Vorcaro ordenou espionagem sobre BC e falou em ‘xeque-mate’
Ex-banqueiro acionou auxiliar de apelido Sicário, que falou inclusive em monitoramento via dados de pedidos do iFood de diretor do banco estatal

Diálogos até agora inéditos do telefone celular de Daniel Vorcaro mostram que o então banqueiro falava em dar um “xeque mate” na época que negociava a venda do Master para o BRB (Banco de Brasília) e que chegou não só a patrocinar uma campanha de difamação digital contra um dos diretores do Banco Central, mas encomendou uma espionagem ao auxiliar de apelido “Sicário”.
Além de tentar intimidar jornalistas e influenciar a classe política, Vorcaro mantinha uma agenda frequente em Brasília e, pelo menos desde 2024, tentava convencer principalmente o BC de que a operação do Master era sustentável.
🤳 Notícias em primeira mão: baixe nosso aplicativo gratuito e leve o jornalismo do SBT News com você, onde estiver! Clique aqui
No dia 5 de dezembro de 2024, o ex-banqueiro relatou ao seu advogado Ciro Soares passar por um “momento complicado” e que estava havia dois dias em reuniões no Banco Central.
Na mesma conversa, Vorcaro ainda avisou que contava com o advogado para um “dar xeque-mate nessa turma”. “Com vocês do lado”, completou.
Nos diálogos obtidos pelo SBT News, Ciro Soares reitera a amizade entre os dois e diz que seu cliente, chamado diversas vezes de “irmão”, é “um cara da porra” e promete que o banqueiro vai conseguir resolver os problemas. “Lhe garanto que ninguém vai mexer com vc.”
📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! Clique aqui e siga o canal do SBT News.
Oito meses depois, em 7 de agosto de 2025, com o Master enfrentando ainda mais dificuldades com a autoridade monetária, Vorcaro encomenda uma espécie de dossiê do então diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC, Renato Dias de Brito Gomes, cuja área era responsável pela análise da operação Master-BRB.
Em conversa com Luiz Phillipi Mourão, apelidado de Sicário, Vorcaro envia o nome do diretor do BC e ordena: “Preciso levantar tudo”. E o auxiliar responde: "Agora!!"

Cerca de uma hora depois, ele envia um arquivo ao chefe com o nome de Renato e escreve: “Nenhum processo criminal contra ele, nada”. “Muito limpo”.
Vorcaro insiste, pede o endereço e dados atualizados do diretor e Sicário, após nova pesquisa, confirma que Renato Gomes mora no Rio. “Se quiser que faça uma visita no rio. Só falar”, escreve o funcionário do ex-banqueiro.
No dia seguinte, Sicário diz que o diretor “não tem antecedentes” e que mandou “puxar passaporte”. Ele pergunta se Vorcaro “quer registro de entrada e saída do país?”. Na sequência, envia dez mensagens com arquivos. No material obtido pelo SBT News não é possível visualizar os documentos.
Sicário disse ainda a Vorcaro que tentaria obter no iFood o histórico de pedidos de Renato Gomes para identificar os endereços usados pelo diretor do BC em Brasília e no Rio. O auxiliar de Vorcaro afirmou em determinado momento estar “esperando iFood informar os endereços que ele utiliza”, mas as mensagens não indicam como isso seria, se a informação foi de fato obtida e por qual meio.
Sicário é apontado pela PF como operador central da estrutura usada por Vorcaro para monitorar, intimidar e obter informações sobre adversários e jornalistas.

Segundo a investigação, ele coordenava equipes de vigilância e ataques digitais, acessava bases restritas de órgãos públicos com credenciais de terceiros e atuava na retirada de conteúdos da internet. Ele foi preso em março e morreu dias depois após tentar tirar a própria vida na carceragem da PF em Belo Horizonte.
A investigação da Polícia Federal já havia mostrado indícios de que Vorcaro moveu uma campanha coordenada de ataques ao Banco Central e a Renato Gomes. O chamado “Projeto DV” envolveu agência de comunicação, influenciadores e páginas contratadas para defender o Master e atacar o BC, com Renato virando alvo direto de publicações que questionavam sua atuação.
Em nota, Ciro Soares disse que a troca de mensagens apenas torna claro seu firme compromisso de defender em todas as instâncias necessárias os interesses do seu então cliente.
“Ciro Soares não é mais advogado de Vorcaro. Mas, por razão de sigilo profissional, o advogado não comenta conteúdo e muito menos estratégias processuais de clientes e ex-clientes.”
A defesa de Vorcaro, o BC e Renato Gomes não se manifestaram.


























