Casos sem corpo prolongam dor de famílias e expõem drama dos desaparecimentos no Brasil
Mesmo com alta taxa de localização de desaparecidos, há casos que evoluem para assassinato e deixam familiares sem respostas
Simone Queiroz
A condenação do ex-goleiro Bruno Fernandes, em 2013, a mais de 20 anos de prisão pela morte de Eliza Samudio, tornou-se um dos símbolos do drama dos desaparecimentos que terminam em homicídio no Brasil.
Apesar de dois terços das pessoas registradas como desaparecidas no ano passado terem sido localizadas, há casos que saem das estatísticas sem trazer alívio às famílias: situações em que a investigação confirma a morte, mas o corpo nunca é encontrado.
Para investigadores que atuam nesses casos, o impacto é profundo. A diretora do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de São Paulo, Ivalda Aleixo, relata a dificuldade em lidar com familiares que pedem, ao menos, a possibilidade de enterrar seus filhos.
“Às vezes, ainda que seja uma parte do corpo, a família quer poder se despedir. Isso é muito difícil”, afirmou.
O caso de Tainá Russo
Um dos casos recentes é o de Tainá Russo, morta quando estava grávida de dois meses.
Segundo a investigação, o então namorado, Matheus Henrique Alecrim, não aceitava a gestação. O Ministério Público apontou que ele tentou provocar o aborto antes do crime.
Para o júri popular, foi ele quem cometeu feminicídio, ocultação de cadáver e tentativa de aborto. O réu foi condenado a 17 anos e 4 meses de prisão.
A mãe da jovem, Elaine Deangelo, afirma que a ausência do corpo torna o luto ainda mais doloroso.
“Ele não tirou só a vida da minha filha. Tirou o direito de velar minha filha”, disse.
O impacto psicológico do desaparecimento sem desfecho
Especialistas explicam que a falta de um corpo dificulta o processo de elaboração do luto. Mesmo com a condenação judicial, familiares relatam sensação de ausência permanente de respostas.
“Eu tenho certeza de que ela está morta, mas às vezes eu acho que ela vai chegar em casa”, desabafa a mãe de Tainá.
Casos como o de Tainá e o de Eliza Samudio mostram que, mesmo quando a Justiça responsabiliza os culpados, a dor de quem fica pode permanecer aberta por anos.









