“Na escola a gente aprende a viver em sociedade”, diz especialista sobre falhas no acesso à educação infantil
Para Cláudia Costin, ainda há falta de investimento em políticas públicas; em parte do país, uma em cada dez crianças não está matriculada

Naiara Ribeiro
O Brasil ainda não conseguiu universalizar a educação infantil, meta definida há pouco mais de dez anos. Mesmo com a matrícula obrigatória a partir dos 4 anos, parte das crianças nessa faixa etária segue fora da escola. Em 16% dos municípios (876 cidades) pelo menos uma em cada dez crianças de 4 e 5 anos não está em creches ou pré-escolas, segundo um novo indicador divulgado nesta semana pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), em parceria com as fundações Bracell, Itaú, VélezReyes+, Van Leer e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Ao SBT News, a presidente do Instituto Salto, especialista em políticas educacionais e ex-diretora de Educação do Banco Mundial, Cláudia Costin, explica que o problema passa tanto pelo poder público quanto pelas famílias. Falta vaga em algumas cidades, mas também há pais que ainda não percebem a importância dessa etapa no desenvolvimento das crianças.
Hoje, cerca de 94,6% das crianças nessa faixa etária estão na escola. Ainda assim, a porcentagem que falta, faz diferença. É na educação infantil que começa não só o contato com letras e números, mas principalmente a convivência com o outro. “É na escola e na pré-escola que a gente aprende a viver numa sociedade mais ampla. Aprender a dividir, a esperar a vez, a lidar com o outro. Parece simples, mas é ali que isso começa”, explica.
Segundo Costin, esse aprendizado vai muito além das atividades formais. O brincar e os momentos livres também são parte do processo de desenvolvimento, especialmente em um contexto em que muitas famílias têm menos filhos e, portanto, menos oportunidades de convivência no dia a dia.
Apesar da obrigatoriedade começar aos 4 anos, as creches, que atendem crianças de 0 a 3 anos, não são obrigatórias. Ainda assim, são um direito e devem ser oferecidas pelo Estado, podendo inclusive ser exigidas na Justiça.
Na prática, alguns obstáculos ainda dificultam o acesso. Cláudia Costin diz que o investimento em políticas públicas relacionadas à educação nessa idade pode ajudar a resolver problemas, como por exemplo o de estrutura. Faltam espaços adequados para crianças pequenas, com áreas ao ar livre, brinquedos e materiais compatíveis com a idade.
Outro desafio é a formação e a valorização dos professores. Em algumas cidades, faltam profissionais, e tornar a carreira mais atrativa ainda é um ponto sensível. Durante muito tempo, essa etapa foi tratada como mais simples, mas a profissão exige planejamento do dia a dia e preparo específico para lidar com as crianças pequenas.
Além disso, há questões do dia a dia que pesam na decisão das famílias. O transporte escolar, por exemplo, ainda é um problema em muitos lugares. Sem uma alternativa segura, muitos pais ficam inseguros em mandar crianças pequenas para a escola.









