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Sanders e 30 deputados cobram Trump sobre eleições no Brasil

Grupo quer explicações do governo dos EUA por uma 'aparente tentativa de interferir e potencialmente minar' o pleito de outubro

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Sofia Pilagallo, Acácio Filho
Senador Bernie Sanders em um evento de campanha em Littleton, New Hampshire em agosto de 2015 | Foto: Wikipédia

Senador Bernie Sanders em um evento de campanha em Littleton, New Hampshire em agosto de 2015 | Foto: Wikipédia

Um grupo de 31 congressistas democratas dos Estados Unidos cobrou explicações do governo do presidente Donald Trump por uma "aparente tentativa de interferir e potencialmente minar" as eleições no Brasil. A manifestação ocorreu por meio de uma carta enviada ao secretário de Estado, Marco Rubio, à qual o SBT News teve acesso.

Na carta enviada a Rubio nesta quinta-feira (24), 30 membros da Câmara dos Representantes e o senador Bernie Sanders listaram uma série de medidas tomadas pelo governo dos EUA que interpretam como tentativas de favorecer uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Segundo eles, essas ações "refletem um padrão mais amplo e profundamente preocupante".

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O grupo sustenta que houve interferência por parte do governo Trump em "recentes processos eleitorais em toda a América Latina". A carta cita as eleições legislativas de meio de mandato na Argentina e as eleições presidenciais em Honduras e na Colômbia, vencidas pelo conservador Nasry Asfura e pelo político de direita Abelardo de la Espriella, respectivamente.

Em 17 de junho, um grupo de 11 membros democratas do Congresso enviou uma carta semelhante argumentando que Trump estava tentando interferir nas eleições da Colômbia em favor de De la Espriella. Quatro dias depois, o candidato venceu o segundo turno com 49,7% dos votos, contra 48,7% de Iván Cepeda.

Na carta enviada nesta quinta-feira, os congressistas escreveram que autoridades dos EUA sob o governo Trump têm se engajado em uma "campanha sustentada e multifacetada de interferência e desestabilização no Brasil". Em seguida, citam uma série de episódios que, segundo eles, sustentam essa avaliação.

O documento menciona as primeiras tarifas impostas ao Brasil no ano passado, que Trump vinculou, entre outros fatores, ao processo contra Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Também cita as novas tarifas decretadas contra o Brasil em julho e os planos do governo dos EUA de enviar dois funcionários ao país para, segundo os congressistas, lançar dúvidas sobre a integridade do sistema eleitoral.

O governo Lula acabou negando os vistos aos integrantes da delegação americana. Autoridades brasileiras afirmaram que havia o risco de a missão ser usada para questionar a integridade do sistema eleitoral, enquanto o Departamento de Estado negou qualquer intenção de interferência e classificou a visita como uma missão de rotina.

Lula vem acusando Trump de tentar interferir nas eleições brasileiras. Em seu discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU nesta semana, o presidente afirmou, sem citar nomes: "Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos ou externos, ajam contra a vontade do povo".

Ao fim da carta, os congressistas apresentam sete questionamentos a Rubio. Eles cobram explicações sobre as sanções a Alexandre de Moraes, a classificação de PCC e CV como organizações terroristas e a revogação do visto do embaixador brasileiro. Também perguntam se os EUA reconhecerão o resultado da eleição. O prazo para resposta é 1º de outubro.

Leia a carta na íntegra:

Ao Excelentíssimo Senhor Marco Rubio

Secretário de Estado

Departamento de Estado dos Estados Unidos

2201 C Street NW

Washington, DC 20451

Senhor secretário Rubio,

Escrevemos para manifestar nossa grave preocupação com o esforço coordenado do governo para ameaçar nossa aliança estratégica com o Brasil e enfraquecer a segunda maior democracia do Hemisfério Ocidental às vésperas da eleição presidencial de outubro de 2026. Ao longo do segundo mandato do presidente Trump, vimos autoridades americanas conduzirem uma campanha contínua e multifacetada de interferência e desestabilização no Brasil.

Esse esforço se intensificou acentuadamente no verão de 2025, quando o governo lançou uma série de tarifas e sanções direcionadas na tentativa de influenciar o veredicto do Supremo Tribunal Federal brasileiro no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de tentar fomentar um golpe militar para permanecer no poder.¹ As ações do governo Trump representaram uma extraordinária violação da soberania nacional do Brasil e uma tentativa flagrante de pressionar as autoridades brasileiras em relação a um processo judicial em andamento.

Apesar de certa redução das tensões nos meses seguintes, inclusive com conversas diretas e cordiais entre os presidentes Trump e Lula, a campanha mais ampla de pressão sobre as autoridades brasileiras foi retomada com a nomeação de Darren Beattie como assessor sênior para assuntos relativos ao Brasil no Departamento de Estado.² Beattie, conhecido extremista de extrema direita e supremacista branco, assumiu o cargo com um histórico claro de declarações públicas que indicavam um compromisso ideológico explícito com o enfraquecimento das instituições democráticas brasileiras.³

Mais recentemente, o governo voltou a atingir importações brasileiras com tarifas elevadas, após o que parece ter sido uma investigação politicamente motivada, conduzida pelo Representante Comercial dos Estados Unidos com base na Seção 301.⁴ A investigação foi expressamente iniciada por determinação do presidente Trump no mesmo momento em que ele criticava publicamente decisões da Justiça brasileira contra o ex-presidente Bolsonaro e empresas americanas de redes sociais.⁵

As ações mais recentes do governo apontam para um aparente esforço para interferir nas eleições gerais de outubro no Brasil e, potencialmente, prejudicá-las. O recente encontro do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro com o presidente Trump no Salão Oval, realizado enquanto ele tentava conter as repercussões de um escândalo político interno, ressaltou a disposição do governo de se inserir diretamente como ator central na eleição, em claro prejuízo da relação bilateral entre Estados Unidos e Brasil e dos interesses americanos de modo mais amplo.⁶

Durante esse encontro, segundo relatos, o senador Bolsonaro pediu que os Estados Unidos classificassem duas facções criminosas brasileiras como organizações terroristas estrangeiras. Dois dias depois, o Departamento de Estado anunciou que elas seriam oficialmente assim classificadas.⁷ Autoridades brasileiras, que propuseram reiteradamente ampliar a cooperação entre os dois países contra o crime organizado transnacional, manifestaram preocupação de que essa classificação pudesse ser usada como justificativa para ações extraterritoriais contra instituições brasileiras, incluindo medidas financeiras punitivas, como tarifas ou sanções.⁸

Diante dos repetidos ataques militares do governo Trump na região, justificados em parte por supostas ameaças dessas organizações à segurança dos Estados Unidos, a classificação também alimentou temores de uma possível intervenção militar americana. Os brasileiros tampouco se esqueceram das declarações extraordinárias feitas no último outono pela porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, nas quais ela sugeriu que o Brasil poderia enfrentar o “poderio militar” dos Estados Unidos.⁹

Além disso, estamos alarmados com as reportagens sobre a tentativa de visita oficial ao Brasil de dois funcionários do Departamento de Estado americano: a secretária adjunta de Estado para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, Riley M. Barnes, e o subsecretário adjunto da mesma área, Samuel Samson.¹⁰ Segundo a imprensa, a delegação americana planejava visitar a capital brasileira e lançar dúvidas sobre a integridade do sistema de votação do país, considerado por muitos especialistas um dos mais confiáveis do mundo.¹¹ Devido à interferência planejada no processo eleitoral brasileiro, a entrada dos integrantes da delegação no país foi negada. Em retaliação, o governo revogou o visto do embaixador do Brasil nos Estados Unidos — medida normalmente reservada a representantes de governos adversários ou hostis.¹²

Consideradas em conjunto, as ações do governo constituem ataques repetidos a um aliado fundamental e suscitam preocupações de que os Estados Unidos possam promover formas ainda mais graves de interferência e desestabilização na segunda maior democracia do Hemisfério Ocidental nas próximas semanas e meses.

O contraste com a postura americana durante a eleição presidencial anterior no Brasil não poderia ser mais claro. Naquele período, membros do Congresso e a Casa Branca sinalizaram de forma firme e pública ao então presidente Bolsonaro, aos militares brasileiros e a seus aliados políticos que os Estados Unidos se oporiam a qualquer tentativa de impedir ou reverter a vontade dos eleitores brasileiros.¹³ Imediatamente após a divulgação dos resultados, os Estados Unidos agiram rapidamente, em coordenação com aliados e parceiros da região, da Europa e de outras partes do mundo, para reconhecer a vitória do presidente Lula, ajudando a retirar legitimidade das tentativas de contestar ou reverter o resultado.¹⁴

Após os ataques de 8 de janeiro de 2023 às instituições democráticas brasileiras, os Estados Unidos se posicionaram firmemente ao lado do governo recém-eleito do Brasil e tiveram papel decisivo na mobilização do apoio regional aos esforços brasileiros de defesa da Constituição de 1988, conquistada com dificuldade, e das instituições democráticas estabelecidas por ela.¹⁵

Hoje, porém, enfrentamos uma realidade fundamentalmente diferente. Em vez de ajudar a defender a democracia brasileira, os Estados Unidos atuam como agentes de interferência e desestabilização, exercendo pressão diplomática, econômica e política de maneiras que podem enfraquecer as instituições democráticas do país, minar a confiança no processo eleitoral brasileiro e causar danos adicionais à nossa relação com um aliado estratégico e parceiro comercial dos Estados Unidos.

Essas ações refletem um padrão mais amplo e profundamente preocupante de interferência do governo Trump em processos eleitorais recentes na América Latina, como ocorreu nas eleições legislativas de meio de mandato da Argentina e nas eleições presidenciais de Honduras e da Colômbia. Esse padrão ameaça não só a integridade dos processos eleitorais em cada país, mas também pode corroer progressivamente a confiança dos eleitores nos processos e nas instituições democráticas em toda a região.

Especialmente diante da história trágica do envolvimento dos Estados Unidos no golpe militar de 1964 contra o governo brasileiro então democraticamente eleito, bem como do apoio americano posterior à ditadura militar resultante, os Estados Unidos têm a responsabilidade de apoiar as instituições democráticas que tantas gerações de brasileiros lutaram para construir.

Diante das ações do governo até aqui, apresentamos os seguintes pedidos e perguntas:

1. Forneça a metodologia utilizada pelo Departamento para examinar e avaliar propostas, petições ou materiais relacionados a possíveis designações para sanções apresentados por cidadãos estrangeiros ou agentes estrangeiros não registrados, para a implementação da Ordem Executiva 14323.

2. Forneça uma explicação detalhada dos critérios probatórios e jurídicos que o Departamento utilizou para concluir que o ministro do Supremo Tribunal Federal brasileiro Alexandre de Moraes preenchia os requisitos legais para ser incluído nas sanções previstas pela Lei Global Magnitsky de Responsabilização por Violações de Direitos Humanos, tendo em vista o caráter inédito de sancionar um integrante do Judiciário de um país democrático parceiro.

3. Apresente a justificativa do governo para classificar as facções criminosas brasileiras CV e PCC como organizações terroristas estrangeiras, apesar das objeções do governo Lula e de suas repetidas propostas de ampliar a cooperação entre Estados Unidos e Brasil para enfrentar organizações criminosas transnacionais.

4. Descreva como o Departamento coordena seus objetivos de promoção da democracia e dos direitos humanos com parceiros regionais no Hemisfério Ocidental, particularmente no que diz respeito à assistência técnica ou ao acompanhamento de processos eleitorais e judiciais.

5. Apresente os motivos do governo para revogar o visto do embaixador do Brasil em Washington, medida amplamente considerada uma escalada extraordinária, que se afasta da prática normal entre países amigos.

6. O governo se comprometerá a respeitar o processo eleitoral do Brasil, amplamente considerado um dos mais seguros e confiáveis do mundo?¹⁶

7. O governo se comprometerá a reconhecer o resultado oficial das eleições democráticas de 2026 no Brasil e a manter relações diplomáticas normais com qualquer candidato legitimamente escolhido pelo eleitorado brasileiro?

Solicitamos respostas substanciais a esses pedidos e perguntas até, no máximo, 1º de outubro de 2026.

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