Veja como a genética influencia na resposta a antidepressivo
Especialistas apontam que exames genéticos podem ajudandar a personalizar medicamentos


Genética influencia na resposta a antidepressivo | Freepik
A variabilidade interindividual na resposta aos antidepressivos é um dos fenômenos mais bem documentados – e, ao mesmo tempo, ainda pouco incorporados – da farmacologia clínica. Dois pacientes com o mesmo diagnóstico sindrômico, submetidos ao mesmo protocolo medicamentoso, podem apresentar respostas radicalmente diferentes: remissão completa em um caso, ausência de efeito ou toxicidade significativa em outro.
Em torno de 30% dos pacientes não obtêm resposta adequada ao primeiro antidepressivo prescrito. Sem informação genética prévia, é necessário aguardar pelo menos quatro a seis semanas para avaliar a resposta clínica ao tratamento.
O que a farmacogenômica muda na prática
Na psiquiatria, é comum que duas pessoas usando o mesmo antidepressivo tenham respostas completamente diferentes. Enquanto uma melhora bem, outra pode apresentar efeitos colaterais importantes ou quase nenhum benefício.
A farmacogenômica tenta entender parte dessa diferença analisando como os genes influenciam a resposta do organismo aos medicamentos.
Isso acontece porque o corpo não processa os antidepressivos da mesma maneira em todos os indivíduos. Grande parte desse trabalho é feita pelo fígado, que usa enzimas para metabolizar os remédios. Em algumas pessoas, esse processo acontece mais lentamente; em outras, rápido demais.
Na prática, isso significa que um mesmo antidepressivo pode permanecer tempo excessivo no organismo de uma pessoa, aumentando o risco de efeitos colaterais, ou ser eliminado rápido demais em outra, reduzindo o efeito do tratamento.
É por isso que alguns pacientes apresentam tontura, náusea, sonolência intensa ou piora do humor mesmo usando doses consideradas normais, enquanto outros sentem pouco ou nenhum benefício com a mesma medicação.
Além da forma como o organismo metaboliza o remédio, a genética também pode influenciar diretamente a resposta do cérebro ao tratamento.
Os testes farmacogenômicos buscam justamente identificar essas diferenças. Eles não conseguem prever com certeza qual antidepressivo funcionará melhor, mas podem ajudar o médico a entender quais medicamentos têm maior chance de boa resposta ou maior risco de efeitos adversos para cada paciente.
Como são os testes e o que eles realmente entregam
Os testes farmacogenômicos já existem, são validados e estão disponíveis em laboratórios especializados. Em geral, o exame é feito por meio de coleta de saliva ou sangue e fornece ao médico um painel genético relacionado aos principais genes envolvidos no metabolismo de antidepressivos e outros medicamentos psiquiátricos.
Os limites dessa tecnologia, porém, são importantes. Os testes não determinam com certeza qual medicamento funcionará para cada paciente. Eles apenas indicam quais substâncias têm maior ou menor probabilidade de boa resposta – e por quê.
Além da genética, fatores ambientais, doenças associadas, interações medicamentosas e até o microbioma intestinal também influenciam o metabolismo dos psicofármacos.
Limites, acesso e interpretação dos resultados
O acesso ainda é desigual. No Brasil, os painéis farmacogenômicos podem custar de algumas centenas a milhares de reais, geralmente sem cobertura pela maior parte dos planos de saúde e com disponibilidade bastante limitada no sistema público.
Outro desafio é a interpretação inadequada dos resultados. Um teste que aponta “resposta reduzida” a determinado medicamento não significa contraindicação automática. Em muitos casos, isso apenas sugere necessidade de ajuste de dose ou monitoramento mais cuidadoso.
Os testes farmacogenômicos podem ajudar a identificar como o organismo metaboliza determinadas classes de medicamentos, estimar risco aumentado de efeitos adversos e auxiliar o médico na personalização do tratamento. Mas eles não diagnosticam depressão, não substituem avaliação clínica, não garantem resposta terapêutica e tampouco eliminam completamente o processo de ajuste medicamentoso.
A psiquiatria de precisão – da qual a farmacogenômica é uma das ferramentas – representa uma mudança importante de paradigma: da categorização puramente sindrômica para uma abordagem que integra biomarcadores biológicos e genéticos.
O caminho entre o laboratório e a prática clínica cotidiana ainda é longo, especialmente em contextos de recursos limitados. Ainda assim, a pergunta central que a farmacogenômica levanta – por que o mesmo medicamento produz efeitos tão diferentes em pessoas distintas? – começa, aos poucos, a encontrar respostas em nível molecular.
** Célia Petrossi Gallo Garcia é psiquiatra, médica formada pela FMUSP, com residência médica em Psiquiatria e especialização em Psiquiatria Geriátrica no HCFMUSP















