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Crise no Irã: entenda regime político do país, motivações dos protestos e qual o risco de uma guerra

Onda de manifestações começou no final de dezembro e se intensificou nos últimos dias, com milhares de mortes, prisões e o bloqueio da internet

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Carros queimam em meio a protestos nas ruas de Teerã, capital do Irã | Foto: Stringer/West Asia News Agency via Reuters - 08.01.2026

O Irã enfrenta uma onda de protestos contra o governo que começou no final de dezembro e se intensificou nos últimos dias, com milhares de mortes, prisões de manifestantes e o bloqueio da internet no país. Segundo o último balanço da ONG Direitos Humanos no Irã (IHR, na sigla em inglês), ao menos 3.428 manifestantes foram mortos e cerca de 20.000 foram presos desde o início dos protestos.

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Essa nova onda de protestos atingiu uma dimensão histórica no país, mas esta não é a primeira vez que o Irã é alvo de manifestações. As mais recentes, comparáveis a essa nova onda, ocorreram em 2022. À época, iranianos foram às ruas após a morte de Mahsa Amini, jovem que morreu sob custódia da chamada Polícia da Moralidade por usar o hijab, o véu islâmico, de forma considerada "inadequada".

Outros protestos importantes ocorreram em 2017 e 2019. Em 2017, iranianos foram às ruas inicialmente devido a um aumento abrupto no preço dos combustíveis, mas a manifestação logo se transformou numa expressão mais ampla de descontentamento popular. Em 2019, o fenômeno se repetiu, com protestos que começaram motivados pela inflação e o desemprego, mas logo se voltaram contra o governo.

Essa nova onda de protestos é motivada sobretudo pela grave crise econômica que assola o Irã, mas esta não é a única razão. O SBT News conversou com dois especialistas em política internacional e resumiu, em três pontos, as principais ideias para entender o assunto, bem como o contexto histórico que levou o país a esse patamar de insatisfação. Veja a seguir:

1. Regime político do Irã

Antes de mais nada, é preciso entender como funciona o regime político do Irã. Atualmente, o país é uma república islâmica teocrática. Trata-se de um sistema que mistura elementos políticos, como eleições para presidente e parlamento, e elementos religiosos. A Sharia (lei islâmica) é a base da legislação no país e líderes religiosos detêm o controle supremo do poder político e militar.

Na prática, sobre a república eleita (presidente e os três poderes), existe uma camada teocrática com poder final, centrada no Líder Supremo, o aiatolá, que é a autoridade máxima política e religiosa do Irã, com cargo vitalício. O aiatolá detém o poder máximo, seguido do presidente e do chamado "Conselho Guardião", composto por juristas islâmicos (clérigos) e juristas leigos (advogados).

Líder Supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei | Divulgação/Governo Irã
Líder Supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei | Divulgação/Governo Irã
"Fazendo uma comparação à Constituição Imperial do Brasil [a primeira e mais duradoura constituição do país, outorgada por D. Pedro I], no Irã também há um poder moderador, que se concentra na figura do aiatolá, e um conselho de guardiões equivalente ao Conselho de Estado que havia no Brasil durante sua primeira constituição, no período imperial", afirma Luiz Felipe Osório.
"Ao mesmo tempo, como existem eleições, há também uma certa democracia representativa, tanto para o executivo quanto para o parlamento, ainda que caiba ao poder moderador (o Líder Supremo) chancelar as eleições e as votações", acrescenta Osório, que é professor de relações internacionais na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

A república islâmica teocrática vigora no Irã desde 1979, ano da Revolução Iraniana. Até então, o regime vigente era uma monarquia autocrática pró-Ocidente, comandada pelo Xá Mohammed Reza Pahlevi. Após o golpe de Estado iraniano de 1953, ele se aliou aos Estados Unidos e ao Bloco Ocidental para se manter no poder e ocupou o cargo por mais 26 anos, sendo deposto em 1979.

2. Motivações dos protestos

Desde a revolução de 1979, que instaurou uma república islâmica anti-imperialista, o Irã vem sofrendo todo tipo de sanção, boicote e sabotagem por parte dos EUA. A crise econômica no país teve início por volta dessa época, mas se agravou nos últimos anos, com o endurecimento das sanções por parte dos EUA e até mesmo da Organização das Nações Unidas (ONU).

Em 2018, durante o primeiro mandato de Donald Trump, o presidente dos EUA rompeu o acordo nuclear com o Irã e reintroduziu as sanções "em nível máximo". À época, Trump acusou o Irã de apoiar terroristas e milícias, como o Hezbollah, o Hamas, o Talibã e a Al-Qaeda e afirmou que os EUA tinham provas de que o país havia mentido e seguido com seu programa nuclear bélico.

Ao retornar à Casa Branca, em janeiro de 2025, Trump retomou a política de pressão máxima contra o Irã. Depois, em setembro do mesmo ano, o Conselho de Segurança da ONU também impôs sanções ao Irã alegando descumprimentos referentes ao seu programa nuclear. A medida levou o governo iraniano a realizar reuniões para evitar um colapso econômico.

O Irã tem uma taxa de inflação anual superior a 42% e, durante 2025, a moeda iraniana perdeu 69% do seu valor em relação ao dólar. A maxidesvalorização da moeda iraniana levou a uma inflação e a uma crise econômica sem precedentes. Em dezembro, o Grande Bazar de Teerã chegou a fechar as portas por falta de mercadoria, fruto da crise econômica que motivou a nova onda de protestos no país.

"No final do ano passado, pouco antes do Ano-Novo, houve uma queda histórica da moeda iraniana, o que derrubou drasticamente a capacidade de consumo", diz a professora de relações internacionais Letícia Rizotti, do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT). "Houve então uma grande manifestação no Bazar porque os comerciantes não conseguiam nem consumir, nem atrair clientes, nem repor seus fornecedores."

Mas a crise econômica não é a única motivação dessa nova onda de protestos. Assim como os protestos de 2017 e 2019, que tiveram início por questões econômicas e depois se transformaram numa expressão mais ampla de descontentamento popular, as manifestações das últimas semanas ganharam outros rumos, com os iranianos protestando pelos direitos das mulheres.

No Irã, as mulheres vivem sob rígidos códigos morais e de vestuário. As que desobedecem esses códigos estão sujeitas à penalidade da Polícia da Moralidade, que inclui multas, prisão, açoites e, em casos extremos, até a pena de morte. Mahsa Amini, jovem que morreu sob custódia da Polícia da Moralidade por usar o hijab de forma considerada "inadequada", virou símbolo dessa repressão.

Desde o início dos protestos, mulheres de várias partes do mundo foram vistas ateando fogo em fotos do aiatolá Ali Khamenei, enquanto usavam as chamas para acender cigarros. O gesto é simbólico, uma vez que fumar é uma prática estigmatizada para mulheres na região. Para Letícia Rizotti, esse movimento mostra que a questão dos direitos das mulheres no Irã ressoa também no Ocidente, exercendo pressão sobre o regime.

"A questão sobre o direito das mulheres no Irã é talvez uma das faces mais conhecidas daquele regime. E esse movimento das mulheres, que virou símbolo desses protestos, ressoa também no Ocidente, exercendo pressão sobre o governo", afirma. "O movimento ganha uma face não só de muita propaganda, no sentido positivo, mas também cria essa 'marca estética'. Isso ganha ainda mais relevância na era das redes sociais" afirma."

Mulheres pelo mundo queimam fotos de Ali Khamenei e usam as chamas para acender cigarros | Fotos: Reprodução/Redes sociais
Mulheres pelo mundo queimam fotos de Ali Khamenei e usam as chamas para acender cigarros | Fotos: Reprodução/Redes sociais

3. Risco de guerra

Nos últimos dias, os EUA aplicaram sanções contra agentes do regime do Irã e operadoras financeiras que agem a serviço do governo iraniano, por causa da repressão contra manifestantes. Nesta semana, Trump afirmou que os EUA tomariam "medidas muito fortes" se o Irã começasse a executar os manifestantes — a primeira execução estava prevista para quarta-feira (15), mas foi adiada depois da ameaça.

Trump não detalhou que medidas seriam essas, mas o fato é que uma intervenção dos EUA no Irã não só é possível, como ocorreu muito recentemente, na Operação Martelo da Meia-Noite, em junho de 2025. A ação foi um ataque militar ultrassecreto dos EUA contra instalações nucleares do Irã, com o objetivo de atrasar o programa nuclear iraniano. A operação usou bombas penetrantes para atingir alvos subterrâneos.

Os EUA já realizaram intervenções militares em diversos países — inclusive recentemente, quando bombardearam a Venezuela e capturaram o presidente do país, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores. O ataque deixou dezenas de mortos, o que é pouco em comparação com outras operações. Em 2011, uma intervenção militar dos EUA na Líbia resultou em milhares de mortes.

"A destruição na Líbia foi tamanha que, até hoje, o país não conseguiu se recuperar — tem um regime instável e uma economia extremamente frágil", afirma Letícia Rizzotti. "No caso de uma intervenção dos EUA no Irã, a destruição seria ainda maior. Isso porque, diferentemente da Líbia, o Irã é uma potência, e um conflito no país poderia desestabilizar toda a região."

Para Luiz Felipe Osório, uma guerra convencional entre EUA e Irã é improvável. Não se podem descartar, no entanto, ações cirúrgicas e pontuais no país, como ações de boicote tecnológico e até mesmo o assassinato de personalidades importantes, como já ocorreu. Em 3 de janeiro de 2020, os EUA assassinaram o então chefe da Guarda Revolucionária, Qassem Soleimani, em um ataque com drone.

Em um cenário hipotético, uma guerra entre EUA e Irã teria efeitos econômicos importantes para o mercado internacional, principalmente no que diz respeito ao petróleo. O Irã não apenas é um grande produtor internacional, como controla todo o trânsito de navios petroleiros no Estreito de Ormuz, responsável por abrigar o tráfego de 20% de toda a produção do petróleo mundial.

"A tensão está no ar, tensão esta que está imersa no contexto de crise do imperialismo. Os EUA estão reagindo cada vez mais com hostilidade e força perante aqueles que se opõem ou que se colocam contra a ordem vigente", diz Osório. "A tendência para o ano de 2026 é de muitas turbulências e do acirramento das rivalidades e das hostilidades no plano internacional."

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