Cidades

Grupo criminoso venezuelano atua no Brasil com modelo semelhante ao de facções nacionais

Tren de Aragua surgiu no sistema prisional, explora populações vulneráveis e já tem integrantes em pelo menos seis estados brasileiros

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Flavia Travassos
08/01/2026, 01:20 • Atualizado em 08/01/2026, 01:20
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Um grupo criminoso da Venezuela que atua de forma parecida com a de facções brasileiras chama a atenção das autoridades e especialistas em segurança. A organização criminosa conhecida como Tren de Aragua tem origem no sistema prisional e se estrutura a partir da exploração de pessoas em situação de vulnerabilidade.

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Atualmente, a facção já tem integrantes em ao menos seis estados brasileiros. A maior concentração está em Roraima, que faz fronteira com o território venezuelano. Segundo a Polícia Civil de Roraima, há membros da organização em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Segundo o professor do Instituto de Relações Internacionais, Leandro Piquet Carneiro, esse tipo de organização surge, em regra, dentro das prisões, explorando pessoas menos favorecidas que estão custodiadas pelo Estado. Ele explica que essas pessoas se sentem abandonadas e oprimidas e acabam recorrendo a lideranças que prometem ajuda.

“Ela é uma organização criminosa que, como a grande maioria das organizações criminosas, inclusive a nossa aqui, nasce dentro do sistema prisional, explorando, via de regra, pessoas menos favorecidas, pessoas que estão custodiadas pelo Estado, que se sentem abandonadas, se sentem oprimidas pelo Estado, e se socorrem por essas lideranças que vendem uma ideia de que eu te ajudo, eu ajudo sua família”, afirma.

Mas o preço cobrado por essa ajuda é alto. De acordo com a desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo, Ivana David, a contrapartida envolve crimes graves.

“E você, em contrapartida, extorque por mim, faz tráfico por mim e até mesmo mata por mim. Esse é o modelo do Tren de Aragua, que é um modelo conhecido pelo PCC, pelo Comando Puro, ou por todas as facções criminosas”, explica.

Leandro Piquet Carneiro afirma que a facção opera de forma local, explorando as oportunidades oferecidas pelo crime em cada região.

"Operam localmente, exploram as possibilidades que o crime oferece naquele local, que aquela comunidade vulnerável de pessoas que vem ao país, que não tem acesso a empréstimos de bancos, então eles entram com empréstimos ilegais, entram com prostituição ilegal. Então, basicamente, as grandes vítimas do Tren de Aragua hoje são os próprios venezuelanos", destaca.

A atuação de facções criminosas da Venezuela ganhou visibilidade com a escalada do conflito entre Estados Unidos e Venezuela. Em setembro do ano passado, o presidente Donald Trump divulgou vídeos de um ataque contra um barco que, segundo ele, transportava “narcoterroristas da Venezuela” e drogas. O presidente norte-americano afirmou que a embarcação pertencia à Tren de Aragua.

A facção também aparece na denúncia dos Estados Unidos contra o presidente Nicolás Maduro. Para o governo norte-americano, Maduro favorecia o trabalho dessas organizações. No entanto, especialistas em segurança e em relações internacionais ouvidos pela equipe avaliam que a prisão de Maduro pouco altera o cenário do crime na Venezuela.

Leandro Piquet Carneiro avalia que a relação entre o regime e o crime organizado é indireta. “A relação é totalmente indireta. Uma ditadura cria um ambiente institucional desorganizado, o crime se expande, militares corruptos, mas não é uma relação de parceria, é uma relação de corrupção, de ambiente institucional que favorece o crime”, afirma.

Segundo ele, a situação pode até piorar. “Pode até piorar a situação em função do enfraquecimento institucional que essa intervenção vai produzir. Não existe um plano de construção de uma instituição nova capaz de fazer valer esse processo”, completou.

A desembargadora Ivana David também avalia que a prisão de Maduro não deve impactar as organizações criminosas. “Então o fato do Maduro hoje estar preso, processado, respondendo por várias acusações, tirando essa de chefe de organização criminosa, teoricamente em nada vai abalar a estrutura do país no que tange às organizações criminosas, que continuarão atuando como sempre atuaram”, concluiu.

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