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Guerra na Ucrânia agrava crise alimentar na África Subsaariana

Países, que já vinham em uma condição de insegurança alimentar, sofrem com escassez de itens básicos

Guerra na Ucrânia agrava crise alimentar na África Subsaariana
África Subsaariana, Guerra na Ucrânia
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Das consequências que uma guerra traz ao mundo, a fome pode ser uma das que aparece logo de imediato. No caso da Guerra da Ucrânia, que completa 1 ano este mês, além dos populares que sentem a devastação cotidianamente, quem também sente os efeitos no setor da alimentação é a África, sobretudo a região subsaariana. Para se ter uma ideia, o impacto mais sentido, desde o início do conflito, acontece na escassez de alimentos mais básicos e comuns do prato do africano, com destaque para o trigo. Países como Somália, República do Congo, Namíbia, Madagascar, Tanzânia, Sudão, Cabo Verde e Burundi dependem de mais de 50% das exportações do alimento, vindos tanto da Ucrânia, quanto da Rússia. 

+ O antes e o durante a guerra: a Ucrânia após 1 ano

Rússia e Ucrânia são responsáveis por:

  • Ao menos, 80% do comércio do óleo de girassol
  • Importantes fornecedores mundiais de grãos e óleo vegetal
  • 30% do fornecimento global de trigo e cevada
  • 1/5 da produção mundial de milho
  • Moscou, capital russa, em especial, é um dos maiores fornecedores de fertilizantes, representando 1/5 do total exportado para mundo
Participação na produção global de culturas selecionadas
Participação na produção global de culturas selecionadas | SBT

+ Consequências econômicas da Guerra na Ucrânia vão durar anos

Para Atos Dias, doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o continente africano sofre com um aumento contínuo de insegurança alimentar desde 2014. Ele explica que, de acordo com dados da ONU, este é o continente com maior percentual de pessoas que não têm acesso direto à comida. 

"Entre 2014 e 2021, o percentual de insegurança alimentar no continente aumentou 13,5%. Só a título de comparação, entre 2014 e 2021, no mesmo período, América do Norte e Europa experimentaram a queda de insegurança de 9,3% em 2014 para 8% em 2021. A fome é um problema bastante localizado no mundo. A guerra na Ucrânia, portanto, tende a piorar ainda mais o cenário de fome no continente africano", diz.

A Guerra da Ucrânia, em um cenário contemporâneo das Relações Internacionais globalizadas, impacta diretamente o comércio internacional, sobretudo o funcionamento regular da cadeia mundial de suprimentos de alimentos. O pesquisador explica ainda que, tanto Rússia como Ucrânia são exportadoras de alimentos estratégicos. "Tanto o conflito, quanto as medidas de restrições de exportações, contribuíram para que cerca de 3 meses após o início da guerra, o preço futuro do trigo, cereal mais consumido do mundo, atingisse nível recorde na bolsa de Chicago, a principal bolsa de valores para a negociação de commodities (mercadoria primária) agrícolas - uma alta que superou o recorde anterior, observado durante a crise financeira de 2008". 

Segundo relatório divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), a guerra na Ucrânia interrompeu a recuperação regional na África. "A invasão russa da Ucrânia desencadeou um aumento acentuado dos preços das matérias-primas. Como resultado, espera-se que a atividade econômica abrande para 3,8%", diz o relatório.   

África: o olhar de quem vive por lá

Boaventura Monjane é moçambicano e doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra. Para ele, o conflito entre Ucrânia e Rússia impacta não apenas a África, mas o mundo todo e de várias formas.

"Para a África esse conflito foi mais sentido na subida de alimentos ou de produtos agrícolas/alimentares. Então, sendo a África, ou grande parte dela, importadora de trigo, de petróleo bruto dessa região, isso refletiu num aumento de preço desses produtos, principalmente devido à interrupção das exportações da Rússia devido às sanções nos portos do Mar Negro", explica o moçambicano . 

Monjane também observa que a África tem sido palco do que ele chama de "ramificações diplomáticas". Representantes - tanto da Rússia, quanto da Ucrânia, seguem fazendo diligências para influenciar a opinião popular e também lideranças dos Estados. "Eu acho que a Ucrânia tentou, por exemplo, engajar a União Africana, sem muito sucesso no meu ponto de vista. E a Rússia também faz um trabalho enorme. O ministro russo dos negócios estrangeiros e cooperação internacional esteve a viajar pelo continente", conta. 

+ Prolongamento da guerra diminui chances de ucranianos voltarem para casa

A África, para ele, funciona como um apoiador estratégico, uma vez que, é dona de recursos minerais como petróleo, gás natural e minerais direcionados para a transição a uma economia low carbon. "A opinião da África sobre esta guerra que, do meu ponto de vista, vai para além da relação Rússia/ Ucrânia. É uma guerra geopolítica em que várias forças imperialistas têm interesse no posicionamento e nos resultados deste conflito".

+ ONU aprova resolução que condena invasão da Rússia à Ucrânia

Muitos países africanos decidiram em não condenar na ONU a invasão russa, no ano passado. Uma das explicações possíveis é a afinidade histórica, segundo o pesquisador moçambicano. "É óbvio que essa abstenção é formada pelo histórico que nós temos com a União Soviética, da qual a Ucrânia fazia parte, mas que agora se percebe que ela já é parte de uma aliança com a Otan e, portanto, Europa e Estados Unidos".

"Essa ligação história que a África teve e tem com a União Soviética influencia a posição africana. Muitos países estão acornados a uma história de apoio à União Soviética. Apoio não só logístico, mas também político que, em grande medida, permitiu o sucesso das lutas de libertação contra colonização e contra o apartheid da África do Sul, etc", conclui.

Mar Negro: estratégia para abastecimento e futuro indeterminado

O trânsito de exportação de alimentos também ficou embolado na região do Mar Negro. Noticiado pelo SBT News, Rússia e Ucrânia assinaram um acordo com as Nações Unidas e Turquia para garantir a exportação de fertilizantes e grãos pelo local.

O acordo, embora tenha sido prorrogado por mais 120, está chegando ao fim. Por este motivo, já nas próximas semanas, deve acontecer uma nova rodada de negociações para estender a iniciativa. Entretanto, a Rússia já traz sinais de que está insatisfeita.

+ Pior crise alimentar em 15 anos; FMI alerta sobre aumento da pobreza
+ "Situação da fome no mundo é inédita e assustadora", diz agência da ONU

Futuro e Desafios para a África Subsaariana

A guerra aumenta a preocupação em torno de uma intensificação das crises alimentar já existentes no continente africano. O secretário-geral da ONU, António Guterres, destaca o impacto do aumento do preço dos alimentos para a segurança alimentar de países africanos, cuja população gasta a maior parte da renda com comida. Cerca de 80% dessa renda é destinada para compra de alimentos. Além disso, existe a questão do preço. "Há uma falta de atenção e esforço no sentido de aliviar os impactos na segurança alimentar do continente. O Programa Mundial de Alimentos, principal braço da ONU para ajudar a questão alimentar humanitária, tem enfrentado severas limitações de recursos em junho de 2022", explica Atos Dias, doutorando em Ciência Política pela UFPE. 

O FMI aponta alguns caminhos que precisam ser enfrentados pelos africanos. O primeiro deles é a proteção de vulneráveis, sem comprometer o fluxo das dívidas. "Os rácios da dívida estão nos níveis mais elevados em mais de duas décadas, e muitos países de baixos rendimentos estão em situação de sobre-endividamento, ou perto disso. A polícia orçamental precisa proteger famílias vulneráveis do aumento dos preços dos alimentos e da energia", diz o documento.

+ Guerra na Ucrânia completa 1 ano sem sinal de desfecho

Outro ponto para se manter alerta, segundo o Fundo, é a contenção da inflação, sem comprometer a recuperação local. "As autoridades devem monetizar a inflação com cuidado e estar preparadas para aumentar as taxas de juros, se necessário, mantendo, simultaneamente, quadros de políticas credíveis e claramente comunidades".

Por fim, o relatório traz um terceiro aspecto desafiador: muitos países terão de "abordar as pressões cambiais decorrentes das taxas de juros mundiais mais elevadas e do aumento da incerteza". E complementa: "A intervenção cambial pode ajudar a compensar movimentos cambiais excessivos, mas o seu âmbito é muitas vezes limitado por reservas internacionais baixas. Nestes casos, a restritividade monetária também pode ser necessária para apoiar a moeda, mesmo face a uma fraca atividade econômica". 

+ "Ucrania - Arquivos de Guerra" relembra momentos antes do início do conflito

Para Atos Dias, não há previsão de fim do conflito, pois os representantes de Rússia e Ucrânia não apresentam "substantivos que indiquem um acordo de paz". Boaventura Monjane, o moçambicano e doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra, por sua vez, entende que o conflito só terá um fim se a Ucrânia negociar, de fato, com a Rússia "Talvez garantir que não vai entrar para a Otan. Talvez perder alguns territórios que a Rússia ocupou. Ou negociar de forma diferente, mas que satisfaça a Rússia".

Desde fevereiro os portos da Ucrânia estão sob bloqueio | Reprodução/SBT
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