Gorillaz transforma luto em travessia e crítica social no ambicioso “The Mountain”
Nono álbum do grupo virtual troca o hit imediato por uma obra conceitual inspirada na Índia, com participações póstumas


Luccas Balacci
O Gorillaz está de volta com "The Mountain", nono álbum do grupo britânico virtualmente formado por 2-D, Murdoc, Noodle e Russel – e conceitualmente amarrado pelo músico Damon Albarn e o ilustrador Jamie Hewlett. Três anos após "Cracker Island", que rendeu até participação do brasileiro MC Binn, o ousado projeto que roubou a cena no início dos anos 2000 traz um tom contemplativo à morte e dispara críticas ao autoritarismo e à anestesia tecnológica.
O ponto de partida é uma viagem da dupla à Índia, que acabou moldando não só o imaginário do álbum, mas também suas melodias, com a presença de instrumentos como sitar e bansuri. A sonoridade também ecoa elementos do Oriente Médio, da Europa e até da América Latina – representada pelos versos do rapper Trueno em "The Manifesto".
Apesar de abordar um tema delicado para tantos, não se trata de um disco fúnebre, sombrio ou derrotista. A morte é tratada como travessia, com letras sobre luto, despedida e ritos de passagem que não fogem da dor, mas que abordam a aceitação e até uma certa celebração da continuidade. O destaque vai para “Orange County”, em que a frase "Sabe, a coisa mais difícil é dizer adeus a alguém que você ama" é cantada repetidamente com um alegre assovio.
Há ainda espaço para ansiedades contemporâneas, como a irônica propaganda autoritária de "The Happy Dictator", a luta de refugiados e imigrantes em "Damascus" e a alienação tecnológica em "The Shadowy Light". Tudo acompanhado das mais diversas colaborações – marca registrada desde o início da carreira do grupo. "The Mountain" reúne nomes como Sparks, IDLES, Johnny Marr, Paul Simonon, Anoushka Shankar e Ajay Prasanna.
No imaginário da travessia, o Gorillaz recorreu a participações póstumas memoráveis – muitas, inclusive. colaboraram em vida com o grupo no passado. O ator Dennis Hopper ressoa em "The Mountain", o rapper Proof traz fortes versos em "The Manifesto", Mark E. Smith muda o clima de "Delirium" e Tony Allen recita um verso em Yoruba, língua africana, em "The Hardest Thing".
Para um público acostumado aos hits históricos do grupo (“Clint Eastwood”, “Feel Good Inc.”, “On Melancholy Hill”), “The Mountain” não oferece equivalentes fáceis. Poucas faixas se sustentam isoladas como single “óbvio”. A aposta é outra, de uma obra completa, para se ouvir do início ao fim com atenção, fugindo das lógicas das playlists e dos virais.
O lançamento também vem acompanhado de um curta-metragem de 8 minutos. “The Mountain, The Moon Cave and The Sad God” foi desenhado à mão como uma homenagem à era de ouro da animação 2D, com cenários inspirados na Índia. A vaga trama acompanha o quarteto da ascensão à montanha a um mergulho ao desconhecido.
Junto com o lançamento do álbum, o Gorillaz anunciou as primeiras datas de sua turnê na América Latina – a primeira desde 2022. O Brasil ainda não foi confirmado, mas a atração é cotada como a principal do festival Primavera Sound, que volta ao calendário paulistano no segundo semestre deste ano.








