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Guarda Revolucionária articulou para impor Mojtaba Khamenei como novo líder supremo do Irã

Fontes dizem que Guarda Revolucionária ampliou influência sobre o regime iraniano em meio à guerra com Israel e os EUA

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Novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei | Foto: reprodução/Reuters

A Guarda Revolucionária Islâmica impôs a escolha de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo do Irã, vendo-o como uma versão mais flexível de seu pai, mas alguém disposto a apoiar as políticas linha-dura da corporação, segundo fontes iranianas de alto escalão.

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Já muito poderosa, a Guarda ampliou ainda mais sua influência desde o início da guerra e superou rapidamente as dúvidas de figuras políticas e clericais de alto escalão. A oposição desses grupos atrasou o anúncio oficial por algumas horas, disseram as fontes.

Mesmo após ser escolhido, Mojtaba Khamenei não havia feito declarações públicas até a noite desta terça-feira (10), quase 48 horas depois da decisão tomada durante um conflito que já deixou mais de mil iranianos mortos.

Segundo três fontes iranianas seniores, um ex-funcionário reformista e outra pessoa próxima ao sistema, a escolha de Mojtaba Khamenei pode resultar em uma política externa mais agressiva e em repressão interna mais dura.

Duas dessas fontes disseram temer que o domínio crescente da Guarda transforme ainda mais a República Islâmica em um Estado militar, com apenas uma fina camada de legitimidade religiosa, reduzindo a base de apoio do regime.

Novo líder pode ter sido ferido em ataque

Embora tenha atuado por décadas como operador de bastidores ao dirigir o escritório de seu pai, Mojtaba Khamenei continua sendo uma figura pouco conhecida por muitos iranianos.

Há suspeitas de que ele tenha sido ferido em ataques atribuídos a Israel e aos Estados Unidos, que teriam matado seu pai, Ali Khamenei.

Um apresentador da televisão estatal iraniana mencionou os rumores ao descrevê-lo como um “janbaz”, termo usado para “veterano ferido”, no que o Irã chama de Guerra do Ramadã. A Reuters não conseguiu confirmar o estado de saúde do novo líder.

O silêncio de Mojtaba também pode estar ligado a preocupações de segurança após o assassinato de seu pai, ocorrido em 28 de fevereiro.

A eleição foi anunciada pela Assembleia de Especialistas do Irã, órgão formado por 88 membros responsáveis por escolher o líder supremo.

Guarda reforça controle

A autoridade política no Irã é exercida de forma mais visível pela Guarda Revolucionária e pelo gabinete do líder supremo, conhecido como beyt, que opera uma rede paralela de influência dentro da burocracia estatal.

Sinais do peso da Guarda ficaram claros quando o presidente Masoud Pezeshkian, que integra um triunvirato responsável por governar temporariamente o país, foi forçado a recuar após pedir desculpas a países do Golfo por ataques recentes.

Segundo fontes ouvidas pela Reuters, integrantes seniores da Guarda ficaram furiosos com o pedido de desculpas.

Uma das fontes afirmou que Ali Khamenei conseguia controlar a corporação ao equilibrar seus interesses com os das elites políticas e clericais. Com a nova liderança, porém, a Guarda pode passar a ter a palavra final nas decisões estratégicas.

Para Alex Vatanka, pesquisador do Middle East Institute, em Washington, a relação de Mojtaba com os militares será determinante.

“Mojtaba deve sua posição à Guarda Revolucionária e, portanto, não será tão supremo quanto seu pai foi”, afirmou.

Escolha sob pressão

Constitucionalmente, a escolha do líder supremo cabe à Assembleia de Especialistas. Nas duas transições desde a Revolução Islâmica de 1979, porém, o processo foi influenciado por outras figuras de poder.

Quando Ruhollah Khomeini morreu, em 1989, o então influente político Ali Akbar Hashemi Rafsanjani afirmou à assembleia que Khomeini havia indicado Ali Khamenei em seu leito de morte.

Desta vez, segundo cinco fontes, a articulação partiu diretamente da Guarda Revolucionária, que pressionou por uma decisão rápida sob o argumento de que o país está em guerra e precisava de um líder disposto a confrontar os Estados Unidos.

Como o salão da assembleia no seminário da cidade de Qom havia sido bombardeado, a reunião ocorreu em um local não revelado. Alguns membros sequer puderam participar ou foram informados da votação, afirmou na TV estatal o aiatolá Mohsen Heydari.

O órgão atingiu o quórum mínimo de dois terços. Segundo ele, entre 85% e 90% dos presentes votaram a favor de Mojtaba Khamenei.

Ainda assim, o resultado indicou menos consenso do que o esperado pela Guarda.

Resistência de clérigos

Alguns aiatolás demonstraram desconforto com o que consideram uma sucessão hereditária no comando do país. Eles também temem que a escolha afaste parte dos apoiadores do regime.

Nos bastidores, clérigos e integrantes do establishment político discutiram possíveis alternativas durante a semana passada, disseram fontes.

Um ex-funcionário reformista afirmou que a Guarda chegou a ameaçar críticos da escolha de Mojtaba. Segundo outra fonte, membros da assembleia receberam contatos diretos da corporação e acabaram se sentindo pressionados a apoiá-lo.

O anúncio da nomeação estava inicialmente previsto para a manhã de domingo, mas acabou adiado para a noite diante da resistência de parte do establishment.

Durante anos à frente do beyt, Mojtaba Khamenei construiu relações estreitas com a Guarda Revolucionária, especialmente com comandantes de segundo escalão que assumiram após a morte de generais na guerra.

Para o ex-funcionário reformista, o resultado será uma política interna e externa mais radical, com a Guarda Revolucionária alcançando o que buscava há anos: controle total sobre o sistema.

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