Resenha: 'Grime 2' evolui no combate, mas ainda busca equilíbrio no gênero metroidvania
Sequência aposta em mais liberdade e identidade visual marcante, porém, a dificuldade elevada e exploração irregular limitam o salto da franquia


Vinícius Gobira
Sequências nem sempre precisam reinventar tudo, e Grime 2 entende bem isso. Em vez de romper com o passado, o novo título aposta em melhorar sua base, expandir possibilidades e dar mais identidade ao que já funcionava. O resultado é um jogo mais consistente em combate e apresentação, mas que ainda encontra dificuldades em outros pilares importantes do gênero.
A experiência com Grime 2 funciona bem como um primeiro contato com a franquia, e deixa claro que o gênero metroidvania, especialmente com influências soulslike, continua em ascensão dentro da indústria.
Um mundo artístico que chama atenção, mas não sustenta a narrativa
Logo nas primeiras horas, fica evidente a mudança de direção estética. Se antes o universo era mais orgânico e grotesco, agora tudo parece girar em torno de um conceito artístico mais amplo, como se o mundo tivesse sido moldado a partir de tinta, esculturas e processos criativos quebrados.
Essa identidade visual funciona muito bem. Os cenários são marcantes, os inimigos seguem estranhos e criativos, e os chefes reforçam essa ideia de “arte viva”. Existe uma coesão estética forte, com uma paleta mais variada e uma direção que busca se destacar dentro do gênero.
O protagonista segue essa lógica: uma figura humanoide sem rosto definido, sem expressão clara, reforçando a sensação de ser apenas mais um elemento daquele universo.
O problema é que toda essa construção visual não é acompanhada por uma narrativa igualmente interessante. A história está presente, mas funciona mais como pano de fundo. Há interações com NPCs e pequenos momentos de desenvolvimento, mas nada que realmente prenda ou marque.
No fim, a motivação para seguir jogando vem muito mais da curiosidade pelo mundo e pelos desafios do que pela história.

Combate é o grande destaque: mais livre e estratégico
Se há um ponto em que Grime 2 realmente evolui, é no combate.
Diferente do primeiro jogo, que exigia domínio quase obrigatório do parry, a sequência amplia as possibilidades. O parry ainda existe e continua relevante, mas deixa de ser o único caminho viável.
Agora, o jogador tem liberdade real de abordagem:
- Estilo mais agressivo, com ataques rápidos;
- Postura defensiva, controlando espaço;
- Builds específicas com armas e habilidades.
Essa variedade torna o combate mais dinâmico e menos engessado.
Os Molds reforçam essa proposta. Eles funcionam como manifestações de inimigos derrotados e podem ser usados de forma estratégica, seja para causar dano, distrair inimigos ou ganhar tempo para se recuperar.
Além disso, o sistema de recursos cria um ritmo interessante. Não é possível simplesmente atacar sem pensar: é preciso observar, recuar, atacar no momento certo e se reposicionar constantemente.
Esse equilíbrio fica ainda mais evidente nas batalhas contra chefes, que exigem leitura de padrões e execução precisa, entregando momentos bem difíceis, mas bastante satisfatórios.
Exploração cumpre o básico, mas sem grande impacto
Uma das principais novidades é o uso do gancho, tanto para exploração quanto para combate. Na teoria, é uma adição excelente. Na prática, nem sempre funciona como deveria.
Existem momentos que exigem precisão extrema, como em saltos, desvios e uso do gancho em sequência. Quando tudo se encaixa, a sensação é ótima. Porém, quando falha, a frustração aparece rapidamente.
Como bom metroidvania, o jogo oferece:
- Áreas desbloqueáveis com novas habilidades;
- Caminhos alternativos;
- Progressão baseada em exploração.
No entanto, a execução não empolga tanto quanto poderia. Muitas áreas opcionais parecem desconectadas da progressão principal, e as recompensas nem sempre justificam o esforço. Isso enfraquece a sensação de descoberta, que é um dos pilares do gênero.
Além disso, os upgrades muitas vezes parecem pouco impactantes isoladamente, o que reduz a percepção de evolução do personagem.

Direção de arte e áudio elevam a experiência
Se a narrativa não se destaca, a apresentação compensa. Visualmente, Grime 2 é marcante. Cada área tem identidade própria e os inimigos parecem verdadeiras peças artísticas. Existe uma forte coesão entre conceito e execução.
A trilha sonora também merece destaque. Mais presente e envolvente, ela ajuda a construir a atmosfera e intensifica momentos importantes.
O design de som complementa bem a experiência: golpes têm peso, ambientes têm personalidade e tudo contribui para a imersão.
Dificuldade elevada pode afastar alguns jogadores
Mesmo com a inclusão de ajustes de dificuldade, Grime 2 ainda pode ser considerado um jogo desafiador, especialmente para quem não está acostumado com o gênero.
Durante a gameplay, pode-se observar uma dificuldade elevada em diversos momentos, o que exigiu precisão, paciência e repetição. É comum dizer que para jogadores mais casuais ou com menos familiaridade com metroidvanias e soulslikes, isso pode ser um obstáculo. Mas, é compreensível que faça parte do gênero.
Por outro lado, quem busca desafio provavelmente encontrará no título uma experiência bastante recompensadora.

Conclusão: Vale a pena?
O sucesso crescente dos metroidvanias nos últimos anos mostra que há espaço para experiências mais desafiadoras e autorais. Grime 2 se encaixa bem nesse cenário, reforçando a relevância do gênero.
Grime 2 é um passo à frente para a franquia. O combate é mais refinado, a liberdade de jogo é maior e a direção artística chama a atenção.
Porém, ainda há pontos que impedem o jogo de alcançar um novo patamar:
- Exploração pouco recompensadora;
- Narrativa pouco envolvente;
- Problemas de precisão no gancho.
No geral, a experiência é positiva, especialmente para fãs do gênero. Para quem não teve contato com a série antes, Grime 2 pode funcionar como uma boa porta de entrada, ainda que exigente.
Não é o salto definitivo, mas é um avanço claro. E, no cenário atual dos metroidvanias, isso já é o suficiente para colocá-lo no radar.








