ao Caribe e aumentando as inspeções aéreas sobre os navios norte-americanos. Já na última quarta-feira (15), Trump autorizou a Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês) a conduzir operações secretas na Venezuela. A Casa Branca deixou claro, em conversas particulares citadas pelo The New York Times, que o objetivo final é remover Maduro do poder.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/politica/falas-de-lula-sobre-venezuela-nao-impactam-negociacoes-do-tarifaco-avalia-especialista