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Radicalismo desidratou apoio a Bolsonaro, avalia pesquisador

Sávio Cavalcante distingue o "eleitor de 2018" do "bolsonarista de extrema direita", que garantiu base ao governo

Radicalismo desidratou apoio a Bolsonaro, avalia pesquisador
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O presidente, Jair Bolsonaro (PL), ficou refém do próprio "bolsonarismo" ao longo do governo e acabou perdendo parcela do eleitorado de direita, não radicalizado, que ajudou a elegê-lo em 2018 - surfando no antipetismo, nos impactos da Lava Jato e na expansão mundial do conservadorismo. A avaliação é do sociólogo Sávio Machado Cavalcante, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

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O cientista social estudava o antipetismo, as manifestações de junho de 2013, o lavajatismo, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, quando a pesquisa o conduziu ao tema alvo de estudos nos últimos cinco anos, pelo menos: o bolsonarismo e o avanço da extrema direita no Brasil. Para ele, o presidente tem uma base mobilizada que pode ser ponto de apoio para confrontar instituições e o resultado das urnas, em uma eventual derrota.

Em entrevista ao SBT News, o sociólogo afirma que o bolsonarismo "não representa apenas um campo político que tenta derrotar a esquerda no Brasil", ele conseguiu derrotar a direita mais conservadora, afastou eleitores antipetistas não radicais, criou uma máquina de comunicação alternativa e aposta nos ataques à instituições. Cavalcante afirma que é preciso distinguir o eleitor de Bolsonaro de 2018 do bolsonarismo, como movimento político de massa. Esse último, segundo ele, "é um campo, que radicaliza a pauta conservadora, tem radicalizado a pauta relacionada à economia e que, ao longo do governo de Bolsonaro, foi a parte mais importante de dar sustentação às estratégias do governo". Leia os principais trechos:

Eleitor de bolsonaro 2018 e "bolsonarismo"

Na época das eleições, a gente consegue identificar alguns grupos que têm algum interesse, algum tipo de valor que está sendo priorizado por uma candidatura e, por isso, naquele momento, ele acaba votando no candidato. Quando tentamos entender um campo político, a gente precisa olhar não apenas para um voto, mas para a adesão desses grupos sociais por um conjunto da pauta de um determinado governo, de uma determinada candidatura. A base social, portanto, é aquela que dedica parte importante do seu tempo para uma militância nas ruas, nas redes. Ela adere de uma forma mais integral à pauta de determinado governo ou candidatura e obedece, de certa forma, às estratégias políticas que têm sido realizadas por esse campo. O bolsonarismo como movimento social, que dá suporte à essa candidatura, tem um perfil um pouco mais homogêneo que os eleitores de Bolsonaro, que apresentam uma configuração mais distinta, mais heterogênea. 

O perfil da base social do bolsonarismo é, principalmente, pessoas e grupos de pequenos empresários, uma parte da classe média, comerciantes, aqueles que estão ligados a esse circuito mercantil e que, de alguma maneira, buscam representar seus interesses com uma volta de uma preservação de poder sobre a propriedade. Por isso que a gente encontra tantos proprietários de terra, pequenos proprietários e uma parte da classe média ou de autônomos. Evidentemente que isso começa só a fazer sentido quando você percebe a vinculação dessa ideia de poder irrestrito sobre a propriedade, junto com o perfil de um conservadorismo cristão como um todo, que não é só evangélico, é católico também. Então, é um campo que radicaliza uma pauta conservadora, que tem radicalizado também uma pauta relacionada à economia, relação com o estado e que, ao longo do governo de Bolsonaro, foi a parte mais importante de dar sustentação às estratégias do governo.

Extrema direita

Extrema direita, porque é uma estratégia que busca contornar, driblar  parte do jogo democrático, que vem funcionando no Brasil, desde o fim dos anos 80, ao longo da década de 90. Os constantes ataques às instituições da democracia representativa mostram que há um perigo, sim, de que esse movimento, essa base social, possa servir de sustentação para um modelo mais autoritário de governo. É por isso que a gente diferencia um campo da direita, conservador em geral, que sempre existiu no Brasil, está nas classes populares e nas classes dominantes, por um tipo radicalizado de movimento, que começa a questionar as bases da democracia brasileira, tal como elas existem, desde a Nova República.

O bolsonarismo não representa apenas um campo político que tenta derrotar a esquerda no Brasil. Ele tentou e logrou, até o momento, derrotar parte da direita, que também existia e que foi forçada a se encaminhar mais para o centro. Uma figura que simboliza isso é o próprio Geraldo Alckmin (ex-governador de São Paulo), que fez uma composição de forças na chapa com o Lula. Aquele conjunto de pautas e demandas que unificaram o campo anti-petista, com a radicalização do bolsonarismo, é como se isso estivesse ultrapassando alguns limites. Acho que desidratou bastante o bolsonarismo também nas classes médias foi a própria condução da pandemia, em que a estratégia elaborada pelo governo foi diferente da preconizada pelos organismos internacionais e pelos organismos e instituições que lidam com o tema da crise sanitária. Que foi fazer o vírus circular mais rápido possível, imaginando que isso poderia chegar a uma imunidade coletiva e a pandemia acabar mais rápido. Para fazer isso, esse movimento precisou colocar em questão a própria gravidade da doença, precisou colocar em questão medidas de tratamento, ou oferecer tratamentos ineficazes e questionar até a importância da vacina. 

Refém do bolsonarismo

O movimento teve um efeito duplo: tornou mais homogêneo aquele grupo que se radicalizou e, uma outra parte, que viu isso com bastante reserva, que disse "está acontecendo alguma coisa aqui para além do aceitável". É o caso da vacina, é o caso do questionamento das urnas eleitorais, que sempre funcionou no Brasil. Esse movimento tornou o Bolsonaro também refém do movimento bolsonarista. Ele não podia dar passos atrás. Quando tentou fazer isso, não se mostrou confiável para aqueles que estavam acompanhando o tema e correria o risco de perder a base mais radicalizada, mais militante. 

O que diferencia o bolsonarismo de um campo da direita conservadora que liderou o país na ditadura militar, nas décadas de 60 e 70, é que a ditadura militar não mobilizou da mesma maneira a sua base de apoio, ela tinha um perfil um pouco mais tecnocrático, autoritário, violento, mas de resolução por ato dos conflitos. O bolsonarismo é um tipo de movimento político e de campo que aposta constantemente na mobilização de sua base e, por isso, que ele tem pontos de encontro com outras manifestações da extrema direita no mundo. E é isso que o leva a não poder recuar de alguns pontos. 

Urnas em xeque

A questão das urnas, a gente tem que olhar para todas as dimensões do problema, e uma delas é que Bolsonaro e aqueles que estão na sua campanha sabem que pesquisas eleitorais funcionam e que as urnas retratam as opiniões, o escrutínio que a população vai fazer. Não à toa, quando perceberam que não estão indo bem nas pesquisas, começaram a modular o discurso, a tentar encontrar alternativas. Nessa estratégia de constante mobilização, precisavam dizer que eles têm um apoio da maior parte da população brasileira. De fato, eles levam muitas pessoas para as ruas, é evidente, as manifestações são muito grandes. Elas têm um caráter de uma homogeneidade muito forte. Nas pesquisas de opinião pública que foram feitas no dia da Independência (7 de Setembro) , a respeito de como as pessoas estavam vendo o processo eleitoral brasileiro, quase 70% não confiavam nas urnas e quase a mesma parcela diziam que, em caso de fraude, seriam favoráveis a uma intervenção militar. Ou seja, o Bolsonaro tem em suas mãos uma força que se expressa de maneira mobilizada nas ruas e que pode ser ponto de apoio para sua estratégia de negar o resultado, caso ele seja derrotado. Ele vai fazer isso? Muito provavelmente sim, até porque, quando ele ganhou em 2018, já questionou o resultado, disse que teria ganhado no primeiro turno. É muito provável que ele volte a fazer isso em caso de derrota.

O efeito que essa contestação terá vai depender de como as instituições reagem. E dentro das instituições, conta principalmente o papel que o Exército e as polícias vão cumprir, para que a Constituição e o processo legal sejam respeitados. Não me parece que ele consiga fazer desse questionamento um apoio também nas instituições, para que nós entremos numa situação de exceção, uma ruptura democrática. Não porque ele não queira, a meu ver, mas porque talvez ele não tenha condições. Até porque parte importante das classes dominantes no Brasil, que organiza de alguma forma a economia, não quer esse cenário. Então, muito provavelmente, ele não vai contar com o apoio de forças econômicas importantes. E Bolsonaro também não conta hoje com o apoio internacional, que ele teria há dois anos. Então a meu ver é muito provável que ele vá, em caso de derrota, questionar o resultado das urnas.

Bolsonarismo na oposição

É um difícil prognóstico, mas a gente pode olhar para as experiências de outros países, em que uma extrema direita muito parecida ocupou esse papel de oposição a governos que a derrotaram. É claro que aí tem a dificuldade de saber o quanto é possível comparar as realidades de países, commo no caso dos Estados Unidos, o governo de Donald Trump e do trumpismo, que é muito usado pelo Bolsonaro como uma referência. Cabe aqui uma observação importante: a extrema direita nos Estados Unidos e na Europa têm conseguido maior apoio popular. Não me parece ser o caso brasileiro, em que a base social mais mobilizada, mais engajada, se encontra nas classes intermediárias, em pequenos proprietários. Isso é uma coisa importante. Agora, eu imagino que esse grupo (bolsonaristas), ainda que um pouco mais desidratado, vai continuar operando e tendo um efeito muito grande nas discussões políticas. Pode até não ser tanto um efeito na instituição, na Câmara, mas vai ter, evidentemente, na sociedade, no debate. É o caso da pandemia. Por quê foi tão difícil fazer um tipo de condução mais humanitária no Brasil? Porque uma parcela da população brasileira aderiu àquele discurso, à estratégia negacionista do governo. Essa população não vai mudar de uma hora para outra, nos próximos anos, quando for indicado algumas diretrizes para o que será essa oposição, porque será esse comportamento é muito provável que ela continuará seguindo de uma maneira homogênea esse comportamento. 

Verdade alternativa

Você tem um conjunto grande de desafios que o Brasil ainda não enfrentou, na sua democracia. Uma coisa importante que a imprensa e as instituições vão ter que saber como lidar, é com um tipo de movimento político que tem como estratégia eliminar o adversário e propor um tipo de produção de verdade alternativa. Que não é só a desinformação, no sentido "ele errou, foi algo enviesado", não. Tem um sistema industrial de produção de alternativa para fazer com que uma estratégia política específica saia vitoriosa. O bolsonarismo se sustenta e foi crescendo dizendo que toda a imprensa, a mídia tradicional, era de esquerda. Isso não é verdade, simplesmente não é verdade. Mas ao fazer isso, ele criou uma rede de comunicação própria, que alimenta aquela estratégia e aqueles valores. É uma rede de comunicação que, sob as vestes de jornalismo, está fazendo agitação e propaganda para um campo específico. Então esse é esse tipo de movimento, ele não existia dessa forma no Brasil antes, você vai continuar existindo. 

Lavajatismo

Ninguém pode ficar contente com o fato de que recursos públicos sejam usados de modo ilícito. O problema no Brasil, e deu força moral para o anti-petismo desde 2013 e 2014, é que o combate à corrupção  foi feito de um modo que os instrumentos para resolver, os remédios utilizados, acabaram se tornando um problema em si mesmo. Por terem se valido de métodos de exceção, por terem buscado uma noção de purificação moral da política, acabou alimentando um campo, em que a solução à corrupção foi uma solução autoritária. Não se construiu uma solução democrática ao problema da corrupção. Nos últimos anos, o problema da corrupção acabou se tornando um instrumento de aniquilação de adversários políticos e eliminação de opositores. O que não pode ser admitido em um sistema democrático. Muito importante para aqueles que não gostam do campo petista, não gostam da esquerda, consigam construir uma oposição, uma direita que esteja restrita a esse campo democrático, que consiga lutar pelos seus interesses, pelos seus valores, dentro de níveis em que esse debate possa continuar existindo. 

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