Do 'foco em si' ao rancor: as diferentes faces da red pill
Movimento misógino nascido de fóruns da internet abriga diferentes subculturas, com visões variadas sobre solidão, relacionamentos e masculinidade
Entre homens que defendem "focar em si mesmos", os que pregam o afastamento total das mulheres e os que transformam frustrações afetivas em ressentimento, o movimento red pill está longe de ser homogêneo. Ligado diretamente à misoginia, ele abriga diferentes subculturas, com visões variadas sobre solidão, relacionamentos e masculinidade.
A pluralidade desses discursos ficou evidente nos mais de mil comentários deixados em uma reportagem do SBT News no YouTube sobre homens que vão na contramão do movimento red pill e defendem uma masculinidade saudável — a maior parte deles em tom crítico. Alguns comentários, inclusive, precisaram ser removidos por ataques e ofensas direcionados à repórter.
"Redpillado e livre do sistema, muito melhor que vocês!", bradou um usuário. "Mídia distorcendo a realidade e moldando a cultura contra os homens… Nada de novo", escreveu outro. "Muitos redpills sequer se envolvem com mulheres. Agora virou crime ser solteiro, focar na vida profissional e espiritual, cuidar da saúde e do shape. Virou crime ser solteiro?", questionou um terceiro.
Ao analisar os comentários, a reportagem observou diversas mensagens que reforçam estereótipos associados à masculinidade tóxica. Um internauta, por exemplo, insinuou que o escritor e palestrante Fabio Manzoli seria "desequilibrado emocionalmente" por ter se emocionado durante a entrevista.
Outro escreveu que sentia de longe "o cheiro de soja", expressão pejorativa usada para desqualificar homens vistos como "fracos" ou distantes dos padrões tradicionais de masculinidade — baseada no mito de que o consumo de soja reduziria os níveis de testosterona. Já um terceiro usuário foi mais incisivo: "Respeite meu direito de ser macho."
Esse, no entanto, não foi o único aspecto observado pela reportagem. A análise dos comentários revela a presença de dois discursos predominantes. O primeiro se apresenta sob a roupagem de um suposto "autodesenvolvimento", sustentado pela ideia de que a red pill não promoveria a misoginia, mas incentivaria homens a focar em si mesmos e ficar longe das mulheres.
"Senhores, sigam o protocolo deixe-as em paz", escreveu um usuário. "E quem disse que queremos relacionamento???? Protocolo: deixe elas em paz", reforçou outro. Um terceiro foi enfático: "Eu quero mulher SIM! … Longe de mim e do meu patrimônio! Quando eu preciso do serviço, vou lá e pago e AMBOS saem felizes. NADA mais que isso, quero DISTÂNCIA."
O segundo discurso identificado é o do "antissistema", ou "anti-establishment". Parte da percepção de que homens estariam sendo perseguidos ou silenciados por instituições como o governo, a mídia, o feminismo e a chamada "cultura woke", vistos por esses grupos como ameaças aos valores tradicionais de masculinidade. A palavra "sistema" foi mencionada ao menos 29 vezes nos comentários.
"Se as bactérias (sistema) estão reagindo, é porque o remédio está fazendo muito efeito", escreveu um. "Eles querem um homem escravo, submisso, servo do sistema... Não querem ver o homem liberto, com autoridade, livre de amarras e que não caia mais nos golpes das mulheres”, acrescentou outro. "O sistema está preocupado. Sabe que sem os homens para bancar as mulheres, a sociedade vai à bancarrota", apontou um terceiro.
A red pill e suas subculturas
Segundo a mestra em Ciências Sociais Giovanna Mancini, a red pill surgiu em fóruns dos Estados Unidos a partir da popularização da internet, nos anos 1990. Inicialmente, esses espaços virtuais ajudaram a consolidar comunidades masculinas que compartilhavam discursos sobre relacionamentos, frustrações afetivas e críticas ao feminismo.
O nome "red pill" vem da metáfora da "pílula vermelha", inspirada no filme Matrix. Dentro da lógica red pill, "tomar a pílula vermelha" significaria despertar para um suposto mundo "ginocêntrico", em que o Estado e a sociedade seriam voltados aos interesses das mulheres, fazendo dos homens vítimas desse sistema.
A red pill também se baseia no conceito de "hipergamia". A tese, popularizada por correntes da psicologia evolucionista, sustenta que mulheres tenderiam, por razões evolutivas, a buscar parceiros considerados mais fortes, ricos ou capazes de oferecer segurança e estabilidade — concluindo, portanto, que elas seriam naturalmente interesseiras.
Mas, ao contrário do que se pode imaginar, os red pills não são todos iguais. Ao longo da pesquisa para sua tese de mestrado Solidão é uma pílula difícil de engolir: sexualidade e discursos emocionais entre masculinidade e red pill, Giovanna identificou ao menos três grupos identitários predominantes dentro da comunidade.
Um deles são os chamados "pick-up artists", conhecidos como coaches de sedução, que vendem cursos, mentorias e livros — alguns custando até R$ 2 mil — com a promessa de ensinar homens a conquistar mulheres. Nesse grupo, a ideia do autocuidado masculino surge como uma forma de evitar a solidão.
"A solidão é apresentada como algo que o homem deve aprender a cultivar, esteja ou não em um relacionamento. Ao investir em si mesmo — na academia, nos negócios ou no 'desenvolvimento pessoal' — ele passaria a se ver como mais interessante e deixaria de associar a solidão a rejeições ou traições", afirma Giovanna. "Mesmo solteiro, sustenta a ideia de que está sozinho por escolha, e não por falta de interesse dos outros."

Outro grupo presente dentro da red pill são os MGTOWs, sigla para "Men going their own way" ("Homens seguindo seu próprio caminho"). Diferentemente dos coaches de sedução, os MGTOWs enxergam a solidão como uma forma de emancipação masculina e defendem o afastamento das mulheres em diferentes níveis.
Um estudo publicado pela pesquisadora irlandesa Angela Nagle mostrou que esse desengajamento em relação às mulheres pode ir desde evitar relacionamentos românticos e sexuais até não interagir ou consumir conteúdos produzidos por elas. Os MGTOWs costumam adotar a imagem do "lobo solitário" como símbolo de independência.
"Nesse universo, há uma valorização da chamada 'masculinidade sigma', conceito associado à figura do homem que rejeita vínculos e não aceita interferências externas sobre a própria vida. Diferentemente das categorias 'alfa' e 'beta', usadas nesses espaços para classificar homens dominantes ou provedores, os MGTOWs se apresentam como indivíduos 'fora da matilha'", diz Giovanna.
O discurso também incorpora elementos próximos ao anarcocapitalismo, especialmente a crítica ao Estado, visto por eles como "ginocêntrico", ou seja, supostamente voltado aos interesses das mulheres. Nesse contexto, a solidão é apresentada como uma escolha deliberada e uma forma de resistência quase que política.

Por fim, os incels — abreviação de "involuntary celibates" ("celibatários involuntários") — são homens que acreditam estar condenados à solidão e à rejeição afetiva e sexual. O termo surgiu nos EUA em um blog criado por uma jovem para discutir dificuldades em relacionamentos, sem relação inicial com a misoginia, mas com o tempo foi apropriado por comunidades masculinas online.
Nesses grupos, homens que não conseguem se relacionar sexual ou afetivamente passam a atribuir a rejeição ao "lookismo", crença de que seriam discriminados pela aparência. Muitos aderem então à "black pill", ideia de que homens considerados "feios" estariam condenados ao fracasso amoroso, independentemente de esforço ou desenvolvimento pessoal.
"Esse sentimento de rejeição muitas vezes se transforma em ódio. O grupo ganhou notoriedade principalmente após casos de violência e massacres, como os de Suzano e Aracruz", afirma Giovanna, apontando também casos recentes como o de Alana Rosa (jovem que sobreviveu após levar mais de 30 facadas ao rejeitar um pedido de namoro).
"Em versões consideradas mais 'brandas' desse discurso, alguns incels tentam lidar com a frustração recorrendo à prostituição. Ao mesmo tempo, porém, demonstram ressentimento em relação às mulheres que oferecem esse serviço, por se perceberem dependentes delas", acrescenta.

O que os une
Segundo a socióloga e cientista política Bruna Camilo, doutora e pesquisadora em gênero e misoginia, todos os grupos masculinistas, sejam eles os pick-up artists, os MGTOWs ou os incels, podem ser entendidos como um "grande guarda-chuva da misoginia". Isso porque todos giram em torno da ideia de que o avanço dos direitos das mulheres teria reduzido o espaço e o poder dos homens na sociedade.
Para Bruna, além da misoginia, a narrativa "antissistema" também é outro elemento central do discurso red pill. Da mesma forma como a extrema direita, que incorpora uma retórica marcada pelo discurso "outsider", os red pills também se apresentam como uma força de resistência a um suposto sistema dominado pelas mulheres.
"O masculinismo incorpora essa ideia de enfrentamento ao que entendem como o sistema atual. Nesse contexto, o movimento red pill ganha força porque trabalha numa lógica muito específica, próxima da figura do coach, que aconselha e acolhe. Ele acolhe o ressentimento desses homens, justifica esse sentimento e oferece uma explicação para ele", diz.
Giovanna aponta ainda que os homens seduzidos pelo discurso red pill geralmente são aqueles que trabalham na informalidade, enfrentam condições precárias de trabalho e vivem em um cenário de incerteza econômica. O fenômeno foi igualmente apontado pelo sociólogo Sandro Justo, que falou ao SBT News para a primeira reportagem publicada sobre o tema.
Muitos desses homens passam a idealizar figuras associadas ao sucesso e ao poder masculino, como os atores Brad Pitt e Leonardo DiCaprio ou o personagem Don Corleone, associados à figura do homem rico, bem-sucedido, do self-made man. Apesar disso, existe um abismo entre esse ideal e a realidade vivida por muitos brasileiros.
Para a pesquisadora, esses homens sofrem por não conseguirem corresponder ao ideal de masculinidade que acreditam precisar atingir, mas principalmente por serem emocionais. Para eles, a emoção estaria associada ao feminino; o homem deveria ser racional. Assim, a solidão e o distanciamento emocional passam a ser vistos como uma forma de empoderamento e proteção.
"Eles sofrem por não conseguirem ser os homens que acreditam ter que ser. Sofrem por serem emocionais. Acreditam que, ao se distanciarem da emoção, estariam se empoderando. Porque [na cabeça deles], a emoção é uma característica da mulher. O homem tem que ser racional, senão, a ‘golpista’ vai lá e vai passar a perna nele", afirma.
"É um discurso marcado pela confissão e pelo sofrimento, mas que frequentemente se mistura à violência. A partir da crença de que seriam vítimas de uma sociedade que supostamente favorece as mulheres, esses homens passam a acreditar que estão em desvantagem e, em alguns casos, acabam justificando a própria violência", acrescenta.















