Seringas, desinfetante e leitos: o passo a passo dos técnicos acusados de matar pacientes na UTI
De acordo com os investigadores, o esquema seguia um padrão de execução que envolvia o uso indevido do sistema do hospital e acesso direto aos leitos



Pedro Canguçu
Kenzô Machida
As investigações da Polícia Civil do Distrito Federal revelam que os técnicos de enfermagem presos, suspeitos de matar pacientes na UTI do Hospital Anchieta, em Taguatinga, atuavam de forma planejada, silenciosa e criminosa, burlando rotinas de segurança e protocolos hospitalares para provocar os óbitos e fazer com que as mortes parecessem consequência da evolução natural dos quadros clínicos.
De acordo com os investigadores, o esquema seguia um padrão de execução que envolvia o uso indevido do sistema do hospital, acesso direto aos leitos, manipulação de seringas e aplicação de substâncias que não faziam parte de qualquer prescrição médica válida. O SBT News teve acesso ao passo a passo da rotina dos técnicos dentro do hospital.
No dia 17 de novembro, a professora aposentada Miranilde Pereira da Silva procurou o hospital com constipação. Os exames apresentaram taxas normais e, às 10h33, ela estava consciente e conversando. Cerca de uma hora depois, às 11h33, o técnico de enfermagem Marcos Vinícius lançou no sistema do hospital a prescrição de um medicamento utilizando a senha de um médico, que estava aberta no sistema. Depois, ele foi até a farmácia da UTI para retirar o remédio.
As imagens mostram que, às 11h50, Marcos Vinícius despejou o conteúdo da seringa na pia e, em seguida, aspirou outra substância. Em seguida, ele aplicou o líquido diretamente na veia de Miranilde. Oito segundos depois, a paciente sofreu a primeira parada cardiorrespiratória. Às 13h07, o técnico fez uma nova aplicação intravenosa e, 15 segundos depois, a professora aposentada teve a segunda parada.
A sequência de intervenções continuou ao longo da tarde. Às 15h46, seis minutos depois de ter provocado uma parada em outro paciente, Marcos Vinícius voltou ao leito de dona Miranilde com uma seringa no bolso e fez nova aplicação. Doze segundos depois, ela sofreu a terceira parada cardiorrespiratória. Às 16h35, o técnico foi flagrado despejando desinfetante em um copo e aspirando o conteúdo com a seringa. Segundo a investigação, cinco aplicações desse produto foram feitas diante das outras duas técnicas de enfermagem, Amanda Rodrigues e Marcela Camilly Alves, em um procedimento que durou cerca de 22 minutos. Durante esse período, a paciente teve a quarta parada.
Após um novo alerta no monitor, Marcos Vinícius realizou mais uma aplicação intravenosa de desinfetante. Dona Miranilde não resistiu e morreu.
No mesmo dia, o técnico também atuou contra a segunda vítima, João Clemente Pereira, de 63 anos. O idoso havia dado entrada no hospital em 4 de novembro com dores de cabeça e tontura. Às 15h40 do dia 17, Marcos Vinícius entrou no leito já com uma seringa no bolso e fez uma aplicação. Oito segundos depois, João Clemente sofreu uma parada cardiorrespiratória.
No mesmo dia, na parte da tarde, o técnico voltou ao leito com duas seringas no bolso e realizou nova aplicação. Às 19h25, retornou novamente com outra seringa e fez mais uma injeção. Às 19h29, aspirou desinfetante, aplicou no paciente, guardou a seringa no bolso e saiu. Às 20h04, Marcos Vinícius, Amanda Rodrigues e Marcela Camilly Alves deixaram o hospital juntos pela mesma catraca, encerrando o plantão. Na madrugada do dia seguinte, às 4h40 do dia 18 de novembro, João Clemente apresentou piora no quadro clínico e morreu.
A terceira vítima foi Marcos Raymundo Fernandes Moreira, de 33 anos, servidor dos Correios, casado e pai de uma menina de cinco anos. Ele deu entrada no hospital no dia 1º de dezembro com suspeita de pancreatite e foi internado no mesmo leito em que um dos pacientes assassinados em novembro havia ficado. Segundo a investigação, Marcos também recebeu medicação irregular aplicada diretamente na veia e morreu no mesmo dia em que chegou à unidade.
A apuração ganhou força depois que o Hospital Anchieta, ao analisar imagens das câmeras instaladas nos leitos da UTI, identificou condutas incompatíveis com a assistência médica. O material foi repassado à Polícia Civil, que confirmou a prática criminosa e pediu as prisões.Para os investigadores, o comportamento dos técnicos não foi acidental, mas doloso, intencional e premeditado, com o objetivo direto de provocar a morte dos pacientes, burlando controles internos e tentando disfarçar os crimes como intercorrências clínicas.
A defesa da técnica de enfermagem Amanda Rodrigues disse que Amanda não participou das mortes e não sabia do envolvimento de Marcos nos crimes. O advogado disse que ela está sendo acusada injustamente pelo crime.
Já a defesa do técnico de enfermagem Marcos Vinicius disse que parte das informações veiculadas pela mídia corresponde a "narrativas especulativas" que antecipam indevidamente juízo de culpa. A defesa também afirmou que todas as medidas jurídicas cabíveis estão sendo adotadas, inclusive no que se refere à apuração de eventuais abusos e divulgações indevidas, as quais serão analisadas e tratadas pelas vias legais adequadas. Por fim, a nota informa que qualquer "tentativa de condenação pública antecipada causa prejuízos irreparáveis à honra, à imagem e ao pleno exercício do direito de defesa".
A reportagem tenta contato com a defesa de Marcela Camilly.







