Brasil pode ter "papel sério" pela paz, diz Ucrânia
Porta-voz ucraniano diz que Lula pode usar diálogo com a Rússia nas negociações por cessar-fogo e convida empresas brasileiras para reconstrução do país
Caio Barcellos
Lula cumprimenta o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, durante a cúpula do G7 | Ricardo Stuckert/PR
O governo da Ucrânia disse nesta terça-feira (21) que o Brasil pode ter um “papel sério” no diálogo que mantém com a Rússia para pressionar o governo de Vladimir Putin a aceitar um cessar-fogo "justo, duradouro e incondicional".
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“Pensamos que o Brasil pode desempenhar um papel sério nos esforços de paz, em diferentes formatos, inclusive porque mantém um diálogo com a Rússia”, declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores ucraniano, Heorhii Tykhyi, durante entrevista coletiva com jornalistas da América Latina e do Caribe.
Tykhyi afirmou que o governo ucraniano acompanha as manifestações anteriores do presidente Lula (PT) em favor da interrupção dos combates. Segundo ele, Kiev espera que Brasília reitere diretamente a Moscou a defesa de uma trégua.
“Gostaríamos que o Brasil deixasse claro novamente à Rússia que é hora de encerrar a guerra e concordar com um cessar-fogo justo, duradouro e incondicional com a Ucrânia. Depois disso, poderemos continuar discutindo todas as questões pendentes”, disse.
O porta-voz também mencionou a declaração conjunta apresentada por Brasil e China sobre a guerra. Segundo ele, o principal ponto defendido no documento é justamente o estabelecimento de um cessar-fogo.
Segundo o porta-voz, as iniciativas para encerrar a guerra foram o principal assunto da conversa. Os presidentes também discutiram a manutenção de contatos entre os dois governos.
“Os esforços de paz foram o foco principal da discussão. Eles também falaram sobre a necessidade de continuar os contatos entre Ucrânia e Brasil em todos os níveis”, declarou.
Tykhyi disse ainda que Lula manifestou apoio à busca por uma solução para o conflito e se comprometeu a manter a participação brasileira nas articulações diplomáticas.
“Apreciamos o fato de o presidente Lula ter expressado apoio à obtenção da paz. Ele disse que o Brasil manteria, de sua parte, os esforços nesse processo”, afirmou.
Na ocasião, Lula também adotou um tom positivo. O brasileiro afirmou depois do encontro que aquela havia sido “a melhor conversa” que já tivera com Zelensky e disse ter percebido, pela primeira vez, uma disposição efetiva do ucraniano para negociar o fim da guerra.
Segundo Lula, Zelensky defendeu a suspensão dos combates sem impor condições prévias, para que as discussões sobre um acordo de paz pudessem começar. O presidente brasileiro afirmou considerar a posição “justa” e disse ter assumido o compromisso de procurar os líderes dos cinco países com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas (Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido) para tentar avançar nas negociações.
As declarações dos dois governos sinalizam uma tentativa de distensão depois de anos de atritos públicos. Zelensky vinha criticando as propostas de mediação apresentadas pelo Brasil e considerava que algumas manifestações de Lula favoreciam a posição russa.
Em janeiro de 2025, o ucraniano afirmou que “o trem do Brasil já passou” como possível mediador da guerra e, depois da participação de Lula nas comemorações do Dia da Vitória em Moscou, recusou duas tentativas de telefonema do brasileiro.
Zelensky também havia classificado como “destrutiva” a proposta de paz apresentada por Brasil e China.
Lula, por sua vez, já havia criticado Zelensky por não demonstrar, em sua avaliação, disposição suficiente para negociar.
O governo ucraniano também reiterou o convite para que autoridades brasileiras visitem o país. Segundo Tykhyi, o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, já convidou o chanceler Mauro Vieira para viajar a Kiev.
“Nosso convite para que líderes e autoridades brasileiras de alto nível visitem a Ucrânia continua aberto. O ministro Sybiha também convidou o ministro Vieira”, disse.
O porta-voz afirmou que poucas autoridades latino-americanas visitaram a Ucrânia desde o início da invasão russa em larga escala, em 2022. Ele citou viagens de representantes da Guatemala e de Honduras.
“Não pedimos muito. Apreciaríamos simplesmente mais atenção e que líderes e políticos dos países da região visitassem a Ucrânia”, declarou.
Empresas brasileiras na reconstrução
Tykhyi convidou empresas brasileiras e de outros países latino-americanos a participar da reconstrução da Ucrânia. Segundo ele, o processo deve se estender por vários anos e movimentar bilhões de dólares em projetos nas áreas de infraestrutura, energia, agricultura e tecnologia.
“A Ucrânia oferece diferentes parcerias benéficas, da tecnologia avançada à agricultura e à energia, além da participação de empresas na reconstrução do país, que será um projeto de vários anos e de bilhões de dólares”, afirmou.
Tykhyi também apresentou a Ucrânia como uma alternativa para países latino-americanos que buscam diversificar suas relações econômicas, hoje concentradas principalmente nos Estados Unidos, na China e na União Europeia.
“Sabemos que vocês estão procurando uma alternativa benéfica. A Ucrânia é uma grande alternativa. Não se trata de tomar partido de uma grande potência, mas de desenvolver uma cooperação mutuamente benéfica com um país específico que tem muito a oferecer”, afirmou.
Segundo ele, a perspectiva de ingresso da Ucrânia na União Europeia amplia os possíveis benefícios para empresas estrangeiras que entrarem no mercado ucraniano ainda durante a guerra.
“Se as empresas vierem trabalhar na Ucrânia agora, mesmo durante a guerra, poderão se beneficiar porque, mais tarde, trabalharão com um país que fará parte da União Europeia”, declarou.
O porta-voz também afirmou que o país do Leste Europeu pretende ampliar a cooperação tecnológica na produção e utilização de drones.
De acordo Tykhyi, a tecnologia desenvolvida durante a guerra pode ser aplicada em atividades civis, como agricultura, monitoramento territorial e fiscalização de fronteiras marítimas.
“Os drones ajudam no campo de batalha, mas também podem ser utilizados para fins civis, desde o monitoramento de fronteiras, inclusive marítimas, até a agricultura”, disse.
Ele classificou o país como uma “potência global em drones” e disse que o avanço tecnológico foi provocado pela necessidade de responder à invasão russa.
“Tivemos que nos adaptar e inventar novas tecnologias. Não foi algo que desejamos, mas uma consequência das circunstâncias criadas pela invasão russa”, afirmou.
A Ucrânia pretende dobrar sua presença diplomática na América Latina e no Caribe, passando de seis para 12 embaixadas em um período de três anos.
Em 2025, o país abriu representações no Panamá, na República Dominicana e no Equador. A previsão é inaugurar uma embaixada no Uruguai em 2026 e outras duas, na Guatemala e na Guiana, em 2027.
“Estamos passando de seis para 12 embaixadas em apenas três anos. Isso demonstra nosso interesse em aprofundar os vínculos com os países latino-americanos”, disse Tykhyi.
Segundo ele, a estratégia tem como prioridades o diálogo político e a cooperação econômica, tecnológica e energética.
“Para nós, o mais importante é o diálogo político, a cooperação econômica e tecnológica, o aprofundamento dos vínculos em energia, transformação digital e fontes renováveis, além da participação das empresas da região na recuperação da Ucrânia”, afirmou.
O porta-voz disse ainda que o apoio latino-americano às resoluções ucranianas na Assembleia Geral das Nações Unidas aumentou. Segundo os números apresentados por ele, 15 dos 33 países da região apoiaram uma resolução sobre a guerra em 2025. Em 2026, o número teria subido para 24.
“Vemos que o apoio às resoluções ucranianas na Assembleia Geral das Nações Unidas cresce de forma constante, ano após ano”, declarou.
Mortes de civis
Segundo Tykhyi, os ataques russos contra a Ucrânia provocaram um aumento de 40% no número de vítimas civis em 2026. Ele afirmou que mais de 2.000 civis foram mortos ou feridos somente em junho.
“Infelizmente, as Nações Unidas registraram um aumento de 40% nas vítimas civis neste ano. Somente em junho, foram mais de 2.000 civis mortos ou feridos, o maior nível desde abril de 2022”, declarou.
O porta-voz disse que, desde março, a Ucrânia realiza mais ataques de longo alcance contra alvos dentro da Rússia do que recebe em seu próprio território. Segundo ele, Kiev concentra os ataques em refinarias, fábricas de armamentos, estruturas logísticas e instalações militares.
“A Ucrânia ataca refinarias de petróleo, fábricas de defesa e alvos militares e logísticos, enquanto a Rússia atinge principalmente a população civil”, afirmou.
Brasil pode ter "papel sério" pela paz, diz UcrâniaPorta-voz ucraniano diz que Lula pode usar diálogo com a Rússia nas negociações por cessar-fogo e convida empresas brasileiras para reconstrução do paísMundo2026-07-21T16:29:53.043ZO governo da Ucrânia disse nesta terça-feira (21) que o Brasil pode ter um “papel sério” no diálogo que mantém com a Rússia para pressionar o governo de Vladimir Putin a aceitar um cessar-fogo "justo, duradouro e incondicional". 📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! e siga o canal do SBT News. “Pensamos que o Brasil pode desempenhar um papel sério nos esforços de paz, em diferentes formatos, inclusive porque mantém um diálogo com a Rússia”, declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores ucraniano, Heorhii Tykhyi, durante entrevista coletiva com jornalistas da América Latina e do Caribe. + Tykhyi afirmou que o governo ucraniano acompanha as manifestações anteriores do presidente Lula (PT) em favor da interrupção dos combates. Segundo ele, Kiev espera que Brasília reitere diretamente a Moscou a defesa de uma trégua. “Gostaríamos que o Brasil deixasse claro novamente à Rússia que é hora de encerrar a guerra e concordar com um cessar-fogo justo, duradouro e incondicional com a Ucrânia. Depois disso, poderemos continuar discutindo todas as questões pendentes”, disse. O porta-voz também mencionou a declaração conjunta apresentada por Brasil e China sobre a guerra. Segundo ele, o principal ponto defendido no documento é justamente o estabelecimento de um cessar-fogo. Reunião entre Lula e Zelensky Tykhyi classificou como “construtiva” a , realizada em 17 de junho, durante a cúpula do G7, na França. Segundo o porta-voz, as iniciativas para encerrar a guerra foram o principal assunto da conversa. Os presidentes também discutiram a manutenção de contatos entre os dois governos. “Os esforços de paz foram o foco principal da discussão. Eles também falaram sobre a necessidade de continuar os contatos entre Ucrânia e Brasil em todos os níveis”, declarou. Tykhyi disse ainda que Lula manifestou apoio à busca por uma solução para o conflito e se comprometeu a manter a participação brasileira nas articulações diplomáticas. “Apreciamos o fato de o presidente Lula ter expressado apoio à obtenção da paz. Ele disse que o Brasil manteria, de sua parte, os esforços nesse processo”, afirmou. Na ocasião, Lula também adotou um tom positivo. O brasileiro afirmou depois do encontro que aquela havia sido “a melhor conversa” que já tivera com Zelensky e disse ter percebido, pela primeira vez, uma disposição efetiva do ucraniano para negociar o fim da guerra. Segundo Lula, Zelensky defendeu a suspensão dos combates sem impor condições prévias, para que as discussões sobre um acordo de paz pudessem começar. O presidente brasileiro afirmou considerar a posição “justa” e disse ter assumido o compromisso de procurar os líderes dos cinco países com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas (Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido) para tentar avançar nas negociações. As declarações dos dois governos sinalizam uma tentativa de distensão depois de anos de atritos públicos. Zelensky vinha criticando as propostas de mediação apresentadas pelo Brasil e considerava que algumas manifestações de Lula favoreciam a posição russa. Em janeiro de 2025, o ucraniano afirmou que “o trem do Brasil já passou” como possível mediador da guerra e, depois da participação de Lula nas comemorações do Dia da Vitória em Moscou, recusou duas tentativas de telefonema do brasileiro. Zelensky também havia classificado como “destrutiva” a proposta de paz apresentada por Brasil e China. Lula, por sua vez, já havia criticado Zelensky por não demonstrar, em sua avaliação, disposição suficiente para negociar. + Convite a Mauro Vieira O governo ucraniano também reiterou o convite para que autoridades brasileiras visitem o país. Segundo Tykhyi, o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, já convidou o chanceler Mauro Vieira para viajar a Kiev. “Nosso convite para que líderes e autoridades brasileiras de alto nível visitem a Ucrânia continua aberto. O ministro Sybiha também convidou o ministro Vieira”, disse. O porta-voz afirmou que poucas autoridades latino-americanas visitaram a Ucrânia desde o início da invasão russa em larga escala, em 2022. Ele citou viagens de representantes da Guatemala e de Honduras. “Não pedimos muito. Apreciaríamos simplesmente mais atenção e que líderes e políticos dos países da região visitassem a Ucrânia”, declarou. Empresas brasileiras na reconstrução Tykhyi convidou empresas brasileiras e de outros países latino-americanos a participar da reconstrução da Ucrânia. Segundo ele, o processo deve se estender por vários anos e movimentar bilhões de dólares em projetos nas áreas de infraestrutura, energia, agricultura e tecnologia. “A Ucrânia oferece diferentes parcerias benéficas, da tecnologia avançada à agricultura e à energia, além da participação de empresas na reconstrução do país, que será um projeto de vários anos e de bilhões de dólares”, afirmou. Tykhyi também apresentou a Ucrânia como uma alternativa para países latino-americanos que buscam diversificar suas relações econômicas, hoje concentradas principalmente nos Estados Unidos, na China e na União Europeia. “Sabemos que vocês estão procurando uma alternativa benéfica. A Ucrânia é uma grande alternativa. Não se trata de tomar partido de uma grande potência, mas de desenvolver uma cooperação mutuamente benéfica com um país específico que tem muito a oferecer”, afirmou. Segundo ele, a perspectiva de ingresso da Ucrânia na União Europeia amplia os possíveis benefícios para empresas estrangeiras que entrarem no mercado ucraniano ainda durante a guerra. “Se as empresas vierem trabalhar na Ucrânia agora, mesmo durante a guerra, poderão se beneficiar porque, mais tarde, trabalharão com um país que fará parte da União Europeia”, declarou. O porta-voz também afirmou que o país do Leste Europeu pretende ampliar a cooperação tecnológica na produção e utilização de drones. De acordo Tykhyi, a tecnologia desenvolvida durante a guerra pode ser aplicada em atividades civis, como agricultura, monitoramento territorial e fiscalização de fronteiras marítimas. “Os drones ajudam no campo de batalha, mas também podem ser utilizados para fins civis, desde o monitoramento de fronteiras, inclusive marítimas, até a agricultura”, disse. Ele classificou o país como uma “potência global em drones” e disse que o avanço tecnológico foi provocado pela necessidade de responder à invasão russa. “Tivemos que nos adaptar e inventar novas tecnologias. Não foi algo que desejamos, mas uma consequência das circunstâncias criadas pela invasão russa”, afirmou. + Presença na América Latina A Ucrânia pretende dobrar sua presença diplomática na América Latina e no Caribe, passando de seis para 12 embaixadas em um período de três anos. Em 2025, o país abriu representações no Panamá, na República Dominicana e no Equador. A previsão é inaugurar uma embaixada no Uruguai em 2026 e outras duas, na Guatemala e na Guiana, em 2027. “Estamos passando de seis para 12 embaixadas em apenas três anos. Isso demonstra nosso interesse em aprofundar os vínculos com os países latino-americanos”, disse Tykhyi. Segundo ele, a estratégia tem como prioridades o diálogo político e a cooperação econômica, tecnológica e energética. “Para nós, o mais importante é o diálogo político, a cooperação econômica e tecnológica, o aprofundamento dos vínculos em energia, transformação digital e fontes renováveis, além da participação das empresas da região na recuperação da Ucrânia”, afirmou. O porta-voz disse ainda que o apoio latino-americano às resoluções ucranianas na Assembleia Geral das Nações Unidas aumentou. Segundo os números apresentados por ele, 15 dos 33 países da região apoiaram uma resolução sobre a guerra em 2025. Em 2026, o número teria subido para 24. “Vemos que o apoio às resoluções ucranianas na Assembleia Geral das Nações Unidas cresce de forma constante, ano após ano”, declarou. Mortes de civis Segundo Tykhyi, os ataques russos contra a Ucrânia provocaram um aumento de 40% no número de vítimas civis em 2026. Ele afirmou que mais de 2.000 civis foram mortos ou feridos somente em junho. “Infelizmente, as Nações Unidas registraram um aumento de 40% nas vítimas civis neste ano. Somente em junho, foram mais de 2.000 civis mortos ou feridos, o maior nível desde abril de 2022”, declarou. O porta-voz disse que, desde março, a Ucrânia realiza mais ataques de longo alcance contra alvos dentro da Rússia do que recebe em seu próprio território. Segundo ele, Kiev concentra os ataques em refinarias, fábricas de armamentos, estruturas logísticas e instalações militares. “A Ucrânia ataca refinarias de petróleo, fábricas de defesa e alvos militares e logísticos, enquanto a Rússia atinge principalmente a população civil”, afirmou.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/mundo/brasil-pode-ter-papel-serio-pela-paz-diz-ucrania