Resenha: 'Tales of Berseria Remastered' mantém qualidades e defeitos de sua versão original
Remaster da Bandai Namco aposta em melhorias pontuais e legendas em português, porém combate e progressão seguem como pontos frágeis

Vinícius Gobira
Quando Tales of Berseria foi lançado em 2016, ele surgiu como um dos capítulos mais sombrios da tradicional franquia da Bandai Namco. Em vez de heróis idealizados e jornadas puramente nobres, o jogo colocou o jogador no controle de Velvet, movida por vingança e marcada por perdas profundas. A proposta era clara: contar uma história mais crua dentro do universo da série.
Na época, a recepção foi dividida. Muitos elogiaram o enredo e o tom mais adulto. Outros apontaram problemas no combate e no sistema de progressão. Agora, quase dez anos depois, Tales of Berseria Remastered chega prometendo ajustes visuais, melhorias de qualidade de vida e um pacote mais alinhado aos padrões atuais. A questão é simples: isso é suficiente?
Se há algo que permanece forte no remaster, é a narrativa. O mundo de Berseria gira em torno de uma praga demoníaca capaz de transformar humanos em criaturas violentas. Para conter o caos, surgem os exorcistas, que utilizam os Malaks, entidades capazes de manipular artes mágicas, na luta contra os demônios.
Velvet continua sendo o coração da experiência. Sua jornada de vingança foge do arquétipo clássico do herói altruísta. Ela é impulsiva, amarga e, muitas vezes, cruel. E é justamente isso que torna sua trajetória interessante.
O ritmo narrativo também merece reconhecimento. O jogo evita enrolações excessivas e entrega acontecimentos relevantes com frequência. As cenas em estilo anime, usadas em momentos chave, ainda impressionam pela direção de arte, embora não apresentem evolução perceptível nesta nova versão.
Por outro lado, nem todo o elenco acompanha o peso da protagonista. Em comparação com outros títulos da série, parte dos personagens soa genérica e com diálogos previsíveis.

Combate: o ponto que mais divide opiniões
A franquia Tales of Berseria sempre teve no combate um de seus grandes diferenciais. Aqui, porém, mora a maior frustração.
O sistema gira em torno do chamado “Medidor de Almas”. Cada alma permite executar uma ação dentro dos combos. Parece interessante no papel, mas, na prática, limita demais a fluidez das batalhas. Se o jogador erra o ritmo ou tenta improvisar, a sequência é interrompida com facilidade.
A recarga das almas também não ajuda. Ela depende de esquivas perfeitas que possuem um timing pouco amigável ou da execução correta de combos específicos. O resultado é um sistema que tenta parecer profundo, mas acaba engessado. Outro detalhe curioso é a ausência de um ataque básico tradicional. Todos os botões estão vinculados a artes ou habilidades específicas. Isso simplifica a estrutura, mas reduz a sensação de liberdade. Há méritos pontuais: cada personagem possui habilidades próprias e estilos distintos. Porém, o conjunto geral não alcança o nível de dinamismo esperado da série. Mesmo ao aumentar a dificuldade, o desafio raramente vai além de inimigos com mais resistência.
Progressão pouco recompensadora
Se o combate não empolga, a progressão também não ajuda a sustentar o entusiasmo.
Grande parte dos equipamentos possui o mesmo nome, ainda que apresentem variações sutis de atributos. Poucos itens oferecem melhorias realmente significativas, e quase sempre um status melhor vem acompanhado da redução de outro.
O sistema permite desmontar itens duplicados para fortalecer equipamentos, mas isso não substitui a sensação de conquistar algo verdadeiramente novo. A evolução acaba ficando concentrada no aumento de nível, sem grandes desbloqueios marcantes ao longo da jornada.
Para um JRPG - sigla em inglês para 'Japanese Role-Playing Game' (Jogo de Interpretação de Papéis Japonês) -, essa ausência de recompensas impactantes pesa.

O que o remaster realmente adiciona
Nem tudo é negativo. Para o público brasileiro, a inclusão de legendas em português é um acerto importante, e a localização está bem adaptada, inclusive em expressões e nuances de fala. Em diversos jogos do gênero, a ausência de localização e legendas em PTBR afasta os jogadores novatos e torna a experiência frustrante, mas aqui temos uma imersão mais completa com nosso idioma nativo.
Visualmente, as mudanças são discretas. Testado no PlayStation 5, o jogo não apresenta salto gráfico significativo, mas também não envelheceu mal. A movimentação dos personagens foi acelerada em 20%, o que torna a exploração menos arrastada.
Entre as novidades de qualidade de vida, há um marcador no mini mapa indicando o objetivo principal, opção de habilitar ou desabilitar encontros com inimigos e acesso antecipado à Loja de Grau, que oferece bônus como experiência dobrada.
Além disso, o pacote inclui todos os DLCs lançados originalmente.
Vale a pena jogar Tales of Berseria Remastered?
Para quem nunca teve contato com Berseria, o remaster é a forma mais prática e completa de conhecer essa história. A narrativa continua sendo seu maior diferencial. Já para quem jogou o original, as melhorias podem soar discretas demais para justificar um retorno imediato.
No fim das contas, Tales of Berseria Remastered não é um jogo ruim. Ele apenas carrega as mesmas limitações que já existiam há quase uma década. A remasterização melhora a acessibilidade e moderniza pequenos aspectos, mas não corrige os problemas estruturais.
Em suma, Berseria continua interessante pela história que conta, e, para quem é fã de JRPG's como eu, continua sendo uma experiência válida.







