Obesidade: como preconceito afasta pacientes do tratamento
Comentários preconceituosos e julgamentos podem atrasar diagnósticos e comprometer o processo de recuperação

Preconceito pode afastar pacientes do tratamento contra obesidade | Foto: Magnific
Comentários preconceituosos e julgamentos sobre o peso podem aumentar o sofrimento, atrasar diagnósticos e comprometer o tratamento da obesidade e de outras doenças crônicas.
“Comer menos e se exercitar mais.” Quantas pessoas que vivem com obesidade já ouviram essa recomendação de familiares, amigos, colegas de trabalho e até de médicos, nutricionistas, psicólogos e outros profissionais de saúde?
Quando o preconceito entra no consultório
O estigma contra pessoas com obesidade ainda é legal e socialmente aceito e, muitas vezes, reproduzido dentro dos consultórios sob o pretexto de “preocupação com a saúde”. Ele pode ocorrer de forma explícita (“Seu gordo”), implícita (“Ela é tão linda, mas está acima do peso”) e, de maneira mais preocupante, internalizada – isto é, quando o próprio paciente associa sua obesidade à preguiça e ao gosto por comidas hipercalóricas, por exemplo.
A obesidade é uma doença crônica, multifatorial e recidivante, influenciada por fatores biológicos, genéticos, ambientais, metabólicos e psicossociais. Isso significa que o tratamento deve ser contínuo, como o de outras doenças crônicas (p. ex.: diabetes e hipertensão), precisa abranger diversos aspectos da vida do indivíduo e, mesmo com todos os cuidados, a doença pode reaparecer.
Atribuir a obesidade à preguiça e à falta de vontade é o primeiro passo para dificultar ou até interromper o tratamento desses pacientes.
A própria escolha do tratamento mais adequado para a obesidade é motivo de preconceito. Se o paciente opta pela cirurgia bariátrica, ouve que “escolheu o caminho mais fácil”. Quanto às novas medicações – indevidamente e até com algum preconceito chamadas de “canetas emagrecedoras” –, as redes sociais transformaram um excelente tratamento em símbolo de status social. Pacientes que não podem utilizá-las passam a ser ridicularizados; por outro lado, os que as utilizam e perdem muito peso também passam a ser estigmatizados pela magreza, o que é outra forma de preconceito.
Estudos mostram que pessoas com índices de massa corporal (IMC) mais altos já passaram por situações como:
- Ter um médico que faça comentários cruéis, ridicularize ou xingue o paciente, ou atribua todos os problemas físicos ao seu peso.
- Não ter a oportunidade de fazer todas as perguntas relacionadas à sua saúde ou não receber a atenção necessária aos seus sentimentos e emoções.
- Não ser tratado com respeito e como um igual pelo profissional de saúde ou ser julgado por causa do peso.
- Adiar ou evitar procurar atendimento médico porque “ganhou peso”, “havia sido orientado a perder peso”, “pensou que seria pesado”, “pensou que discutiriam seu peso”, “pensou que seria solicitado a se despir” ou “pensou que poderia se livrar de um problema perdendo peso”.
- Trocar de médico ou tentar encontrar um novo médico por ter sido maltratado no atendimento atual (doctor shopping).
Como o estigma prejudica a saúde
O preconceito adoece as pessoas. Esse processo gera um ciclo vicioso que só pode ser interrompido com a ajuda de profissionais capacitados e livres de julgamentos.
O estresse decorrente do preconceito gera comportamentos alimentares inadequados e reduz a vontade de se exercitar, o que só aumenta o ganho de peso. Esse mesmo estresse provoca respostas orgânicas exageradas, como o aumento da pressão arterial, da inflamação, do cortisol e da glicose no sangue. Todos esses são efeitos prejudiciais à saúde do indivíduo. O preconceito dentro dos serviços de saúde provoca falta de confiança nos profissionais, menor adesão ao tratamento e atraso na realização de exames preventivos de rotina. Todos esses eventos aumentam o sofrimento biopsicossocial dos pacientes, elevando o risco de aparecimento ou agravamento de outras doenças.
Pessoas com obesidade apresentam pior controle de outras doenças crônicas, como diabetes e hipertensão. Estão mais sujeitas a eventos cardiovasculares e recebem diagnósticos de câncer mais tardiamente. Isso é especialmente importante no caso das mulheres que evitam ir ao ginecologista e acabam retardando os diagnósticos de doenças ginecológicas, especialmente o câncer ginecológico.
Combater o preconceito contra a obesidade é melhorar o acesso à saúde e as condições biopsicossociais das pessoas que vivem com essa condição.
** Carlos Aurelio Schiavon é cirurgião geral e bariátrico, diretor da ONG Instituto Obesidade Brasil















