Brasileiros relatam tensão e incerteza após ficarem retidos no Catar com escalada de conflito no Oriente Médio
Casal brasileiro ficou impedido de seguir viagem diante do bloqueio de voos e aumento da instabilidade em países vizinhos ao Irã


Caio Aquino
O que era apenas uma conexão de volta ao Brasil virou dias de medo e indefinição para a procuradora Roberta Couto Ramos, de 43 anos, e seu marido, o médico radiologista Filipe Sobral de Carvalho, de 41. O casal está retido em Doha, no Catar, após o fechamento do espaço aéreo em meio à escalada do conflito no Oriente Médio.
Eles saíram de Bangkok com destino a Madri e, depois, seguiriam para o Brasil. Ao desembarcarem no Aeroporto Internacional de Hamad, perceberam que diversos voos estavam sendo cancelados. + Guerra no Oriente Médio desloca 30 mil pessoas no Líbano, diz ONU
“Quando a gente chegou no saguão para olhar o portão de embarque, foi que percebemos que estava cheio de voos cancelados e que o aeroporto estava completamente fechado”, relata Roberta.
Nos primeiros dias, além da incerteza sobre os voos, ela afirma que enfrentou dificuldade para conseguir retorno das autoridades brasileiras. Segundo Roberta, as tentativas de contato com a embaixada e com canais de emergência não tinham resposta direta, apenas orientações automáticas para que os brasileiros permanecessem em local seguro.
A irmã de Roberta também tentou contato com o Ministério das Relações Exteriores. Segundo ela, durante uma das ligações foi dito que “o Itamaraty não é agência de viagens”.
Questionado, o órgão afirmou não ter conhecimento do caso.
Enquanto buscavam respostas do governo brasileiro, o casal recebeu apoio da companhia aérea. Ela afirma que a empresa prestou assistência imediata. Eles foram encaminhados para um hotel, com transporte e alimentação garantidos. “Nessa parte, realmente, estamos recebendo assistência”, afirma.

Bombas durante a madrugada
O clima de apreensão aumentou nos dias seguintes. Roberta conta que, durante a noite, é possível ouvir explosões.
“De madrugada a gente escuta estrondos, bombas. Teve uma por volta de 1h30 que fez o quarto tremer. A gente vai vendo a coisa escalar.”
Ela também afirma que recebeu informações locais sobre uma tentativa de ataque ao aeroporto. “A gente fica sem saber até onde isso vai. Pode faltar água, energia, suprimentos. A sensação é de estar perdendo o timing de sair.”
Dificuldade de contato com o Brasil
Nos primeiros dias, Roberta relata que teve dificuldade para conseguir retorno das autoridades brasileiras.
Após mobilização nas redes sociais, o casal conseguiu contato direto com representantes do governo brasileiro.
“No começo do dia, eu estava me sentindo super desamparada. No final do dia, depois dessa movimentação, realmente tive acompanhamento. A orientação continua sendo aguardar, mas agora com explicações sobre o cenário de guerra e a necessidade de garantias para qualquer retirada.”
O que diz o Itamaraty
Procurado pelo SBT News, o Ministério das Relações Exteriores informou que monitora a situação por meio das embaixadas na região e mantém contato com comunidades e turistas brasileiros.
Em nota, o ministério afirmou que as representações diplomáticas permanecem à disposição para prestar assistência consular, “tendo em conta as determinações da legislação brasileira e internacional e a realidade de cada país”.
O Itamaraty destacou ainda que emitiu alerta consular sobre a crise no Oriente Médio e o ministro Mauro Vieira mantém conversas com chanceleres da região para tratar, entre outros temas, da situação de brasileiros.
O órgão ressaltou que, em cenários de conflito, os fluxos de transporte aéreo são interrompidos e a retomada depende da evolução da situação e de garantias de segurança. Também afirmou que as embaixadas não têm poder para reabrir espaço aéreo ou garantir vagas em voos comerciais.
Em nota, a Advocacia-Geral da União informou que, por determinação do ministro Jorge Messias, a instituição, por meio de sua Assessoria Internacional, está prestando assistência integral a Roberta e Filipe.
Segundo a AGU, desde o primeiro momento a instituição mantém contato direto com a servidora, que está em segurança, além de articulação com a Embaixada do Brasil em Doha e com o Ministério das Relações Exteriores para que ambos possam retornar ao Brasil assim que possível.
A AGU afirmou ainda que segue monitorando a situação e permanece à disposição para adotar todas as providências cabíveis, em articulação com as autoridades diplomáticas brasileiras.
À espera de uma solução
Enquanto isso, Roberta e Filipe seguem no hotel em Doha, aguardando orientações. “A gente está seguindo a recomendação de se abrigar em local seguro. O que queremos é sair daqui em segurança”, afirma.
Sem previsão para reabertura total do espaço aéreo na região, o casal vive dias de incerteza e clama por um plano de ação concreto do governo brasileiro para executar o resgate da população presa em meio ao conflito no Oriente Médio.









