Brasil

Reforma agrária e fantasma do comunismo: o que deu início à ditadura no Brasil

Golpe militar brasileiro completa agora 60 anos. Pesquisas descobertas por historiador mostram que governo Jango não era impopular, mas sofria oposição de elites contrárias a reformas

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Giovanna Colossi
29/03/2024, 21:29 • Atualizado em 31/03/2024, 12:34
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Reforma agrária e fantasma do comunismo: o que deu início à ditadura no Brasil

Há 60 anos, a Beatlemania tomava conta dos Estados Unidos; o boxeador Cassius Clay se tornava Muhammad Ali após se converter ao islamismo; o Congresso americano autorizava o aumento da presença militar no Vietnã, escalando o conflito iniciado em 1955; as potências faziam progressos na corrida espacial, um das muitas disputas travadas durante a Guerra Fria, que polarizou o mundo por décadas.

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No Brasil, essa polarização levava ao início de um período que durou 21 anos: a ditadura militar. O golpe militar de 1964 completa agora 60 anos. Em 31 de março daquele ano, o então presidente brasileiro João Goulart, mais conhecido como Jango, foi deposto, pondo fim à experiência democrática no Brasil.

Eleito vice-presidente nas eleições de 1960 – último pleito no qual o voto para presidente e vice era separado –, Jango teve um governo curto e conturbado após a renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 1961. Entre as principais bandeiras de Jango estava a implementação das Reformas de Base: agrária, urbana e educacional. Ele também defendia a ampliação dos direitos trabalhistas e a melhoria das condições de vida da população mais pobre.

Ao longo da história, construiu-se a ideia de que o governo Goulart não era popular e, por isso, caiu. Mas, segundo o historiador Luiz Antonio Dias, isso não é verdade.

Em seu livro "Vozes de 1964: imprensa, militares e opinião pública", o professor da PUC-SP revelou pesquisas de opinião feitas pelo Instituto Ibope às vésperas do golpe, mas que não foram divulgadas à época. Nelas, o presidente deposto não só tinha amplo apoio, como era o favorito para vencer as eleições presidenciais de 1965.

"Por mais que se fale que o Goulart não tinha apoio, por isso caiu, as pesquisas mostram o oposto. Em uma pesquisa nacional do dia 9 ao dia 26 de março de 64, há aprovação da Reforma Agrária em várias capitais. Na Guanabara (agora Rio de Janeiro), ex-capital nacional, a aprovação da Reforma Agrária era de 82%. O menor índice coletado nessa pesquisa foi em Curitiba, onde 61% achavam que a reforma era boa", afirma Dias.

"Não tem quem contratou essa pesquisa nacional, então não tem como sabermos por que não foi divulgada. Mas, a minha ideia é que ela não foi divulgada porque isso enfraqueceria o movimento que possibilitou o golpe de 64".

Outra pesquisa descoberta pelo historiador foi encomendada pela Federação do Comércio de São Paulo (Fecomercio)e feita após o comício no Rio de Janeiro em que Jango apresentou suas reformas, em 13 de março. O levantamento mostra que, entre os mais pobres, 75% eram favoráveis às medidas anunciadas pelo presidente, enquanto entre os mais ricos, o apoio era de 50%.

"A mesma pesquisa tem outra pergunta. Se as pessoas acharam que eram medidas demagógicas, se eram medidas que levariam o país ao comunismo ou se eram medidas positivas. Só 16% achavam que essas medidas levariam o país ao comunismo e 55% achavam que eram medidas positivas para o país", revela Dias.

Mas, se tinha apoio popular, por que, então, Jango caiu?

Guerra Fria, Revolução Cubana e a "ameaça" comunista

Na época do golpe militar, o mundo estava dividido entre duas potências; os Estados Unidos, liderando o bloco capitalista, e a União Soviética, à frente do bloco comunista. Sem um confronto militar direto, os dois blocos mediam forças e influência no que ficou conhecido como Guerra Fria.

A Revolução Cubana, que aconteceu em 1959, instaurou um governo socialista na ilha a 144 quilômetros da costa norte-americana. Isso aumentou o temor de Washington em relação à disseminação do comunismo na América Latina, tida como aliada desde a Segunda Guerra Mundial.

Essa preocupação se refletiu no Brasil e contribuiu para a percepção de que líderes como Jango, que defendiam reformas sociais e econômicas, poderiam seguir o exemplo cubano. É o que explica o historiador Raphael Amaral, professor do Anglo Vestibulares.

"Naquele contexto, adotar uma postura autônoma, nacionalista, perante o interesse dos Estados Unidos significava ser acusado de fortalecer o comunismo", disse. "Foi exatamente o que houve com o governo João Goulart".

"O temor acabou gerando uma intensa e aguda oposição a Jango por parte da elite, dos setores mais conservadores da sociedade e de parte significativa da classe média. Chegou a um ponto em que pouco importava se ele era ou não um comunista. Foi colocada sobre ele essa pecha, e qualquer ação que ele adotava era julgada por esse olhar. Isso acaba fortalecendo bastante a instabilidade da época."
Colagem de capas de jornais da época
Colagem de capas de jornais da época

Papel da elite e da imprensa no golpe

Entre os principais opositores de Jango estavam as elites políticas e econômica, a classe média, setores mais conservadores da sociedade, e a mídia brasileira, que, em dado momento, apoiou abertamente uma intervenção militar no país, segundo o historiador Luiz Antonio Dias.

"Desde o início, o governo Goulart sempre sofreu duros ataques. A imprensa de forma geral, toda a grande imprensa, com exceção do jornal Última Hora, trabalhou para desestabilizar o governo Goulart", diz

"A imprensa tem um papel importante, porque ela constrói essa ideia e fortalece esse pensamento em quem pensa dessa forma. A Folha, por exemplo, a partir de janeiro de 64, radicaliza e pede a intervenção dos militares constantemente. Isso hoje é usado para atestar a legalidade da 'revolução'", esclarece o professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Jango em histórico discurso na Central do Brasil | Acervo Lemad/USP
Jango em histórico discurso na Central do Brasil | Acervo Lemad/USP

Jango era retratado como um presidente incompetente, populista e com tendências autoritárias. Os índices econômicos do Brasil, que atravessava uma crise, também eram usados para reforçar essa imagem.

"Do ponto de vista econômico, muito se fala que o governo João Goulart foi ruim. O PIB de 1963, o último ano em que ele governa, fica abaixo de 1%. É baixo, mas é um PIB que vinha em queda desde o final do governo Juscelino, e a inflação já vinha em alta", explica Dias.

"É um governo que tem um desempenho econômico abaixo do que teve Juscelino Kubitschek, que é o anterior, mas não está muito abaixo do que se vê no governo do Castelo Branco (que o sucede)", completa.

Raphael Amaral destaca ainda que as medidas que Jango tentava adotar eram sabotadas de várias formas pela elite contrária a seu governo.

"Havia muita gente bem pouco disposta a contribuir ou colaborar para o governo João Goulart. Naquele contexto de disputa, o governo dele ser instável, não funcionar, era interessante politicamente para alguns setores. Isso fortalecia a narrativa de que ele era comunista e incapaz para o cargo".

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