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Rio Tietê não tem mais nenhum trecho livre de poluição

Estudo com participação da Unifesp que detectou microplásticos, drogas ilícitas e agrotóxicos, acende alerta para os impactos do saneamento insuficiente

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André Barbeiro , Lucio Sturm
04/07/2026, 22:37 • Atualizado em 04/07/2026, 23:18
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Rio Tietê | Foto: Reprodução

Rio Tietê | Foto: Reprodução

A contaminação do Rio Tietê se estende por toda a sua extensão, da nascente em Salesópolis até a foz no Rio Paraná, segundo um estudo inédito realizado durante a Expedição Tietê 2025. A pesquisa, que contou com a participação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), identificou microplásticos, fármacos, drogas ilícitas, agrotóxicos e outros contaminantes em todos os 14 pontos analisados ao longo de mais de mil quilômetros do principal rio paulista.

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O levantamento foi coordenado pela Fundação SOS Mata Atlântica, com apoio do Instituto Itaúsa e participação de pesquisadores da Unifesp, Universidade Federal do ABC (UFABC), Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP (CENA/USP) e Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS). Os resultados mostram que não há mais nenhum trecho completamente livre de contaminação, revelando um cenário associado ao saneamento insuficiente, à urbanização intensa, ao descarte inadequado de resíduos e ao uso agrícola do solo.

Em entrevista ao News Sábado, o professor do Instituto do Mar da Unifesp, Camilo Seabra, afirmou que a presença de cafeína em todos os pontos do rio foi um dos principais indicadores da pesquisa.

"Encontrar cafeína da nascente até a foz significa que, de alguma forma, tem esgoto doméstico não tratado chegando ao Rio Tietê em todos os seus trechos", explicou. Segundo ele, a substância é amplamente utilizada como marcador ambiental por estar presente em alimentos, bebidas e medicamentos, sendo normalmente removida durante o tratamento convencional de esgoto.

Além da cafeína, os pesquisadores identificaram medicamentos como losartana, valsartana, atenolol, carbamazepina, diclofenaco, antidepressivos, estabilizadores de humor, além de cocaína e benzoilecgonina, principal metabólito da droga.

De acordo com Seabra, a pesquisa também revela um retrato da saúde e dos hábitos da população. "A gente começa a observar indicadores da saúde da população. O rio recebe urina e também medicamentos descartados de forma inadequada em vasos sanitários e pias", disse.

Os maiores níveis de contaminação foram registrados na Região Metropolitana de São Paulo, especialmente em Osasco. No entanto, a pesquisa também detectou sinais de poluição já na nascente, em Salesópolis.

Para o pesquisador, a descoberta exige novas investigações. "Uma coisa a gente pode afirmar: é esgoto doméstico. Agora precisamos identificar qual é a fonte dessa contaminação logo na nascente, seja uma fossa, uma ligação clandestina ou alguma ocupação irregular", afirmou.

Outro destaque do estudo foi a presença de microplásticos em todos os pontos amostrados. Predominaram pequenas fibras associadas à lavagem de roupas sintéticas, efluentes domésticos e industriais, drenagem urbana e descarte inadequado de resíduos. Segundo os pesquisadores, essas partículas são influenciadas pela densidade populacional, pela ocupação do território e pela dinâmica do próprio rio, especialmente em áreas com reservatórios e barragens.

Seabra destacou que o Rio Tietê já não consegue se regenerar completamente. "A Região Metropolitana despeja uma carga muito grande de contaminantes, mas o interior também continua introduzindo essas substâncias no rio. Algumas moléculas já deveriam ter se degradado, mas continuam aparecendo porque estão sendo reinseridas ao longo do curso do Tietê", explicou.

O estudo alerta ainda que os contaminantes não atuam isoladamente. Microplásticos podem interagir com agrotóxicos e medicamentos, potencializando seus efeitos.

Embora as concentrações encontradas não provoquem, necessariamente, mortes imediatas de peixes, Seabra explica que os impactos ecológicos podem ser significativos ao longo do tempo. "Essas substâncias não deveriam estar no rio. Elas podem reduzir a reprodução, o crescimento e a capacidade de locomoção dos organismos aquáticos, comprometendo as populações a médio e longo prazo", afirmou. Sobre o consumo de peixes do interior paulista, o pesquisador ponderou que ainda são necessários estudos específicos para avaliar os riscos à saúde humana.

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