Governo Trump recua em acusação contra Maduro e admite que 'Cartel de los Soles' não é real
Departamento de Justiça dos EUA reformula denúncia e reconhece que termo usado contra Maduro se refere a um sistema de corrupção, não a um cartel formal

Emanuelle Menezes
O governo dos Estados Unidos recuou oficialmente da acusação de que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, lideraria uma organização criminosa chamada 'Cartel de los Soles' e passou a reconhecer que o termo não se refere a um cartel real. A mudança consta em uma denúncia reformulada pelo Departamento de Justiça americano e foi revelada pelo The New York Times nesta terça-feira (6). O SBT News teve acesso ao documento e confirmou as informações.
A nova acusação abandona a tese sustentada pelo governo Trump desde 2020 de que o Cartel de los Soles seria uma organização estruturada de tráfico internacional de drogas comandada por Maduro. No lugar disso, o documento afirma que a expressão descreve um "sistema de patronagem" e uma "cultura de corrupção" dentro do Estado venezuelano, alimentada por recursos do narcotráfico.
De acordo com o texto revisado, os lucros do tráfico "fluem para funcionários civis, militares e de inteligência de baixo escalão, que operam em um sistema de patronagem comandado pelos que estão no topo – referido como Cartel de los Soles", em referência às insígnias solares usadas por oficiais de alta patente das Forças Armadas da Venezuela.
A mudança representa um recuo significativo em relação à denúncia original de 2020, que mencionava o Cartel de los Soles mais de 30 vezes e descrevia Maduro como líder direto da suposta organização criminosa. Na nova versão, o termo aparece apenas duas vezes e é tratado como uma expressão informal, criada pela imprensa venezuelana nos anos 1990.
Apesar do recuo, os promotores americanos mantêm a acusação de que Nicolás Maduro participou de uma conspiração internacional de tráfico de drogas ao longo de décadas, em parceria com grupos armados e organizações criminosas da América Latina. O Departamento de Justiça afirma que Maduro "participou, perpetuou e protegeu" esse sistema de corrupção enquanto ocupava cargos públicos, incluindo a presidência do país.
Especialistas em segurança e crime organizado ouvidos pelo jornal americano afirmam que a nova redação é mais fiel à realidade. Para Elizabeth Dickinson, vice-diretora do International Crisis Group para a América Latina, a correção demonstra que a acusação original não se sustentaria judicialmente. "Eles sabiam que não conseguiriam provar isso em tribunal", afirmou ao NYT.
Relatórios oficiais da Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA) e da Organização das Nações Unidas (ONU) nunca reconheceram o Cartel de los Soles como uma organização criminosa estruturada, o que reforça o caráter informal e político do termo agora admitido pelo governo americano.
Maduro diz que é inocente
Em audiência no Tribunal Federal de Manhattan, em Nova York, na segunda-feira (5), Nicolás Maduro se disse inocente e afirmou que foi sequestrado pelo governo dos Estados Unidos.
"Sou inocente. Não sou culpado. Sou um homem decente", disse Maduro por meio de um intérprete, antes de ser interrompido pelo juiz distrital americano Alvin Hellerstein.
Maduro nega veementemente as acusações do Governo Trump e afirma que a ação tem como interesse o petróleo da Venezuela. O advogado do venezuelano, Barry Pollack, disse que seu cliente sofreu um "sequestro militar".









