Policiais acusados de agredir e torturar jovens em São Paulo são afastados
Cinco agentes suspeitos de forjar acusação de roubo de carro contra adolescentes deixaram as ruas quase um ano depois do caso
Marcos Guedes
Cinco policiais militares foram afastados das atividades após serem flagrados agredindo e torturando dois adolescentes negros na Zona Leste de São Paulo. O caso aconteceu em 16 de maio de 2024 quando os agentes acusaram os menores do roubo de um veículo.
As duas vítimas foram ouvidas na tarde desta quinta-feira (3) em uma audiência na sede do Tribunal de Justiça Militar. O caso está em segredo de Justiça. Segundo fontes ouvidas pelo SBT, os jovens disseram que confessaram o crime no ano passado porque foram torturados e que, com o passar dos meses, se sentiram seguros para falar a verdade.
Os jovens foram abordados próximo à Escola Municipal de Ensino Fundamental Júlio de Grammont, na Travessa Meiri, onde foram acusados de roubo e colocados dentro do camburão. Após a apreensão, os agentes não encaminharam os menores para a delegacia. Eles foram levados até o local onde o carro roubado havia sido abandonado, na Rua Bandeira de Aracambi, onde permaneceram por quase 20 minutos.
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No local, uma das câmeras de segurança do uniforme dos PMs registrou quando eles tentaram coagir os adolescentes a confessar o roubo, com tapas e socos na barriga e no rosto. A pressão incluiu queimaduras com cigarro e xingamentos, seguidos de ameaças de morte contra eles e suas famílias.
"Embora eles tenham colocado a mão à frente da câmera, desacoplaram o equipamento apontando para o céu ou outro local para que não fosse gravado, por um descuido, foi possível pegar o soco no rosto, queimadura no braço", disse o advogado dos jovens, Geraldo Rosário.
Na delegacia, os adolescentes confessaram o crime e falaram que as lesões aconteceram devido a uma queda durante a perseguição. "A versão dos policiais foi desmentida por uma câmera de segurança. A dinâmica dos fatos não ocorreu como eles narraram no boletim de ocorrência", contesta a defesa.
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Segundo Rosário, os jovens ficaram apreendidos por uma semana, sem que fossem ouvidos. O advogado diz que, em audiência preliminar, os policiais contaram uma "versão totalmente mentirosa" e pediu a inclusão de imagens de câmeras de segurança para refutar a versão.
Diante das novas provas, os dois foram absolvidos e a promotoria decidiu abrir uma investigação sobre a conduta dos policiais junto à Corregedoria. Os agentes foram denunciados por tortura, fraude processual e omissão.
A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo afirmou que os cinco policiais identificados nas imagens foram afastados.
"A conduta dos policiais militares envolvidos na ação é inaceitável e não tem qualquer relação com os protocolos operacionais e aos valores da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Todos os policiais identificados nas imagens foram imediatamente afastados dos serviços operacionais, sem prejuízo da adoção de outras medidas para garantir sua devida responsabilização criminal, administrativa e disciplinar dos envolvidos."