Saiba como Polícia Federal acessou celular bloqueado de Daniel Vorcaro
Especialista explica como funcionam as ferramentas de perícia digital usadas para acessar mensagens e arquivos de smartphones apreendidos em investigações

Warley Júnior
A Polícia Federal (PF) conseguiu acessar mensagens, contatos e outros dados armazenados em celulares apreendidos do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso na última quarta-feira (4), mesmo com o aparelho bloqueado ou protegido por mecanismos de segurança. O acesso às informações é feito por meio de técnicas de perícia digital forense, que utilizam softwares especializados para extrair e analisar dados armazenados em smartphones.
Ferramentas usadas em investigações, como a israelense Cellebrite, são capazes de contornar sistemas de proteção do aparelho e recuperar conteúdos armazenados no dispositivo.
O perito digital forense Marcos Pitanga explica que as forças de segurança utilizam softwares avançados para acessar dados mesmo quando o celular está bloqueado por senha, reconhecimento facial ou outros mecanismos.
"A Polícia Federal possui ferramental, ferramentas forenses, os melhores do mundo para fazer esse tipo de análise. Existem ferramentas próprias para ultrapassar os mecanismos de segurança, como o identificador facial ou o PIN, que seria a senha", afirma.
Segundo ele, após o desbloqueio do aparelho, é possível extrair diferentes tipos de informações armazenadas no telefone.
"A ferramenta acessa conversas de aplicativos de mensagens, fotos, vídeos, áudios, registros de chamadas, geolocalização e até dados associados a imagens. Dependendo da foto, por exemplo, é possível identificar exatamente o local onde ela foi tirada", diz.
Entre os dados recuperados pela investigação está também a lista de contatos armazenada no aparelho. Segundo informações obtidas pela analista Basília Rodrigues, do SBT News, a agenda extraída de um dos telefones de Vorcaro inclui números de autoridades dos Três Poderes.
Quebra de criptografia e desbloqueio do celular
Para acessar os dados, os peritos utilizam softwares que exploram vulnerabilidades do sistema do aparelho e permitem ultrapassar as camadas de segurança impostas pelo fabricante. Segundo Marcos Pitanga, cada modelo de celular apresenta desafios diferentes para os investigadores.
"Tudo depende do tipo de aparelho, da marca, da versão do sistema operacional. O celular é um dos dispositivos mais difíceis de se fazer perícia forense, porque cada fabricante e cada versão conta uma história diferente", explica.
Após o desbloqueio, os especialistas fazem uma cópia forense do conteúdo do dispositivo, que passa por análise em softwares específicos.
Mensagens apagadas ou de visualização única
Mesmo quando conversas são apagadas pelo usuário, ainda pode ser possível recuperar parte do conteúdo durante a perícia digital. Isso ocorre porque fragmentos das informações podem permanecer gravados na memória do aparelho ou em bancos de dados internos dos aplicativos.
"Mesmo que a mensagem tenha sido apagada da interface do aplicativo, muitas vezes os registros continuam armazenados em bancos de dados internos ou áreas da memória do celular. A perícia consegue analisar esses vestígios e, em alguns casos, reconstruir o conteúdo", afirma o especialista.
A Polícia Federal encontrou no celular de Vorcaro mensagens enviadas com visualização única, aquelas que só podem ser abertas uma vez e desaparecem depois. Apesar disso, segundo Pitanga, a perícia digital pode conseguir recuperar esse tipo de conteúdo em determinadas circunstâncias.
"A gente consegue inclusive reviver aquelas mensagens de visualização única, que normalmente o pessoal gosta muito de usar para não deixar vestígios. Às vezes nem usando a ferramenta. Com outras metodologias forenses, conseguimos trazer de volta uma informação que foi apagada por visualização única. Dá mais trabalho, sim, mas é possível", explica.
O especialista ressalta, porém, que a recuperação depende de vários fatores técnicos.
"Na perícia, a gente nunca pode dar certeza de nada. Mas a probabilidade é muito alta de se conseguir reviver, dependendo do aparelho, da versão do sistema e do próprio aplicativo", diz.
A análise de celulares apreendidos em investigações depende de autorização judicial. Sem essa permissão, acessar o conteúdo de um aparelho pode configurar crime. Segundo Pitanga, em operações com mandado de busca e apreensão, a Justiça normalmente autoriza a chamada extração forense dos dados.







