"Alta do diesel deixa mercado preocupado", analisa especialista sobre novo Boletim Focus
Economista aponta efeito cascata na inflação e alerta para pressão de cumprimento da meta sobre o Banco Central

Emanuelle Menezes
A alta do diesel, influenciada pela guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, já começa a impactar diretamente as expectativas do mercado financeiro e acende um alerta para a inflação no Brasil. É o que aponta a economista Juliana Inhasz Kessler, professora do Insper, ao analisar os dados mais recentes do Boletim Focus divulgados pelo Banco Central nesta segunda-feira (30).
A projeção de inflação para 2026 subiu de 4,17% para 4,31% em apenas uma semana, um avanço considerado relevante por analistas e que aproxima o índice do teto da meta, de 4,5%. Para a especialista, esse movimento já reflete uma "contaminação" do aumento no preço do diesel na economia.
"O mercado está cada vez mais preocupado, porque essa alta do diesel não fica restrita ao combustível. Ela se espalha e gera um efeito em cascata, especialmente porque no Brasil a gente precisa muito de frete, de caminhão na rua, para transportar a produção", afirma Juliana em entrevista ao News Manhã.
A economista explica que o impacto do diesel vai além do setor energético e atinge diretamente os custos logísticos, elevando preços de produtos e serviços. Esse efeito se intensifica em um cenário internacional adverso, marcado por conflitos que afetam a oferta global de petróleo.
"A gente já completou mais de um mês desse conflito com impactos significativos, rotas de escoamento de petróleo sendo bloqueadas. Isso tudo tem trazido um cenário de redução da oferta do petróleo no mundo e também uma incerteza muito grande sobre os caminhos das economias daqui para frente", diz.
Esse contexto, segundo ela, ajuda a explicar a piora nas projeções do Focus – não apenas para 2026, mas também para os anos seguintes. O salto de 0,14 ponto percentual na estimativa de inflação para este ano é visto como um sinal claro de deterioração do cenário econômico.
"Havia uma expectativa do mercado de que o conflito poderia ser breve. Não é o que a gente tá vendo, né? Esse aumento (na expectativa de inflação) mostra o tamanho da preocupação com esse cenário", explica Juliana.
Na avaliação da especialista, o movimento revela um ambiente de maior tensão e reduz as chances de cumprimento da meta inflacionária, o que aumenta a pressão sobre o Banco Central.
"O Banco Central entra em alerta. Talvez a gente continue tendo uma queda muito tímida, o que vai frustrar bastante, porque todo mundo já estava esperando uma queda um pouco mais acelerada da taxa Selic", afirma.
Medidas do governo têm efeito limitado
A economista também avalia com cautela as medidas adotadas pelo governo para conter o preço do diesel, como isenções fiscais e propostas de subsídios.
Segundo ela, embora possam trazer alívio no curto prazo, essas ações têm efeito limitado diante de pressões externas. "Se a gente continuar tendo aumentos sucessivos no preço do petróleo, que pressionem o preço do diesel, esse tipo de medida é consumida muito rapidamente", afirma.
"Se as incertezas continuarem altas, a gente vai estar tentando apagar uma fogueira com conta-gotas", conclui Juliana.








