Saúde

Canetas emagrecedoras: veja efeito no coração, rins e fígado

Além da perda de peso, medicamento mostrou benefícios em alguns órgãos do corpo; entenda

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CANETA EMAGRECEDORA

CANETA EMAGRECEDORA

Quando surgiram, medicamentos como semaglutida e tirzepatida ficaram conhecidos principalmente como “canetas para emagrecer”. Mas hoje sabemos que seus efeitos podem ir muito além dos números mostrados na balança.

Além da perda de peso

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Um dos estudos que mudou essa história foi o SELECT, que acompanhou mais de 17 mil pessoas com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular, mas sem diabetes. O tratamento com semaglutida reduziu em 20% o risco de eventos cardiovasculares graves, como infarto, AVC ou morte cardiovascular.

Um aspecto particularmente interessante é que a proteção cardiovascular não parece depender apenas de quantos quilos a pessoa perde. O benefício foi observado mesmo entre participantes que perderam menos de 5% do peso.

A redução da circunferência abdominal, que reflete melhor a gordura visceral, mostrou relação mais consistente com a proteção cardiovascular.

Outro possível mecanismo é a redução da inflamação: a semaglutida reduziu em cerca de 38% a PCR ultrassensível, um marcador de inflamação associado ao risco cardiovascular. Curiosamente, essa redução começou antes de uma perda de peso importante. Portanto, emagrecer é parte da história, mas provavelmente não explica tudo. Existe um efeito inerente ao medicamento, independentemente da perda de peso.

Insuficiência cardíaca

Os benefícios também chegaram à insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, ou seja, com função de contração do coração preservada, mas relaxamento alterado, uma condição muito frequente em pessoas com obesidade.

Estudos com semaglutida mostraram melhora dos sintomas, da qualidade de vida e da capacidade para realizar exercícios. A tirzepatida também foi estudada nessa população, demonstrando redução de internações por insuficiência cardíaca e morte, reforçando a ideia de que tratar a obesidade pode fazer parte do próprio tratamento da insuficiência cardíaca.

Diabetes

É importante lembrar que essa história começou justamente no diabetes tipo 2. Os agonistas de GLP-1 foram inicialmente desenvolvidos para controlar a glicose. Com o tempo, grandes estudos mostraram que alguns desses medicamentos não apenas melhoravam a glicemia, mas também reduziam eventos cardiovasculares. A semaglutida e a tirzepatida, por exemplo, demonstraram redução de eventos cardiovasculares em pessoas com diabetes e alto risco cardiovascular.

Fígado e rins

Os benefícios também alcançam outros órgãos. No fígado, esses medicamentos podem reduzir o acúmulo de gordura e melhorar a esteato-hepatite metabólica (MASH), uma forma mais grave da doença hepática associada à obesidade e às alterações metabólicas.

Nos rins, as evidências são igualmente relevantes. No estudo FLOW, realizado em pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, a semaglutida reduziu em 24% o risco de eventos renais graves, incluindo piora importante da função renal, necessidade de diálise ou transplante e morte de causa renal ou cardiovascular.

E os benefícios não param por aí

A tirzepatida demonstrou benefício na apneia obstrutiva do sono associada à obesidade, reduzindo a gravidade da doença. Estudos com semaglutida também encontraram melhora da dor e da função em pessoas com obesidade e osteoartrite do joelho.

Há ainda uma área bastante interessante de pesquisa: a possível redução do consumo de álcool e do desejo de beber com medicamentos dessa classe. Os resultados iniciais são promissores, mas essa ainda não é uma indicação aprovada para esses medicamentos.

Tudo isso está mudando a maneira como enxergamos a obesidade. Ela não é apenas uma questão de peso ou aparência, mas uma doença capaz de afetar coração, metabolismo, rins, fígado, articulações e sono.

Por isso, talvez seja hora de deixarmos de chamar esses medicamentos simplesmente de “canetas para emagrecer”. Em pacientes adequadamente selecionados, perder peso pode ser apenas uma parte do benefício – proteger a saúde e reduzir complicações da obesidade é o objetivo maior.

Isso também não significa que qualquer pessoa deva usar uma “caneta para proteger o coração”. Os benefícios foram demonstrados em populações específicas, e a indicação deve considerar obesidade, diabetes, doença cardiovascular e outras condições de cada paciente.

** Pedro Farsky é cardiologista

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