Economia

A corrida da IA agora é por infraestrutura — e essas ações estão na mira

Além do universo das gigantes de tecnologia, empresas do setor de infraestrutura e de energia estão surfando no tema

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IA além da programação: investidores olham para nomes não tão óbvios | Reprodução

A corrida em torno da inteligência artificial (IA) no mercado financeiro passou por uma transformação profunda, deixando para trás o encantamento inicial apenas com os algoritmos para focar na base física que sustenta essa tecnologia: o foco se volta ao setor de infraestrutura.

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A fronteira da tecnologia ultrapassa somente as big techs, como a Nvidia e a Microsoft, e envolve diferentes áreas, redefinindo o mapa global de investimentos em setores como infraestrutura, energia e mais. Algumas empresas estão na mira e podem se beneficiar nesses subsegmentos.

O CIO do EFG Private Wealth Management, Luis Ferreira, detalha que a IA deixou de ser meramente um assunto de programação e se tornou um desafio de capacidade física, envolvendo a disponibilidade de chips, data centers, energia confiável e redes estáveis.

"No ciclo anterior, o software escalava quase 'sozinho'. Agora, a escala depende de investimento físico, prazos e permissões. Energia e data centers passaram a aparecer com frequência em discussões de reguladores e governos, sinal de que o tema entrou na agenda de infraestrutura", diz Ferreira.

Na prática, o software e a infraestrutura sempre evoluíram de forma conjunta, na visão do professor do Insper, Raul Ikeda. O avanço dos modelos de IA só foram possíveis porque as big techs investiram para o treinamento de modelos e de máquinas anteriormente.

"O que muda agora é o estágio do ciclo, entramos há alguns anos em uma fase mais madura e orientada ao produto. Com os modelos mais estabelecidos, a prioridade deixa de ser apenas treinar modelos cada vez maiores e passa a ser operar esses modelos com serviços, escala, custo, latência e confiabilidade controlados", explica Ikeda.

"A gente ainda tá em uma fase importante de infra. A gente vê aí, principalmente, as big techs anunciando, nos últimos resultados, cada vez mais investimentos para montar hyperscales (ambiente de computação)", acrescenta o analista da Empiricus Research, Enzo Pacheco.

É fundamental ressaltar, antes de detalhar os nomes que podem estar na mira nas bolsas, que o material descrito aqui se baseia em visões de especialistas e não constitui uma recomendação de investimento de nenhuma das casas ou instituições citadas. O cenário deve sempre ser avaliado individualmente por cada investidor.

Empresas gringas na mira dos investidores

A atenção do mercado se volta para as empresas que fornecem os "tijolos e o cimento" da era digital. No topo da pirâmide estão as fabricantes de hardware e semicondutores, como Nvidia e AMD, além da TSMC (fabricação) e ASML (equipamento). "Peças centrais da capacidade de rodar IA", conforme Luis Ferreira.

Os aceleradores de IA (TPUs, na sigla em inglês) do Google surgem como uma alternativa relevante ao domínio da Nvidia, enquanto acordos bilionários, como o entre Oracle e OpenAI, reforçam o papel estratégico da infraestrutura de nuvem. "Ao redor disso, todo o ecossistema é impactado", segundo Ikeda.

A expansão massiva desses sistemas trouxe um gargalo inesperado também: a energia elétrica.

Empresas como Vistra e Constellation Energy viram suas ações "voarem" recentemente por serem as principais fornecedoras de energia nuclear na rede americana, fechando acordos diretos com as big techs para sustentar seus data centers, relembra o analista da Empiricus.

"Acho que essa temática de energia é importante, porque a gente tem visto que, do jeito que está hoje, é insuficiente. Vai ter cada vez mais investimentos. Essa parte de energia nuclear eu acho que é uma parte importante e temos visto soluções mais práticas para poder atender essa demanda mais urgente", complementa Pacheco.

Além da energia, nomes como Fanuc, Keyence, Rockwell e Honeywell são citados na melhoria da inspeção, manutenção e controle na automação e na indústria.

No campo das redes, Ferreira aponta que Arista, Broadcom, Marvell e Cisco se beneficiam diretamente quando a interconexão de dados se torna o limitador para escalar grandes clusters de processamento. Entre as especializadas, a Vertiv, fabrica sistemas de backup e resfriamento essenciais para data centers, segundo Pacheco.

Captura de valor no Brasil e os riscos

No cenário brasileiro, a captura de valor pela IA ocorre, especialmente, através da eficiência operacional de empresas já estabelecidas. A WEG é frequentemente mencionada por analistas como a beneficiária mais óbvia do ciclo de infraestrutura por causa da sua liderança em equipamentos de eletrificação e automação, que suportam a expansão da capacidade elétrica.

Outras gigantes nacionais também podem ver impacto nos seus balanços: o Bradesco e o setor bancário podem ganhar eficiência na automação de tarefas e gestão de risco; a Telefônica Brasil (detentora da marca Vivo) pode expandir serviços digitais de alto valor agregado e a Localiza pode utilizar a IA para otimizar a alocação de frota e manutenção, afirma Ferreira.

O varejo e a indústria de alta tecnologia no Brasil também estão no jogo. O Magazine Luiza busca transformar a IA em lucro através de ganhos logísticos e personalização de conteúdo, enquanto a Totvs tem o potencial de embutir a tecnologia em seus softwares para elevar a retenção de clientes e permitir cobranças recorrentes por novas funcionalidades.

Até mesmo a Embraer entra na lista, de acordo com o CIO do EFG Private Wealth Management, utilizando a IA para reduzir fricções na sua complexa cadeia de suprimentos e elevar a produtividade industrial. A captura de valor pode envolver a aceleração de decisões. Enquanto a Axia Energia, antiga Eletrobras, e outras elétricas também têm potencial de capturar valor.

Raul Ikeda adiciona que, à medida que a tecnologia se consolida, setores de segurança da informação e consultorias especializadas ganharão relevância ao viabilizar a adoção da IA em processos críticos de negócios.

"Uma aposta mais longínqua, é o setor de embarcados e edge computing, com hardwares especializados aplicados diretamente a produtos como veículos, dispositivos vestíveis, smartphones e sistemas industriais", acrescenta o professor do Insper.

Para o investidor brasileiro, Luis Ferreira adverte que o fator dólar e a concentração em poucos provedores críticos são riscos que não podem ser ignorados. Segundo ele, o tema é estrutural e deve perdurar por anos, mas o preço dos ativos em reais pode oscilar drasticamente conforme os juros globais e os gargalos de entrega.

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