Vereador de SP usa batom e peruca para criticar projeto contra misoginia
Para Adrilles Jorge, lei limita a liberdade de expressão e não se justifica na atual conjuntura porque 'a grande maioria dos homens brasileiros são pacíficos'
Sofia Pilagallo
O vereador Adrilles Jorge (União Brasil) passou batom e colocou uma peruca no plenário da Câmara Municipal de São Paulo para criticar o projeto que inclui misoginia entre os crimes de preconceito e discriminação previsto na Lei contra o Racismo. A proposta foi aprovada na terça-feira (24) no Senado e agora segue para votação na Câmara dos Deputados.
No púlpito, Jorge se dirigiu à colega Silvia Ferraro (PSOL), da Bancada Feminista. Ele começou seu discurso atribuindo a culpa do aumento de feminicídios a "políticas progressistas", fazendo menção a benefícios penais como a progressão de pena e as chamadas "saidinhas", ou "saídas temporárias".
Na sequência, Jorge entrou no assunto da Lei da Misoginia. Para ele, a nova legislação "impede qualquer debate, crítica ou contestação" direcionada a uma mulher e não se justifica na atual conjuntura, uma vez que, segundo o vereador, "a grande maioria dos homens brasileiros são pacíficos".
Após essa fala inicial, Jorge afirmou que o projeto tem um "jabuti" (termo do jargão político, que significa ponto inserido na lei sem necessariamente ter relação com o tema principal do texto), já que o texto é "impreciso". Então, enquanto coloca uma peruca e passa batom, sugere que, a partir dessa brecha, pode se "colocar como mulher" para não ser enquadrado na legislação.
"Como o texto da lei é impreciso, a qualquer momento eu posso me colocar como uma mulher e debater de igual para igual, sem que eu seja criminalizado pelo fato de ser homem", disse. "Posso contestar a sua ideologia, posso fazer uma brincadeira com a senhora, posso me julgar mulher porque a lei não define o que é uma mulher."
O texto aprovado no Senado não entra no mérito do que é considerado mulher, embora cite a expressão "condição de mulher" entre os critérios de interpretação da Lei do Racismo. O projeto também não impede o debate entre homens e mulheres, mas estabelece como crime condutas como praticar, induzir ou incitar discriminação contra mulheres, com pena de prisão de 2 a 5 anos e multa.
No púlpito da Câmara, a vereadora Silvia Ferraro (PSOL), da Bancada Feminista, criticou o discurso de Jorge. Para ela, "em meio a uma epidemia de feminicídios, é vergonhoso que um vereador esteja preocupado em defender homens misóginos e combater uma lei que visa proteger mulheres". Depois, nas redes sociais, classificou o episódio como um "show de horrores" e afirmou: "Não vamos retroceder".









