Família de brasileiros morta no Líbano acreditava que cessar-fogo garantiria segurança, diz sobrinho
Vítimas haviam retornado à cidade de Bint Jbeil para buscar pertences quando a residência foi atingida por um míssil israelense


Vicklin Moraes
Juliana Bernardino
Andre Paino
A família de brasileiros morta em um ataque do Exército de Israel no último domingo (26), no sul do Líbano, havia decidido retornar para casa, na cidade de Bint Jbeil, por acreditar que o cessar-fogo garantiria segurança. Em entrevista ao SBT News, o brasileiro Mohamad Nader, de 18 anos, relatou o drama vivido pelos parentes.
Mohamad, que vive em Foz do Iguaçu no Paraná, é sobrinho de Ghassan Nader, uma das vítimas. Ele conta que seu pai, irmão de Ghassan, havia insistido diversas vezes para que a família deixasse o Líbano e se mudasse para o Brasil, mas o tio resistia por patriotismo e esperança no fim do conflito.
“Meu pai falava para o meu tio: ‘Vem para o Brasil, aqui você fica estável e seguro com sua família em Foz’. Mas ele dizia: ‘Relaxa, a guerra já vai passar’. O povo libanês é muito patriota, eles põem na cabeça que o conflito vai acabar, mesmo sabendo que ele sempre volta”, conta.
O ataque: 20 minutos antes da partida
Segundo o relato de Mohamad, a família havia se refugiado em Beirute desde o início dos ataques, mas aproveitou o anúncio de cessar-fogo para buscar roupas e objetos de valor sentimental que haviam sido deixados para trás na pressa da fuga.
Eles planejavam passar apenas uma noite em Bint Jbeil. O ataque ocorreu no momento em que se preparavam para pegar a estrada de volta à capital. “Eles dormiram lá e já estavam colocando as coisas no carro. Faltavam uns 10 ou 20 minutos para partirem de novo para Beirute”, detalha o sobrinho.

“Meu priminho estava brincando lá fora, meu primo mais velho já estava dentro do carro, e meu tio e minha tia estavam dentro de casa pegando as malas. A casa virou escombros, não sobrou nada. Acredito que os corpos do meu tio e da minha tia nem tenham sido encontrados, pois não restou nada”, lamenta Mohamad.
As vítimas foram identificadas como o casal Ghassan Nader e Manal Jaafar, e o filho mais novo, Ali Ghassan Nader. O filho mais velho, de 21 anos, sobreviveu à explosão; ele foi internado e, segundo a família, seu estado é estável e ele está consciente.
Enterro sob bombas
Mohamad descreveu ainda a angústia vivida pelos familiares que permaneceram na região durante o sepultamento. O velório da criança durou apenas 15 minutos devido à continuidade dos ataques nas proximidades.
“No momento em que estavam enterrando meu primo, começaram a lançar bombas. É muito triste você não conseguir enterrar um ente querido com dignidade, ter que fazer tudo às pressas. Meu tio era um civil comum, não tinha ligação com nenhum grupo ou partido político. Minha tia também. Meu primo era uma criança cheia de sonhos, queria visitar o Brasil. É algo que nos atinge com uma força absurda”, afirmou.
O ataque em Bint Jbeil ocorreu em meio a uma série de bombardeios que, segundo o governo libanês, deixaram pelo menos 14 mortos e 37 feridos no último domingo.
Em nota oficial, o Itamaraty condenou o episódio e criticou o que chamou de “reiteradas e inaceitáveis violações ao cessar-fogo”. Embora uma trégua tenha sido firmada, ambos os lados trocam acusações de descumprimento. Israel alega que o Hezbollah continua representando uma ameaça à região e responsabiliza o grupo pela morte de um soldado francês em missão de paz da ONU no Líbano.









