Endocrinologista explica por que mudanças extremas até emagrecem rápido, mas costumam falhar no longo prazo
Brazil Health
03/07/2026, 14:40 • Atualizado em 03/07/2026, 14:40
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Mulher segura fruta na mão | Freepik
Vivemos na era das soluções rápidas. A cada semana, surge uma nova dieta prometendo resultados extraordinários: cortar carboidratos, eliminar gorduras, aumentar proteínas, fazer jejuns prolongados ou substituir refeições por líquidos. A promessa é sempre a mesma: emagrecer rápido. Mas, na prática, emagrecer já não é o maior desafio. O verdadeiro desafio é manter o peso perdido.
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Por que dietas radicais dão resultado no começo, mas não se sustentam
A obesidade não é uma doença da falta de conhecimento. Nunca tivemos tanto acesso a informações sobre alimentação, exercício físico e saúde. Sabemos que verduras fazem bem, que alimentos ultraprocessados devem ser consumidos com moderação e que a atividade física é importante. Ainda assim, as taxas de obesidade continuam crescendo. O problema não é apenas saber o que fazer, mas transformar conhecimento em comportamento sustentável ao longo dos anos.
Dietas extremamente restritivas podem gerar uma perda de peso expressiva, de 20% a 25% do peso corporal, nos primeiros meses. Mas a pergunta mais importante não é quanto alguém consegue perder em 12 semanas. É quanto desse peso continuará perdido daqui a cinco anos.
As evidências mostram que essa é a grande limitação das estratégias radicais. Embora muitas pessoas consigam emagrecer rapidamente, uma parcela significativa do peso perdido costuma retornar ao longo dos anos. Isso acontece porque o organismo reage à perda de peso aumentando a fome, reduzindo o gasto energético e ativando mecanismos biológicos que favorecem a recuperação do peso corporal. Não se trata apenas de disciplina ou força de vontade. Trata-se de biologia.
O mesmo acontece com dietas que ganharam popularidade nos últimos anos, como as low-carb e cetogênicas. Elas podem apresentar resultados superiores nos primeiros meses, mas, no longo prazo, o fator mais importante parece não ser a proporção de carboidratos, gorduras ou proteínas, e sim a capacidade de sustentar aquele padrão alimentar.
O maior erro costuma ser tentar mudar tudo de uma vez. A pessoa decide cortar açúcar, pão, massas, sobremesas e bebidas alcoólicas, enquanto inicia uma rotina intensa de exercícios. O entusiasmo dura algumas semanas. Depois chegam os compromissos sociais, o cansaço, as viagens e os imprevistos da vida real. Quando o plano alimentar não cabe na rotina, o fracasso se torna uma consequência previsível.
Além disso, restrições excessivas podem gerar um impacto emocional importante. Viver em constante privação exige esforço mental, aumenta a preocupação com a comida e pode prejudicar a relação do indivíduo com a alimentação. Em pessoas suscetíveis, dietas muito rígidas também podem aumentar o risco de transtornos alimentares.
Existe ainda um aspecto frequentemente ignorado quando falamos de nutrição: os seres humanos não comem apenas para sobreviver.
Prazer, cultura e emoções: o que muita dieta ignora
A alimentação ocupa um papel central na experiência humana. Está presente nas celebrações familiares, nos encontros entre amigos, nas tradições culturais e nos momentos que marcam nossa história. Uma receita de família ou um prato associado à infância possui um valor que ultrapassa a soma de proteínas, gorduras e carboidratos.
A comida também carrega significados emocionais. Ela pode representar acolhimento, conforto e pertencimento. Por isso, é natural que o comportamento alimentar seja influenciado por emoções como ansiedade, estresse, tristeza ou momentos de celebração.
O chamado comer emocional não é falta de disciplina. O comportamento alimentar é regulado por uma interação complexa entre áreas cerebrais relacionadas ao prazer, às emoções e ao controle da fome. A comida não é apenas combustível: ela também produz prazer, conforto e recompensa.
Ignorar essa realidade é um dos motivos pelos quais tantas dietas fracassam. Uma estratégia alimentar eficaz precisa considerar não apenas calorias e nutrientes, mas também prazer, cultura, emoções e qualidade de vida.
Essa visão está alinhada com os princípios da Medicina do Estilo de Vida, que mostram que hábitos sustentáveis incorporados ao cotidiano têm impacto maior sobre a saúde do que intervenções radicais e temporárias. Alimentação equilibrada, atividade física regular, sono adequado, manejo do estresse e conexões sociais positivas fazem parte do mesmo cuidado.
Os resultados podem parecer menos impressionantes no início, mas tendem a ser mais duradouros. Estratégias sustentáveis respeitam a biologia humana e se adaptam melhor à realidade das pessoas.
Talvez seja hora de abandonarmos a ideia de que o sofrimento é um requisito para o emagrecimento.
Durante muito tempo, vendemos a ideia de que cuidar da saúde exigia sacrifício permanente: sentir fome, abrir mão de momentos de convivência ou viver em constante vigilância alimentar. Mas as evidências científicas apontam para outra direção: quanto mais uma estratégia depende de sofrimento para funcionar, menores são as chances de ela durar.
A alimentação saudável não deveria ser construída contra a natureza humana, mas a partir dela. Estratégias que ignoram o prazer, a cultura e as emoções associadas ao ato de comer podem até produzir resultados rápidos, mas raramente produzem resultados duradouros.
No final das contas, a melhor dieta não é a mais restritiva nem a mais popular. É aquela que continua funcionando quando a motivação diminui, a rotina aperta e a vida acontece.
Dr. Ramon Marcelino - CRM-SP 178321 | RQE 72209
Médico endocrinologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP)
1. Apovian CM, Aronne LJ, Barenbaum SR. Clinical Management of Obesity. 3rd ed. The Obesity Society; 2025.
2. Lingvay I, Cohen RV, Le Roux CW, Sumithran P. Obesity in Adults. Lancet. 2024.
3. American Diabetes Association Professional Practice Committee. Obesity and Weight Management for the Prevention and Treatment of Diabetes: Standards of Care in Diabetes–2026. Diabetes Care. 2026.
4. Naude CE, Brand A, Schoonees A, et al. Low-Carbohydrate Versus Balanced-Carbohydrate Diets for Reducing Weight and Cardiovascular Risk. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2022.
O erro que faz quase toda dieta falharEndocrinologista explica por que mudanças extremas até emagrecem rápido, mas costumam falhar no longo prazoSaúde2026-07-03T14:40:59.631ZVivemos na era das soluções rápidas. A cada semana, surge uma nova dieta prometendo resultados extraordinários: cortar carboidratos, eliminar gorduras, aumentar proteínas, fazer jejuns prolongados ou substituir refeições por líquidos. A promessa é sempre a mesma: emagrecer rápido. Mas, na prática, emagrecer já não é o maior desafio. O verdadeiro desafio é manter o peso perdido. + Por que dietas radicais dão resultado no começo, mas não se sustentam A obesidade não é uma doença da falta de conhecimento. Nunca tivemos tanto acesso a informações sobre alimentação, exercício físico e saúde. Sabemos que verduras fazem bem, que alimentos ultraprocessados devem ser consumidos com moderação e que a atividade física é importante. Ainda assim, as taxas de obesidade continuam crescendo. O problema não é apenas saber o que fazer, mas transformar conhecimento em comportamento sustentável ao longo dos anos. Dietas extremamente restritivas podem gerar uma perda de peso expressiva, de 20% a 25% do peso corporal, nos primeiros meses. Mas a pergunta mais importante não é quanto alguém consegue perder em 12 semanas. É quanto desse peso continuará perdido daqui a cinco anos. As evidências mostram que essa é a grande limitação das estratégias radicais. Embora muitas pessoas consigam emagrecer rapidamente, uma parcela significativa do peso perdido costuma retornar ao longo dos anos. Isso acontece porque o organismo reage à perda de peso aumentando a fome, reduzindo o gasto energético e ativando mecanismos biológicos que favorecem a recuperação do peso corporal. Não se trata apenas de disciplina ou força de vontade. Trata-se de biologia. O mesmo acontece com dietas que ganharam popularidade nos últimos anos, como as low-carb e cetogênicas. Elas podem apresentar resultados superiores nos primeiros meses, mas, no longo prazo, o fator mais importante parece não ser a proporção de carboidratos, gorduras ou proteínas, e sim a capacidade de sustentar aquele padrão alimentar. E é justamente aí que muitos programas falham. + O problema de tentar mudar tudo de uma vez O maior erro costuma ser tentar mudar tudo de uma vez. A pessoa decide cortar açúcar, pão, massas, sobremesas e bebidas alcoólicas, enquanto inicia uma rotina intensa de exercícios. O entusiasmo dura algumas semanas. Depois chegam os compromissos sociais, o cansaço, as viagens e os imprevistos da vida real. Quando o plano alimentar não cabe na rotina, o fracasso se torna uma consequência previsível. Além disso, restrições excessivas podem gerar um impacto emocional importante. Viver em constante privação exige esforço mental, aumenta a preocupação com a comida e pode prejudicar a relação do indivíduo com a alimentação. Em pessoas suscetíveis, dietas muito rígidas também podem aumentar o risco de transtornos alimentares. Existe ainda um aspecto frequentemente ignorado quando falamos de nutrição: os seres humanos não comem apenas para sobreviver. Prazer, cultura e emoções: o que muita dieta ignora A alimentação ocupa um papel central na experiência humana. Está presente nas celebrações familiares, nos encontros entre amigos, nas tradições culturais e nos momentos que marcam nossa história. Uma receita de família ou um prato associado à infância possui um valor que ultrapassa a soma de proteínas, gorduras e carboidratos. A comida também carrega significados emocionais. Ela pode representar acolhimento, conforto e pertencimento. Por isso, é natural que o comportamento alimentar seja influenciado por emoções como ansiedade, estresse, tristeza ou momentos de celebração. O chamado comer emocional não é falta de disciplina. O comportamento alimentar é regulado por uma interação complexa entre áreas cerebrais relacionadas ao prazer, às emoções e ao controle da fome. A comida não é apenas combustível: ela também produz prazer, conforto e recompensa. Ignorar essa realidade é um dos motivos pelos quais tantas dietas fracassam. Uma estratégia alimentar eficaz precisa considerar não apenas calorias e nutrientes, mas também prazer, cultura, emoções e qualidade de vida. Essa visão está alinhada com os princípios da Medicina do Estilo de Vida, que mostram que hábitos sustentáveis incorporados ao cotidiano têm impacto maior sobre a saúde do que intervenções radicais e temporárias. Alimentação equilibrada, atividade física regular, sono adequado, manejo do estresse e conexões sociais positivas fazem parte do mesmo cuidado. Os resultados podem parecer menos impressionantes no início, mas tendem a ser mais duradouros. Estratégias sustentáveis respeitam a biologia humana e se adaptam melhor à realidade das pessoas. Talvez seja hora de abandonarmos a ideia de que o sofrimento é um requisito para o emagrecimento. Durante muito tempo, vendemos a ideia de que cuidar da saúde exigia sacrifício permanente: sentir fome, abrir mão de momentos de convivência ou viver em constante vigilância alimentar. Mas as evidências científicas apontam para outra direção: quanto mais uma estratégia depende de sofrimento para funcionar, menores são as chances de ela durar. + A alimentação saudável não deveria ser construída contra a natureza humana, mas a partir dela. Estratégias que ignoram o prazer, a cultura e as emoções associadas ao ato de comer podem até produzir resultados rápidos, mas raramente produzem resultados duradouros. No final das contas, a melhor dieta não é a mais restritiva nem a mais popular. É aquela que continua funcionando quando a motivação diminui, a rotina aperta e a vida acontece. Dr. Ramon Marcelino - CRM-SP 178321 | RQE 72209 Médico endocrinologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP) ______________________________________________________________________________________ Referências 1. Apovian CM, Aronne LJ, Barenbaum SR. Clinical Management of Obesity. 3rd ed. The Obesity Society; 2025. 2. Lingvay I, Cohen RV, Le Roux CW, Sumithran P. Obesity in Adults. Lancet. 2024. 3. American Diabetes Association Professional Practice Committee. Obesity and Weight Management for the Prevention and Treatment of Diabetes: Standards of Care in Diabetes–2026. Diabetes Care. 2026. 4. Naude CE, Brand A, Schoonees A, et al. Low-Carbohydrate Versus Balanced-Carbohydrate Diets for Reducing Weight and Cardiovascular Risk. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2022.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/saude/o-erro-que-faz-quase-toda-dieta-falhar