Brasil

Provas de delator do PCC podem ser "fragilizadas" após execução, diz desembargadora que estuda a facção

Para Ivana David, facção foi responsável pela morte de Antônio Vinicius Gritzbach: "não consigo vislumbrar outra motivação"; Força-tarefa investiga o caso

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Gabriel Sponton, Derick Toda
12/11/2024, 00:46 • Atualizado em 12/11/2024, 01:14
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Corpo de Antônio Vinicius Gritzbach | Reprodução/Redes sociais/SBT Brasil

Corpo de Antônio Vinicius Gritzbach | Reprodução/Redes sociais/SBT Brasil

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A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo criou, nesta segunda-feira (11), uma força-tarefa para investigar a morte de Antônio Vinicius Lopes Gritzbach, delator do Primeiro Comando da Capital (PCC), e de um motorista de aplicativo, na última sexta-feira (8), no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.

O empresário, envolvido na lavagem de dinheiro de traficantes de drogas da facção criminosa, foi alvejado com ao menos 10 tiros de fuzil, em plena luz do dia. Ele desembarcou junto da namorada após uma viagem ao Nordeste e estava acompanhado de segurança pessoal. A polícia ainda investiga a motivação do assassinato de Gritzbach, se foi o PCC ou uma possível "queima de arquivo".

Para Ivana David, desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) e uma das primeiras pessoas a investigar o Primeiro Comando da Capital no Brasil, está claro que a facção criminosa foi a responsável pela morte do delator:

"Em 34 anos de carreira, conheço o PCC desde que nasceu, não consigo vislumbrar outra forma, outra motivação", conta Ivana.

Segundo a desembargadora, as circunstâncias da morte do empresário — fuzilamento, durante o dia, no maior aeroporto do Brasil — são uma clara mensagem de que, "quando alguém trai a facção, morre. É uma forma de impor respeito, impor o terror". Ivana explica que Gritzbach já era jurado de morte desde quando desviou dinheiro da facção, em 2021, descumprindo um dos mandamentos da própria organização criminosa.

"A forma que o PCC mata e diante dessas características, é para ficar bem colocado que o indivíduo sumiu com o dinheiro da facção, delatou indivíduos dessa facção e, não feliz, matou integrantes dessa facção. Ou pelo menos é acusado de tudo isso. [...] Eu já vi ex-integrante da facção criminosa, inimigo, faccionado adversário morrer ou porque desviou dinheiro, ou porque delatou alguém. Agora ele (Gritzbach) conseguiu os três: ele desviou dinheiro, delatou alguém e foi mandante de assassinato de dois integrantes importantes da facção criminosa", disse a desembargadora, afirmando que ele descumpriu três estatutos do PCC e, por isso, foi executado.

Delação premiada

Ivana não acredita em uma "queima de arquivo" em relação ao assassinato de Antônio Vinicius Lopes Gritzbach, pois "tudo o que ele falou já está lá dentro da delação, gravado e filmado; não tem o que queimar". Contudo, a desembargadora ainda afirma que as provas do delator do PCC podem ser "fragilizadas" após a execução.

"A validade dessa prova, tudo isso vai ser discutido, porque ele não tá mais lá para ser interrogado. Ele não existe mais, por exemplo, para fazer um reconhecimento pessoal. Mas tudo o que ele disse está lá registrado frente à autoridade que é o Ministério Público, dentro da lei e homologado pela Justiça", explica.

A desembargadora ainda afirma que não há dúvidas de que as defesas de pessoas que foram indiciadas junto de Gritzbach utilizarão sua morte como argumento para poder "enfraquecer" a delação.

"Eventualmente alguma acusação dentro da delação, em que ele aponta um indivíduo que ainda não está sendo processado, a defesa desse apontado obviamente vai levantar essas questões, tipo: 'ele não está aqui para confirmar, ele não está aqui para fazer o reconhecimento'", explica Ivana. "Isso faz parte da estrutura de acusação e defesa de todos os processos, o que você vai discutir é a validade da prova agora".

Proteção ao empresário

Segundo o Ministério Público de São Paulo (MPSP), o empresário Antônio Vinicius Lopes Gritzbach recusou entrar no Programa Estadual de Proteção a Vítimas e Testemunhas. Ivana relata que a recusa do delator aconteceu por ele não aceitar os requisitos da proteção.

"O estado dá uma proteção, mas você como interessado e protegido também tem que ter regras. Quem tá ameaçado de morte não vai passear na Avenida Paulista ao meio-dia, você tem alguns requisitos. E ele queria continuar levando a vida dele, até porque vai viajar, volta com uma mala com mais de R$ 1 milhão. Ele queria continuar os negócios dele. Não aceitou a proteção do estado porque ela é restrita e ela restringe mesmo.", conta a desembargadora. "Então, ele literalmente abriu mão dessa segurança e preferiu contratar segurança privada".

Dinheiro desviado do PCC

Em dezembro de 2021, o traficante Anselmo Santa Fausta, conhecido como "Cara Preta", e seu motorista Antônio Corona Neto, vulgo "Sem Sangue", foram assassinados em uma emboscada no Tatuapé, na zona leste de São Paulo. O crime teria acontecido a mando de Gritzbach, após ter sofrido ameaças do PCC.

Anselmo teria entregue R$ 40 milhões ao empresário para que fossem investidos em criptomoedas, num esquema de lavagem de dinheiro da facção. Segundo as investigações, a quantia teria sido desviado pelo delator. Contudo, quase 3 anos após o crime, o dinheiro ainda não foi localizado.

"O único trunfo que ele tinha no tocante a facção era a chave dos criptoativos, que você tem chaves, né? Que são números gigantes que ninguém lembra de cabeça, e quem tem essa chave é o único que movimenta aqueles valores. Talvez ele tenha entendido que, por ter a chave, ninguém o mataria", explica Ivana David.

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