Dia dos Namorados: O que mantém uma relação além da paixão?
Psicóloga fala sobre os limites da paixão, os riscos da dependência emocional e os caminhos para a construção de vínculos maduros


Dia dos Namorados: O que sustenta a relação além da paixão? | Pxhere
"Eu sei que vou te amar por toda a minha vida."
Poucas frases traduzem tão bem o estado de apaixonamento. Quando duas pessoas se encontram, é comum surgir a sensação de que finalmente encontraram alguém capaz de preencher ausências, aliviar solidões e dar sentido à própria existência.
Nesse momento, o outro deixa de ser apenas uma pessoa e passa a ocupar um lugar muito maior: o de alguém que parece reunir todas as qualidades desejadas e todas as respostas para nossas necessidades emocionais.
É justamente aí que mora uma das maiores armadilhas dos relacionamentos.
Segundo Jacques Lacan, o apaixonamento envolve uma intensa idealização. Enxergamos o outro não exatamente como ele é, mas como gostaríamos que fosse. Projetamos desejos, expectativas e fantasias. Por isso, muitas vezes a paixão produz a sensação de completude, como se a felicidade dependesse exclusivamente daquela relação.
Quando o amor se transforma em dependência
A busca por afeto, acolhimento e pertencimento faz parte da experiência humana. O problema surge quando a relação passa a exigir que o outro ocupe todos os espaços emocionais da nossa vida.
Nesses casos, aparecem comportamentos marcados por ciúme excessivo, controle, possessividade e medo constante de abandono. Aos poucos, a relação deixa de ser um encontro entre duas pessoas e se transforma em uma tentativa permanente de garantir segurança emocional.
Na prática clínica, é comum observar vínculos em que um dos parceiros passa a abrir mão dos próprios desejos, amizades e projetos para atender às expectativas do outro. O resultado costuma ser sofrimento para ambos.
O amor não elimina a individualidade. Relações saudáveis exigem proximidade, mas também espaço para que cada pessoa preserve sua própria identidade.
Quando a realidade rompe a fantasia
Muitas histórias de sofrimento amoroso começam quando a realidade entra em conflito com a idealização.
Foi o caso de Rafael, executivo de 65 anos que procurou ajuda durante um quadro depressivo. Casado havia décadas, envolveu-se em uma nova relação que lhe devolveu sensações de entusiasmo e potência emocional.
Por algum tempo, acreditou ser possível manter todos os desejos simultaneamente: o casamento, a paixão e a admiração de ambas as mulheres. Mas a fantasia não resistiu à realidade. A nova parceira desejava autonomia; ele desejava controle. Quando a relação terminou, veio o sofrimento.
Embora dolorosos, rompimentos muitas vezes funcionam como convites para o autoconhecimento. Eles revelam expectativas, fragilidades e idealizações que permaneciam ocultas.
Existe um amor possível?
Donald Winnicott defendia que nossa capacidade de construir vínculos está relacionada às experiências afetivas vividas desde os primeiros anos de vida. Quando existe segurança emocional suficiente, torna-se mais fácil estabelecer relações menos dependentes e mais realistas.
Isso não significa abrir mão da paixão. Significa compreender que ela é apenas uma etapa da relação.
O amor amadurece quando conseguimos enxergar o outro para além das idealizações. Quando reconhecemos virtudes e limitações, acolhemos diferenças e entendemos que nenhuma pessoa será capaz de suprir todas as nossas necessidades emocionais.
Talvez o amor possível seja justamente aquele que sobrevive ao fim das fantasias. Um vínculo construído sobre diálogo, respeito, afeto e liberdade. Um encontro entre duas pessoas inteiras, e não entre duas metades em busca de completude.
Como escreveu Vinicius de Moraes, talvez o amor não precise ser eterno. Mas pode ser profundamente verdadeiro enquanto existir.
** Dorli Kamkhagi é psicóloga e head nacional da Brazil Health















