Economia

Como está Argentina de Milei, que inspira campanha de Flávio

Inflação desacelerou e contas públicas melhoraram, mas país ainda enfrenta pobreza elevada, desemprego e queda da atividade em setores da economia

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Caroline Vale
Javier Miler e Flávio Bolsonaro | Beto Barata/PL

Javier Miler e Flávio Bolsonaro | Beto Barata/PL

A política econômica do presidente argentino Javier Milei é apontada como referência por integrantes da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), apesar das dificuldades que a Argentina ainda enfrenta. Quase três anos após o início do governo, a inflação desacelerou e as contas públicas registraram superávit, mas cerca de um em cada três argentinos vive abaixo da linha da pobreza, enquanto setores como comércio e indústria apresentam retração.

A coordenadora econômica da campanha de Flávio, Daniella Marques, afirmou em setembro que Milei era “um ótimo exemplo” para medidas de redução da burocracia, dos impostos e de estímulo à capacidade de investimento.

"Flávio fez uma orientação para a equipe, para a gente trabalhar na revogação e voltar atrás em todos os impostos criados ou elevados pelo Haddad. Já temos mais de mil normas mapeadas para revogar, usando um pouco de inspiração no que foi feito no governo Milei na Argentina", disse na ocasião.
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Durante o debate presidencial da Band, no domingo (18), Flávio evitou confirmar se adotaria o modelo argentino. Questionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre uma eventual "motosserra" nos gastos públicos, respondeu que faria um "tesouraço" na corrupção do governo.

Especialistas ouvidos pelo SBT News alertam, porém, que as condições econômicas de Brasil e Argentina são diferentes e que as medidas adotadas por Milei não podem ser simplesmente reproduzidas no país.

“O cenário que a Argentina vivia é muito diferente do cenário do que o Brasil vive hoje”, afirma Roberto Dumas, professor de economia internacional do Insper.

Pobreza atinge um terço da população argentina

A pobreza na Argentina atingiu 32,3% da população no primeiro semestre de 2026, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC). O resultado interrompe parte da queda registrada durante 2025 e representa um desafio para o governo Milei.

O levantamento, que considera 31 aglomerados urbanos do país, aponta que 9,7 milhões de pessoas viviam abaixo da linha da pobreza no período analisado.

A Universidade Católica da Argentina (UCA), que acompanha indicadores sociais e produz estimativas próprias, avalia que a pobreza pode chegar a 35% até o fim do ano.

A taxa de desemprego também aumentou. Segundo o INDEC, o índice chegou a 7,9% no segundo trimestre de 2026, ante 7,6% no mesmo período do ano anterior.

Comércio e indústria registram queda na atividade

Os indicadores de atividade econômica também mostram dificuldades. Em julho, a economia argentina recuou 1,4% na comparação com o mesmo mês de 2025, contrariando a expectativa de crescimento de 1,8% dos analistas.

O comércio atacadista, varejista e de reparos registrou queda de 5,1%, enquanto a indústria manufatureira recuou 4,6%.

Os resultados contrastam com o crescimento registrado pelo Produto Interno Bruto (PIB) nos primeiros meses do ano. Segundo o INDEC, a economia cresceu 2,3% no primeiro trimestre e 2,0% no segundo trimestre de 2026, em comparação com os mesmos períodos de 2025.

A inflação, por sua vez, apresentou desaceleração expressiva. A taxa mensal, que estava próxima de 25% em dezembro de 2023, caiu para 1,7% em agosto de 2026.

Ajuste fiscal de Milei tem custo social, diz economista

Quando Milei assumiu a Presidência, em dezembro de 2023, a Argentina enfrentava uma grave crise econômica, marcada por inflação anual de três dígitos. O presidente adotou um programa de redução dos gastos públicos, ajuste das contas do governo e propostas de privatização.

Ao SBT News, Roberto Dumas, professor de economia internacional do Insper, destacou que o principal resultado positivo da política econômica de Milei foi a reversão do déficit fiscal para superávit. Ele ponderou, no entanto, que o ajuste tem custos sociais.

“O que o Milei fez foi a chamada motosserra. Ele chegou num déficit absurdo e agora ele está com superávit fiscal. O que ele quer fazer é expulsar o setor governamental para atrair o setor privado. Com superávit fiscal, as taxas de juros tendem a cair e atrair o setor privado para fazer investimento e aumentar o emprego”, afirmou.

Dumas comparou a intensidade do ajuste fiscal argentino a uma operação médica "sem anestesia" e destacou os efeitos sociais das medidas.

“Com todas as benesses que teve, você acaba aumentando o índice de pobreza”, disse.

Modelo argentino pode ser aplicado no Brasil?

Apesar de integrantes da campanha de Flávio Bolsonaro utilizarem a Argentina como referência, economistas ressaltam que os dois países enfrentam situações distintas.

Para Dumas, o Brasil pode buscar o equilíbrio fiscal sem necessariamente reproduzir a intensidade dos cortes adotados por Milei. Medidas como a redução de ministérios e a sinalização de uma trajetória de diminuição do déficit público poderiam contribuir para reduzir os juros futuros, segundo o professor.

A economista Monica Baumgarten de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics (PIIE), também questiona a comparação entre os países.

"Um eventual governo Flávio Bolsonaro tem, pelo menos, seus assessores econômicos, usado o caso da Argentina para falar sobre o Brasil, o que é de uma idiossincrasia sem limite, porque a Argentina não tem absolutamente nada a ver com o Brasil. As pessoas podem até aplaudir o que Milei fez na Argentina. Mas Argentina e Brasil não poderiam ser países mais diferentes do que são", comentou em entrevista ao Radar News.

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