Resenha: The Adventures of Elliot já nasce clássico
RPG de ação da Square Enix aposta em viagem no tempo, visual nostálgico e fantasia


The Adventures of Elliot: The Millennium Tales tem algo de familiar desde os primeiros minutos. Não no sentido de parecer preso ao passado, mas de carregar uma lembrança afetiva dos RPGs e jogos de aventura que marcaram gerações. É uma obra que entende a força da nostalgia e usa esse sentimento como ponto de partida para construir uma jornada própria.
A nova aposta da Square Enix combina exploração, fantasia, combate em tempo real e viagem no tempo em uma aventura de visual encantador. O jogo não esconde suas influências, especialmente de clássicos como The Legend of Zelda, Chrono Trigger e, porque não dizer, Dragon Quest, mas também não parece interessado em apenas repetir fórmulas. Há uma tentativa clara de transformar referências conhecidas em uma experiência mais atual.
O resultado é uma jornada charmosa, envolvente e promissora. Nem todas as ideias funcionam com a mesma força, mas The Adventures of Elliot deixa a sensação de que a Square Enix pode ter encontrado uma boa base para uma nova franquia.
Uma aventura que começa pelo encanto
Antes mesmo de seus sistemas mais complexos aparecerem, The Adventures of Elliot conquista pelo clima. O visual em 2.5D valoriza cenários detalhados, profundidade e composições que muitas vezes parecem ilustrações em movimento. Há momentos em que a câmera se afasta ou muda de ângulo e transforma uma simples travessia em uma paisagem.
Esse cuidado estético reforça o espírito clássico da aventura. O jogo tem cidades acolhedoras, ruínas misteriosas, templos espalhados pelo mapa e personagens que parecem guardar alguma história por trás de suas falas. É o tipo de mundo que te convida a andar sem tanta pressa.
A trilha sonora também tem papel importante nessa construção. Os temas das regiões e cidades ajudam a dar identidade às eras visitadas e ficam na memória mesmo depois que o jogo é desligado. Em uma aventura tão ligada à sensação de descoberta, a música funciona como parte da imersão.

O reino de Huther e a porta do tempo
A história acompanha Elliot, um aventureiro do reino de Huther. A cidade vive protegida por uma magia ligada à princesa, responsável por manter afastadas as criaturas que ameaçam o lado de fora das muralhas.
A rotina muda quando Elliot recebe uma missão do rei: investigar uma ruína em busca de algo que possa ajudar o reino e aliviar o peso carregado pela princesa. Durante a exploração, ele encontra uma porta capaz de atravessar o tempo. A descoberta logo deixa de ser apenas um mistério arqueológico e passa a envolver disputas de poder, decisões arriscadas e consequências que atravessam diferentes períodos da história.
A premissa usa elementos conhecidos do gênero, mas encontra força na forma como costura passado e presente. Ao longo da campanha, o jogador começa a perceber que cada era guarda pistas, marcas e consequências de acontecimentos anteriores. Essa relação entre tempo, território e memória é uma das melhores ideias do jogo.
Quatro eras, um mesmo mundo
A viagem no tempo é o centro da experiência. Elliot passa por quatro eras diferentes dentro do mesmo território, o que permite observar mudanças na arquitetura, nos caminhos, nos personagens e na própria atmosfera do mundo.
Essa escolha funciona bem porque cria uma sensação de reconhecimento. O jogador volta a lugares que já conhece, mas encontra novas camadas em cada visita. Uma cidade pode mudar de forma, uma região pode ganhar outro significado e detalhes vão ganhando importância conforme a história avança.
Ainda assim, o mapa nem sempre aproveita todo esse potencial. Algumas áreas parecem vazias em determinadas eras, com poucos inimigos, baús ou situações que justifiquem uma nova exploração. Como o jogo se apoia bastante na curiosidade, seria interessante encontrar mais recompensas e pequenas histórias escondidas pelo caminho.
A viagem rápida facilita a navegação e torna o ritmo mais confortável. Porém, por ser um jogo tão ligado ao conceito de atravessar o tempo, a mudança entre eras poderia ter mais impacto visual e narrativo. Usar portais ou rituais específicos com mais frequência talvez tornasse esse deslocamento mais marcante.

Combate direto, progressão irregular
Como RPG de ação, The Adventures of Elliot é agradável de jogar. O combate responde bem, as armas têm funções variadas e os poderes das companheiras abrem espaço para diferentes abordagens. A sensação geral é de uma aventura fluida, com bons momentos de exploração, combate e resolução de pequenos desafios.
A progressão, no entanto, não é linear. Elliot não evolui por níveis tradicionais nem por distribuição de pontos de experiência. O crescimento acontece principalmente por meio de armas mais fortes, identificadas por estrelas, além de melhorias obtidas em templos e missões.
É possível encontrar armas mais avançadas antes de passar por equipamentos intermediários, o que diminui a expectativa de crescimento constante. O jogo continua divertido, mas parte da recompensa pela exploração perde força quando a progressão parece menos organizada.
A dificuldade padrão tende a ser acessível. Alguns chefes oferecem bons desafios, mas raramente a aventura se torna realmente punitiva. Para jogadores que buscam desafio, talvez seja interessante buscar dificuldades maiores para aproveitar melhor as possibilidades do combate.

Templos, habilidades e companheiras
Espalhados pelo mapa, os templos funcionam como pontos de evolução e pausa dentro da jornada. Eles trazem puzzles, trechos de plataforma e combates curtos, recompensando o jogador com melhorias de vida ou novas habilidades.
A inspiração nos “shrines” de Zelda é evidente, mas a estrutura se encaixa bem na proposta. Esses desafios quebram o ritmo da exploração tradicional e dão pequenos objetivos paralelos, ainda que nem todos tenham o mesmo brilho.
Elliot também conta com companheiras durante a aventura. A princesa Helria surge com uma habilidade de cura, enquanto Faie, uma fada misteriosa, oferece poderes mais variados. Em teoria, essas habilidades ampliam bastante as possibilidades de combate e exploração. Na prática, algumas acabam ficando em segundo plano, já que é possível avançar usando combinações mais simples.
A presença de Faie ainda rende uma ideia curiosa: ela pode ser controlada por um segundo jogador. A participação é limitada, mais complementar do que central, mas funciona como um recurso simpático para sessões casuais, especialmente com alguém que não esteja tão familiarizado com videogames.
Sistemas extras e pequenos respiros
A personalização aparece por meio de gemas e pingentes. As gemas aprimoram armas e podem alterar detalhes do combate, enquanto os pingentes oferecem atributos passivos. São recursos úteis, que dependem bastante do interesse do jogador em testar combinações.
Há boas possibilidades nesses sistemas, embora nem sempre o jogo incentive o uso profundo deles. Quem preferir seguir de forma mais direta pode acabar equipando apenas o que parecer mais conveniente e deixando parte das opções de lado.
Entre os conteúdos paralelos, a coleta de gatos é um dos detalhes mais carismáticos. Procurá-los pelo mapa dá leveza à exploração e acrescenta um charme inesperado ao mundo. É uma mecânica simples, mas que combina com o espírito de aventura e descoberta do jogo.
Também há minigames ligados às habilidades de Faie, que funcionam como pequenas pausas na campanha. Eles ajudam a variar o ritmo e nos dão um motivo extra para experimentar melhor os poderes disponíveis.

A ausência de português pesa
Um dos pontos mais negativos para o público brasileiro é a falta de tradução para o português do Brasil. Em um jogo tão apoiado em narrativa, diálogos e missões, essa ausência cria uma barreira considerável.
Parte importante do encanto do jogo está nos personagens, nos mistérios e na forma como a história se revela aos poucos. Sem localização, muitos jogadores podem perder justamente aquilo que dá mais personalidade à aventura.

Veredito
The Adventures of Elliot: The Millennium Tales é uma aventura bonita, nostálgica e cheia de potencial. O jogo sabe olhar para os clássicos sem depender apenas deles, entregando um mundo de fantasia envolvente, boa trilha sonora e uma estrutura de viagem no tempo que sustenta a curiosidade do início ao fim.
Há tropeços. A progressão poderia ser mais bem equilibrada, algumas áreas pedem mais vida, certas missões quebram o ritmo e a ausência de português do Brasil pesa bastante. Mesmo assim, o brilho do conjunto permanece.
The Adventures of Elliot é quase impecável e parece uma promessa bem encaminhada. É o primeiro passo de uma ideia que ainda pode crescer muito, especialmente se uma continuação conseguir lapidar seus sistemas e aprofundar o que já funciona aqui.















