PF investiga Deolane por lavagem de dinheiro em esquema que levou Poze e Ryan SP para prisão
Influenciadora teria movimentado R$ 5,3 milhões, segundo investigação; ela nega irregularidades e diz que valores têm origem legal


Antonio Souza
SBT News
A Polícia Federal (PF) investiga a influenciadora Deolane Bezerra por suspeita de participação em um esquema de lavagem de dinheiro que pode ter movimentado ao menos R$ 1,6 bilhão.
A apuração faz parte da Operação Narcofluxo, deflagrada na última quarta-feira (15), que também levou à prisão dos funkeiros MC Poze do Rodo e MC Ryan SP, apontado como peça central do esquema.
Segundo a Polícia Federal, Deolane teria movimentado cerca de R$ 5,3 milhões entre maio e junho de 2025. O relatório indica o uso de uma chamada “conta de passagem”, mecanismo em que valores entram e saem rapidamente de contas bancárias para dificultar o rastreamento da origem do dinheiro.
De acordo com a investigação, a influenciadora recebeu R$ 430 mil de uma produtora ligada a MC Ryan SP. Para a PF, a transação pode indicar um vínculo financeiro entre os suspeitos.
Os investigadores apontam que empresas associadas ao cantor são suspeitas de misturar receitas de shows com recursos de origem ilícita, como apostas e rifas digitais.
Ainda segundo o relatório, parte dos valores movimentados foi destinada a uma transferência de R$ 1,16 milhão ao Instituto Projeto Neymar Jr., além de pagamentos superiores a R$ 1,1 milhão à empresa Sul Import Veículos e gastos com empresas ligadas à blindagem automotiva.
A PF avalia que o destino dos recursos pode indicar tentativa de integrar valores ao mercado formal, prática comum em esquemas de lavagem de dinheiro.
O que diz Deolane Bezerra?

Pelas redes sociais, Deolane negou irregularidades e afirmou que o dinheiro recebido tem origem lícita.
Segundo a influenciadora, os R$ 430 mil recebidos de MC Ryan SP são resultado da venda de um carro, com contrato formalizado em cartório e comprovantes de transferência.
“Eu vendi um carro para o Ryan. Tem contrato, tem assinatura, tem comprovantes de tudo”, afirmou.
Ela também declarou que a transferência ao Instituto Neymar não tem relação com o valor recebido.
“A doação saiu da minha conta pessoal e é maior do que o valor que recebi. Está tudo declarado no imposto de renda”, disse.
Deolane ainda criticou o que chamou de perseguição e afirmou que mantém sua vida financeira devidamente documentada.
Suspeitas da PF
Para os investigadores, as movimentações indicam possível uso de contas para ocultar a origem do dinheiro, além de relações financeiras entre investigados e tentativa de inserir recursos suspeitos na economia formal.
O relatório também aponta que Deolane já é investigada em outros casos envolvendo rifas digitais e crimes contra a economia popular.
A investigação segue em andamento e pode resultar em novas medidas judiciais.
Operação Narcofluxo: como funcionava o esquema?
A Polícia Federal (PF) identificou um sistema estruturado de lavagem de dinheiro que teria movimentado R$ 1,63 bilhão no Brasil e no exterior, segundo as investigações deflagradas nesta quarta-feira (15). A ação levou à prisão dos MCs Poze do Rodo e Ryan SP; este último é apontado na investigação como o principal nome da estrutura de movimentação ilícita.
A operação também teve como alvo Raphael Sousa Oliveira, criador da página Choquei, perfil que tem mais de 27 milhões de seguidores no Instagram, além do influenciador Chrys D
O procedimento desta quarta-feira é um desdobramento da Operação Narco Bet, que apura o uso de apostas para a lavagem de dinheiro. Segundo a PF, o grupo utilizava recursos de origem criminosa, inclusive do tráfico internacional de drogas, movimentados por dinheiro em espécie, transferências bancárias e criptoativos, especialmente o USDT (Tether).
Essa combinação de operações financeiras formais, transporte de dinheiro em espécie e transações com ativos digitais, aumentava a complexidade do esquema e dificultava a identificação da origem dos recursos.
O uso de criptoativos, de acordo com a investigação, também permitia a movimentação de valores no exterior, reduzindo a capacidade de rastreamento por autoridades brasileiras e levantando suspeitas de evasão de divisas.
Os investigadores apontam ainda o uso de estruturas empresariais para dar aparência legal aos valores movimentados. Essas empresas teriam sido utilizadas para misturar recursos lícitos e ilícitos, prática comum em esquemas de lavagem.
Como resposta, a Justiça Federal determinou restrições societárias e o sequestro de bens ligados aos investigados, numa tentativa de interromper o fluxo financeiro.
MC Ryan SP no núcleo da organização
A investigação indica que MC Ryan SP (Ryan Santana dos Santos) seria o “líder e beneficiário econômico da engrenagem”.
Segundo a PF, ele atuaria no centro da organização, com participação no controle de “empresas ligadas à produção musical e ao entretenimento para mesclar receitas legítimas com recursos provenientes de apostas ilegais e rifas digitais”.
“Segundo apurado, o investigado teria estruturado mecanismos de blindagem patrimonial, transferindo participações societárias a familiares e pessoas interpostas, utilizando operadores financeiros para distanciar o capital ilícito de sua pessoa física antes de reinseri-lo na economia formal mediante aquisição de imóveis, veículos de luxo, joias e outros ativos de alto valor”, diz o mandado de busca e apreensão da Justiça Federal.
A defesa de Ryan diz que "todos os valores que transitam por suas contas possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos, o que sempre foi observado de maneira contínua e responsável".
Estrutura operacional
Entre os nomes citados na investigação está Chrystian Mateus Dias Ramos (Chrys Dias), apontado como um dos financiadores relevantes do esquema e ligado à empresa Casal Imports. Ele teria participado da movimentação de recursos oriundos de rifas digitais para empresas do grupo.
A PF descreve uma organização com divisão de funções. Entre os citados estão:
- Tiago de Oliveira, apontado como braço-direito de Ryan e responsável por centralizar e redistribuir recursos
- Alexandre Paula de Sousa Santos (“Belga” ou “Xandex”), que atuaria como intermediário entre plataformas de apostas e empresas do grupo;
- Rodrigo de Paula Morgado, descrito como contador e operador financeiro, com atuação na ocultação patrimonial
- Arlindma Gomes dos Santos (“Nene Gomes”), ligado à logística financeira
- Lucas Felipe Silva Martins, apontado como “testa de ferro”, que teria exercido função de conta de passagem e aquisição de bens de luxo em nome de MC Ryan SP
- José Ricardo dos Santos Junior, identificado como marketeiro e operador financeiro
- Rodrigo Inácio de Lima Oliveira, associado à produtora GR6 Explode, que já figurou em investigações anteriores relacionadas ao financiamento do PCC (Primeiro Comando da Capital);
- Henrique Alexandre Barros Viana (“Rato”), dono da Love Funk, descrito como responsável por operações financeiras sem lastro e apontado em investigações sobre lavagem de dinheiro do PCC.
No âmbito internacional, uma das estruturas centrais seria a fintech Golden Cat, ligada aos imigrantes chineses Xizhangpeng Hao (controlador) e Sun Chunyang (ex-sócio administrador da fintech).
A empresa é descrita pela Justiça Federal como uma "grande processadora de pagamentos que movimenta centenas de milhões de reais e funciona como eixo central para arrecadação de recursos provenientes de apostas ilegais".
Os valores enviados ao exterior eram destinados a Jiawei Lin.
Atuação dos MCs e dono da Choquei
A PF diz que MC Poze do Rodo (Marlon Brendon Coelho Couto da Silva) “aparece vinculado a empresas e estruturas financeiras relacionadas à circulação de recursos oriundos de rifas digitais e aposta”.
Em nota, a defesa disse "desconhecer os autos ou teor do mandado de prisão". E que, quando isso acontecer "se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário".
Sobre o influenciador Raphael Sousa Oliveira, a PF diz que o perfil Choquei atuava como “operador de mídia da organização”, recebendo altos valores diretamente de Ryan, Tiago e José Ricardo.
“Sua função consiste, em tese, na divulgação de conteúdos favoráveis ao artista e na promoção de plataformas de apostas e rifas, além de potencialmente atuar na mitigação de crises de imagens relacionadas às investigações", diz o pedido de busca e apreensão.
A assessoria da Choquei foi procurada, mas não respondeu até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.
Operação e medidas judiciais
Além das prisões, a Justiça autorizou o bloqueio de bens e outras medidas para atingir a base financeira do grupo.
Durante o cumprimento dos mandados, foram apreendidos “veículos, valores em espécie, documentos e equipamentos eletrônicos”, que devem subsidiar o aprofundamento das investigações.
Ao todo, foram expedidos 39 mandados de prisão temporária e 45 de busca e apreensão, cumpridos em 9 Estados e no Distrito Federal por determinação da Justiça Federal em Santos (SP).
Os investigados poderão responder por associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.









