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Seis meses de Milei: Queda de inflação e desleixo com a fome

O presidente argentino não exagerou quando pediu sacrifícios da população durante a campanha

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Marcelo Torres
07/06/2024, 19:12 • Atualizado em 11/06/2024, 00:01
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O presidente da Argentina, Javier Milei. | Reprodução/Instagram

O presidente da Argentina, Javier Milei. | Reprodução/Instagram

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Não há meias palavras para esse começo de administração: até aqui, Javier Milei é um presidente popular. Na segunda-feira (10), ele completa seis meses no comando da Argentina com aprovação de metade ou um pouco mais dos moradores, de acordo com diferentes pesquisas de opinião. Se é eficaz, aí são outros quinhentos.

Ouvi de um economista nesta semana, e me parece fazer sentido, que a popularidade de Milei vem da queda da inflação. Em dezembro, quando assumiu o cargo, o aumento dos preços girava em torno de 25% ao mês. Agora, baixou para um dígito.

Outro especialista ponderou que o difícil será sair do patamar atual para algo mais civilizado, abaixo de um ponto percentual. Creditou isso à inércia inflacionária espalhada nas mentalidades e nos mecanismos de produção. Por isso, em breve, a sensação de melhora pode se dissipar.

Outra incerteza está nos resultados das contas públicas. O presidente vem batendo bumbo sobre um superávit no primeiro trimestre. A oposição chama esse saldo azul de "trucho", fajuto, em bom português, porque incluiu manobras fiscais como calote em contas de energia, cortes de orçamento que não serão possíveis de manter até o fim do ano e um arrocho do valor real das aposentadorias que está prestes a ser derrubado no Congresso.

A todas essas críticas, até agora Milei tem respondido com desdém e agressividade. Só três fatos parecem ter de fato balançado o governo e provocado uma postura diferente. Primeiro, foi o grito dos estudantes, assustados com os cortes de orçamento que poderiam levar universidades federais ao encerramento das atividades.

Diferentemente do que acontece com protestos de sindicatos, que reúnem mais ativistas de esquerda, a marcha estudantil há quase dois meses lotou as ruas das maiores cidades do país com pessoas de todo o espectro político e faixa etária a mais variada possível, inclusive eleitores de Milei. Um corte transversal da sociedade. Assustou e gerou a promessa de que não vai faltar dinheiro às universidades (olha aí a pressão sobre o superávit).

Há duas semanas, veio a patacoada da falta de gás nos postos de combustíveis. Um navio da Petrobras foi chamado às pressas e salvou a Argentina de um racionamento. O governo culpou o frio fora de hora que obrigou moradores a usar mais aquecimento, mas pegou mal para a imagem de eficiência que se tenta pregar. E também mostrou por que o mesmo Milei que xingou o presidente da Colômbia de terrorista e insultou a primeira-dama da Espanha tem se comportado em relação ao Brasil e à China, que também têm governos de esquerda. Dois parceiros importantes demais para apontar a metralhadora verbal.

O mais recente fato preocupante é o aumento da fome. Um estudo da Igreja Católica divulgado neste mês aponta que 55% dos argentinos estão na pobreza. Desde que assumiu o governo, Milei cortou a ajuda aos refeitórios populares. Eram mais de 30 mil espalhados pelo país e quase sempre administrados por moradores e instituições de caridade. Visitei um na Villa Soldati, uma comunidade parecida com uma favela brasileira, e a organizadora contou que até dezembro distribuía refeições e, agora, apenas "merienda", o café da tarde.

O governo Milei justificou os cortes levantando suspeitas sobre a idoneidade desses refeitórios. Disse que havia muitos que recebiam ajuda e não repassavam ao povo. Quando levei essa queixa à Villa Soldati, ouvi a ponderação de que a ajuda deveria ser mantida enquanto uma uma investigação fosse feita. Cortar de todos e investigar depois soava cruel. Difícil não concordar.

Para completar a situação, um juiz exigiu que o governo distribuísse cinco toneladas de alimentos que estavam paradas num depósito. O governo começou dizendo que eram estoques reguladores, para serem usados em catástrofes, mas diante da pressão que aumentou com a informação de que muitos alimentos estavam perto do prazo de vencimento, mandou o exército distribuir e demitiu um funcionário de segundo escalão para preservar a ministra da pasta, "a melhor da história", nas palavras do chefe.

Javier Milei não vendeu ilusões. Disse que os dois primeiros anos do governo seriam difíceis e pediu que os argentinos estivessem dispostos a fazer sacrifícios. Muitos estão. Acreditam sinceramente que o presidente tem um plano e que, depois de um começo abrupto, as coisas podem se acertar e o país voltar a crescer, com inflação mais controlada. Seria um cenário ideal, que também interessa ao Brasil, grande exportador para os hermanos. Mas ainda há muitas incertezas no caminho pra garantir que a travessia para a bonança seja líquida e certa. Uma delas é até quando os argentinos terão paciência para suportar os sacrifícios.

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