Política

Falas de Lula sobre Venezuela não impactam negociações do tarifaço, avalia especialista

Rodrigo Medina, da Unifesp, descarta que postura do brasieliro atrapalhe negociações sobre tarifas. Encontro entre Trump e Lula deve acontecer no domingo (26)

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Lara Curcino, Victória Melo
20/10/2025, 23:42 • Atualizado em 20/10/2025, 23:42
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As falas feitas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos últimos dias sobre a Venezuela e em defesa da soberania da América Latina não impactam a recente aproximação diplomática entre Brasil e Estados Unidos. A avaliação é do chefe do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Rodrigo Medina. Ele também considera que o posicionamento do presidente brasieliro não atrapalha a negociação dos dois países por um recuo nas tarifas de 50% aplicadas pelo governo americano sobre os produtos brasileiros.

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“O presidente Lula fez as declarações, é claro, em tom de crítica, mas é importante recordar que ele não citou nominalmente Donald Trump, a referência dele foi à interferência política na região, ao dizer que intervenções estrangeiras são danosas à América Latina e que é preciso manter a região como uma zona pacífica. É claro que o fato-base para essas declarações é a crise no Mar do Caribe, instaurada com um posicionamento de navios de guerra norte-americanos e o bombardeio em embarcações venezuelanas sem absolutamente nenhuma comprovação de que estariam a serviço do narcotráfico. E, ainda que [as embarcações] estivessem, [os EUA] fizeram isso sem respeito aos institutos basilares, à democracia liberal e ao devido processo legal. Some-se a isso a autorização recente de operações da CIA em solo venezuelano”, pontuou o especialista.

No próximo domingo (26), Lula e Trump devem se reunir na cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), em Kuala Lumpur, na Malásia. A expectativa é de que os mandatários conversem sobre as tarifas aplicadas pelos EUA ao Brasil, após reunião entre o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, e o secretário de Estado americano, Marco Rubio, na semana passada.

Para Medina, as declarações de Lula sobre a Venezuela e os atritos recentes entre os Estados Unidos e o país caribenho não são “um tema prioritário” para nenhum dos dois líderes e não devem ser discutidos em detalhes no encontro.

“É possível que seja tratado [o assunto da Venezuela], mas não é um tema prioritário na agenda da política externa brasileira, nem da parte do governo Trump. Não acredito que seja o caso de tocar nesse ponto de tensão, até porque a prioridade é superar os termos desta guerra tarifária movida pelos Estados Unidos contra uma série de países. Também pesa [para o governo americano] o fato de que a diplomacia brasileira foi movida para encontrar alternativas à taxação dos EUA, que têm sido bastante exitosas, a exemplo do tratado entre o Mercosul e a União Europeia. Então os dois países buscam um acordo com celeridade e alguns pontos sensíveis devem ser evitados por ambas as delegações”, apontou o professor.

Falas de Lula

O presidente Lula disse, na noite da última quinta-feira (16), que líderes de outros países não devem “dar palpite” na Venezuela, frisando que “o povo venezuelano é dono do seu destino”. Apesar de não citar Donald Trump, a declaração do petista ocorreu em meio às movimentações dos Estados Unidos em Caracas. A fala aconteceu durante participação no congresso partidário do PCdoB, em Brasília.

Também sem mencionar nominalmente Trump, Lula disse nesta segunda-feira (20) que a América Latina é um continente livre e que "intervenções estrangeiras podem causar danos maiores". A fala do presidente foi feita no Itamaraty, durante a chegada oficial de 28 novos embaixadores no Brasil. Dentre eles, 16 da África e Ásia, sete da Europa e três da América.

Entenda

Venezuela e Estados Unidos vivem momentos de tensão desde agosto, quando Washington enviou navios militares ao sul do Caribe, próximo à costa venezuelana, em uma missão contra o narcotráfico. A operação despertou alerta no presidente Nicolás Maduro, que começou a mobilizar militares e milicianos.

Isso porque o venezuelano teme que a operação naval norte-americana seja uma ofensiva disfarçada, com o objetivo de mudar o regime do país à força. Washington considera o presidente como um dos principais narcotraficantes do mundo, alegando que o político usa organizações criminosas internacionais para levar drogas aos Estados Unidos.

A tensão entre os países aumentou nas últimas semanas, quando militares norte-americanos lançaram ataques contra embarcações venezuelanas que supostamente transportavam narcóticos ilegais. Desde então, Maduro ordenou reforço no patrulhamento da fronteira, enviando 25 mil soldados das Forças Armadas ao Caribe e aumentando as inspeções aéreas sobre os navios norte-americanos.

Já na última quarta-feira (15), Trump autorizou a Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês) a conduzir operações secretas na Venezuela. A Casa Branca deixou claro, em conversas particulares citadas pelo The New York Times, que o objetivo final é remover Maduro do poder.

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