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"Vivi um milésimo do sofrimento que a Venezuela passa"

Estudante brasileiro que escapou de prédios caindo e perdeu amigos nos terremotos conta como voltou ao Brasil e o que vivenciou durante e após a tragédia

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Marcela Guimarães
04/07/2026, 22:10 • Atualizado em 04/07/2026, 22:10
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Prédio destruído em região nobre de Caracas, na Venezuela, logo após tremores | Matheus Nucci Mascarenhas

Prédio destruído em região nobre de Caracas, na Venezuela, logo após tremores | Matheus Nucci Mascarenhas

A camisa da seleção brasileira de futebol, símbolo de alegria e festa, será uma lembrança constante do dia em que Matheus Nucci Mascarenhas sentiu a terra tremer, viu prédios caírem ao seu redor e centenas de pessoas perderem a vida. O brasileiro de 20 anos teve que seguir vestido com a “amarelinha” por mais de 36 horas após os dois tremores seguidos que atingiram a Venezuela no dia da segunda partida do Brasil na Copa do Mundo.

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Agora, longe daquele "cenário de destruição e morte", o estudante tenta juntar os flashes de memória do que parecia uma alucinação e compreender como se salvou do que pode ser o maior desastre natural da América Latina na história moderna.

“A situação na Venezuela realmente está fora do controle. É sem precedentes o tamanho da destruição humana que está acontecendo. Eu vivenciei um milésimo do que realmente está acontecendo, do sofrimento após os tremores”, desabafa Matheus, que estuda na Universidade de Yale (Estados Unidos) e estava morando em Caracas havia um mês, para uma pesquisa acadêmica. “A minha saída de lá foi dramática, mas não se compara com o sofrimento que os venezuelanos vêm sentindo, seja na cidade de Caracas e principalmente em La Guaira, que foi a mais afetada”, lamenta o jovem.

Naquela quarta-feira, 24 de junho, Matheus tinha acabado de sair de casa, atrasado para o encontro de amigos em um bar onde assistiria à partida Brasil X Escócia pela Copa do Mundo, quando sentiu “uma espécie de vertigem”. Era o primeiro tremor de magnitude 7.2 na escala Richter e 20 km de profundidade.

"Eram 6h04 da tarde. Sinto uma vertigem como se eu estivesse muito enjoado, ao ponto de eu quase cair. Eu dou um passo para trás, quase caio e, depois de um alguns segundos, tentando conciliar aquela situação, percebo que estou em um terremoto. Logo em seguida, ao meu lado, um prédio de 15 andares cai completamente. Eu sou envolto em uma poeira de destroços. Por sorte, nada cai na minha cabeça", lembra.
“Mas depois de passar por essa primeira queda, eu saio correndo na direção oposta. E enquanto isso acontece, outro prédio cai. Não tão perto de mim, mas cai na minha frente. Aquele momento eu me senti num cenário de guerra. Eu via pessoas gritando, chorando e, quando eu continuei correndo, em uma rua totalmente caótica, eu vejo um carro atropelando uma mulher, eu vejo motos passando na calçada, até que eu corro e chego na praça Altamira, e lá eu fico por em torno de 30 a 45 minutos”, descreve.
Prédios que desabaram em Caracas | Matheus Nucci Mascarenhas
Prédios que desabaram em Caracas | Matheus Nucci Mascarenhas
Imagens da destruição feitas por Matheus  | Arquivo pessoal
Imagens da destruição feitas por Matheus | Arquivo pessoal

Matheus lembra que, ao chegar ao espaço mais aberto e seguro da Plaza Altamira - conhecida por um obelisco imponente e por ser palco de festivais, shows ao ar livre e manifestações - ele se sentou, olhou para os lados e viu que todos os prédios ao redor estavam em pé. Por alguns segundos desconfiou do que viu e se questionou se tudo não passava de uma alucinação.

“Então eu começo a pensar que tinha alucinado, que tinha inventado na minha cabeça que os prédios tinham caído. Que, por exemplo, o terremoto aconteceu, mas os tremores soltaram poeira dos prédios. Comecei a pensar nisso, até que decido voltar ali à região de onde tinha caído. Então, ando até lá e, nesse momento, vejo uma cena de cortar o coração mesmo: mães, mulheres, tentando entrar nos destroços, chorando, e alguns oficiais ali, policiais, tentando bloqueá-las. Havia macas improvisadas com camas, colchões de camas, com pessoas decepadas e mortas”, conta.

A cena era dramática e de "desalento", diante da "ineficiência de reação" das forças públicas. “A polícia não sabia muito bem o que fazer, estava perdida, tinha menos informação que eu, inclusive, sobre o terremoto, sobre a magnitude, que eram dois terremotos e não um só. Demorou mais ou menos 30 minutos para a primeira ambulância - e não foi nem bombeiro - chegar na região do prédio que caiu”, conta Matheus, lembrando que o bairro de Altamira é uma das áreas mais ricas de Caracas.

O estudante retornou à praça e ficou por lá por mais de 6 horas. Já era madrugada quando, seguindo instruções de pessoas locais, conseguiu encontrar amigos que também escaparam ilesos e foram orientados para se abrigarem em um parque local. Depois, ele foi para um abrigo improvisado, com fornecimento de energia intermitente, sem água corrente, onde ficou com cerca de 15 pessoas por 48 horas.

Plaza Altamira antes e durante os tremores de terra | Prédios que desabaram em Caracas | Matheus Nucci Mascarenhas
Plaza Altamira antes e durante os tremores de terra | Prédios que desabaram em Caracas | Matheus Nucci Mascarenhas

Matheus não podia voltar para seu apartamento. Embora o prédio estivesse em pé, a construção sofreu sérios danos e foi interditada. No caminho da praça para o abrigo, ele viu a ação de civis para organizar resgates em meio ao que chamou de “inação” dos agentes públicos.

“A sociedade civil venezuelana é muito ativa, muito forte. O Estado falha crucialmente, não apenas em oferecer recursos, mas também em dar instruções do que fazer em situações como aquela. Eu conheço várias pessoas que estão à frente de centros de apoio não oficiais, de arrecadação de alimentos, de criação de abrigo, até de doação de capacetes improvisados para que outros voluntários possam cavocar os destroços e tentar achar as pessoas”, relata. “Isso é uma coisa que tenho que ressaltar: a sociedade civil se organiza. Os venezuelanos, depois de tantos anos de sofrimento, tantos anos de repressão, de crise, de fome, eles vão lá e lutam. A população [da Venezuela] é heroica!”

Saída de Caracas e voo de volta ao Brasil

Caminho para o Aeroporto de Valencia e aeronave na pista | Matheus Nucci Mascarenhas
Caminho para o Aeroporto de Valencia e aeronave na pista | Matheus Nucci Mascarenhas

Passados dois dias do desastre, Matheus começou sua empreitada para conseguir sair da Venezuela e voltar para o Brasil. A tarefa era complexa, já que o principal aeroporto de Caracas havia sido duramente afetado pelos abalos de terra e estava interditado. A opção era seguir para o Aeroporto mais perto, em Valencia - cidade à 153 quilômetros da capital -, em meio à estradas danificadas e transporte caótico.

"Na sexta-feira, dia 26 de junho, eu consegui encontrar um voo, junto com a minha família no Brasil, que aparecia como disponível, mas depois ficava indisponível…saindo do aeroporto de Valência. É um aeroporto regional e pequeno, mas a companhia aérea Copa Airlines conseguiu redirecionar uns aviões para lá. Então, eu parti para Valência, com um motorista que um amigo me recomendou, de carro", relembra o estudante.

Segundo Matheus, Valencia é uma cidade interiorana, com um aeroporto pequeno e que “nem todo mundo sabia da existência dele”. Mas, ao chegar, o brasileiro se deparou com um local lotado e caótico.

"Estava um caos por lá, uma loucura. O check-in eera bagunçado, não tinha estrutura para receber tantos passageiros naquele momento. Na fila do check-in havia vários executivos de grandes empresas brasileiras, que faziam negócios na Venezuela, também tentando escapar. A imigração era pequenininha. O local era praticamente um prédio que parecia um comércio comum. E tinham umas 500 pessoas aguardando seus voos", relembra.
Confusão nos balcões de check-in no Aeroporto de Valencia | Matheus Nucci Mascarenhas
Confusão nos balcões de check-in no Aeroporto de Valencia | Matheus Nucci Mascarenhas

Um último susto antes de sair da Venezuela

Quando Matheus tentava embarcar em Valencia, a terra tremeu mais uma vez. “Poucos minutos antes da gente voar, a gente sentiu um tremor que foi uma uma réplica daquele primeiro de quarta-feira, mas com intensidade menor. Eu senti fisicamente”. O abalo foi leve e não houve impactos à estrutura do aeroporto.

O avião decolou com sucesso com destino ao Panamá. No país vizinho, Matheus conseguiu seguir para o Brasil, aterrisando em São Paulo na manhã de sábado, 27 de junho. Com ele, uma mistura de alívio e dor: o estudante soube da morte de três colegas venezuelanos durante o terremoto, entre eles, uma amiga querida que fez durante o mês em que esteve no país. "Ela estava em La Guaira, região litorânea e a mais afetada pelos tremores", explica Matheus.

Quanto à camisa do Brasil, que vestiria sua comemoração pela vitória de 3X0 sobre a Escócia, agora transportará o estudante às memórias de uma tragédia. “Acho que vai me lembrar do contraste da comemoração e euforia com a seleção brasileira, e o sofrimento dos venezuelanos”, lamenta.

Estudante Matheus Nucci Mascarenhas ao lado de amigos venezuelanos com a camisa da seleção em dia de jogo antes dos tremores | Arquivo pessoal
Estudante Matheus Nucci Mascarenhas ao lado de amigos venezuelanos com a camisa da seleção em dia de jogo antes dos tremores | Arquivo pessoal

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