Mito ou verdade: glúten e lactose inflamam o corpo? Entenda
Especialista alerta para restrições de alimentos sem diagnóstico ou respaldo científico
Brazil Health
Entenda se glúten e lactose realmente inflamam o corpo | Reprodução
Poucos componentes da alimentação foram transformados em vilões com tanta eficiência quanto o glúten e a lactose. Nas redes sociais e até nas prateleiras dos supermercados, produtos “sem glúten” e “sem lactose” muitas vezes são apresentados como se fossem naturalmente mais saudáveis.
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No consultório, isso aparece na forma de autodiagnósticos. Pessoas sem doença celíaca retiram o glúten porque acreditam que ele “inflama”. Outras abandonam leite e derivados porque associam lactose a inflamação.
A ciência não sustenta essas generalizações.
Quando o glúten realmente inflama
A doença celíaca é uma doença crônica imunomediada desencadeada pela ingestão de glúten em pessoas geneticamente predispostas. O glúten está presente principalmente no trigo, no centeio e na cevada.
Nesses pacientes, sua ingestão desencadeia uma resposta imunológica que provoca inflamação e lesões na mucosa do intestino delgado. As vilosidades intestinais, fundamentais para a absorção dos nutrientes, podem ser comprometidas.
Nesse caso, portanto, podemos afirmar claramente: o glúten desencadeia um processo inflamatório. Para quem tem doença celíaca, sua retirada não é preferência alimentar nem modismo. É tratamento e deve ser permanente.
O erro está em transportar esse mecanismo para toda a população. Não há evidência científica consistente de que o glúten provoque inflamação sistêmica em pessoas saudáveis.
Isso não significa que a doença celíaca seja a única condição relacionada ao trigo. Existe alergia ao trigo e também a chamada sensibilidade ao glúten ou ao trigo não celíaca. Nesse último caso, a questão é mais complexa: estudos indicam que outros componentes do trigo, como os frutanos, podem estar envolvidos nos sintomas.
É justamente por isso que a frase “glúten inflama” é uma simplificação que não corresponde ao conhecimento científico atual.
Com a lactose, o mecanismo é completamente diferente.
Lactose é o açúcar naturalmente presente no leite. Para ser digerida, precisa da lactase, enzima produzida no intestino delgado.
Quando existe deficiência dessa enzima, parte da lactose chega ao intestino grosso sem ser absorvida. Ali é fermentada pelas bactérias e pode provocar gases, distensão abdominal, cólicas e diarreia.
Isso é intolerância à lactose. Não significa simplesmente que “leite inflama”.
Além disso, intolerância não significa necessariamente incapacidade absoluta de consumir lactose. O grau varia entre as pessoas, e muitos indivíduos conseguem ingerir determinadas quantidades sem sintomas.
Se alguém produz lactase adequadamente, consome leite e derivados normalmente e não apresenta sintomas, não há razão científica para retirar a lactose da alimentação sob o argumento de que ela seria inflamatória.
Esse talvez seja o argumento mais comum. A pessoa elimina pão, massas, leite e derivados e percebe menos distensão abdominal ou uma digestão mais confortável. Logo conclui que tinha intolerância.
Não necessariamente.
Quando retiramos esses alimentos, modificamos várias características da dieta ao mesmo tempo. Quem deixa pão, biscoitos, pizzas e bolos pode reduzir também ultraprocessados, gorduras, açúcares, calorias e carboidratos fermentáveis. O mesmo raciocínio vale para determinados produtos lácteos.
É possível, portanto, sentir-se melhor. Mas isso não estabelece um diagnóstico.
Existe uma diferença importante entre dizer “minha digestão fica melhor quando não como esse alimento” e afirmar “esse alimento provoca inflamação no meu organismo”. A primeira frase descreve uma percepção individual. A segunda exige comprovação científica.
“Sem glúten” não significa “mais saudável”
Também não podemos confundir restrição com qualidade nutricional.
Um biscoito sem glúten pode continuar sendo rico em açúcar, gordura e calorias. A expressão “sem glúten” na embalagem não transforma um ultraprocessado em alimento saudável.
Da mesma forma, retirar leite e derivados sem necessidade e sem substituição adequada pode diminuir a ingestão de nutrientes importantes.
Dietas restritivas fazem sentido quando existe indicação. Fora disso, podem apenas tornar a alimentação mais difícil, mais cara e, dependendo das substituições, nutricionalmente pior.
Há ainda um cuidado importante: quem suspeita de doença celíaca não deve simplesmente retirar o glúten antes da investigação médica. A mudança na alimentação pode interferir nos exames utilizados para chegar ao diagnóstico.
Menos folclore, mais ciência
Glúten não é veneno. Lactose não é veneno.
Para quem tem doença celíaca, o glúten desencadeia uma resposta imunológica e precisa ser eliminado. Para quem apresenta intolerância à lactose, o consumo deve ser adequado à capacidade individual de digestão e aos sintomas. Alergias e outras condições específicas também precisam de diagnóstico e acompanhamento.
O que não podemos fazer é transformar doenças reais de uma parcela da população em diagnósticos coletivos.
Se uma pessoa consome alimentos com glúten e não apresenta uma condição relacionada a ele, não há evidência para recomendar sua retirada simplesmente para “desinflamar” o organismo. Se consome leite e derivados sem sintomas, também não existe motivo para eliminar preventivamente a lactose.
Antes de retirar um alimento porque ele supostamente “inflama”, a pergunta deveria ser outra: existe evidência de que ele realmente esteja fazendo mal?
Em medicina, diagnóstico deve vir antes da restrição. E evidência deve vir antes do folclore.
** Alfredo Salim Helito é clínico-geral e head nacional de Clínica Médica da Brazil Health
Mito ou verdade: glúten e lactose inflamam o corpo? EntendaEspecialista alerta para restrições de alimentos sem diagnóstico ou respaldo científico
Saúde2026-08-12T14:54:10.935ZPoucos componentes da alimentação foram transformados em vilões com tanta eficiência quanto o glúten e a lactose. Nas redes sociais e até nas prateleiras dos supermercados, produtos “sem glúten” e “sem lactose” muitas vezes são apresentados como se fossem naturalmente mais saudáveis. No consultório, isso aparece na forma de autodiagnósticos. Pessoas sem doença celíaca retiram o glúten porque acreditam que ele “inflama”. Outras abandonam leite e derivados porque associam lactose a inflamação. A ciência não sustenta essas generalizações. Quando o glúten realmente inflama A doença celíaca é uma doença crônica imunomediada desencadeada pela ingestão de glúten em pessoas geneticamente predispostas. O glúten está presente principalmente no trigo, no centeio e na cevada. Nesses pacientes, sua ingestão desencadeia uma resposta imunológica que provoca inflamação e lesões na mucosa do intestino delgado. As vilosidades intestinais, fundamentais para a absorção dos nutrientes, podem ser comprometidas. Nesse caso, portanto, podemos afirmar claramente: o glúten desencadeia um processo inflamatório. Para quem tem doença celíaca, sua retirada não é preferência alimentar nem modismo. É tratamento e deve ser permanente. O erro está em transportar esse mecanismo para toda a população. Não há evidência científica consistente de que o glúten provoque inflamação sistêmica em pessoas saudáveis. Isso não significa que a doença celíaca seja a única condição relacionada ao trigo. Existe alergia ao trigo e também a chamada sensibilidade ao glúten ou ao trigo não celíaca. Nesse último caso, a questão é mais complexa: estudos indicam que outros componentes do trigo, como os frutanos, podem estar envolvidos nos sintomas. É justamente por isso que a frase “glúten inflama” é uma simplificação que não corresponde ao conhecimento científico atual. E a lactose? Com a lactose, o mecanismo é completamente diferente. Lactose é o açúcar naturalmente presente no leite. Para ser digerida, precisa da lactase, enzima produzida no intestino delgado. Quando existe deficiência dessa enzima, parte da lactose chega ao intestino grosso sem ser absorvida. Ali é fermentada pelas bactérias e pode provocar gases, distensão abdominal, cólicas e diarreia. Isso é intolerância à lactose. Não significa simplesmente que “leite inflama”. Além disso, intolerância não significa necessariamente incapacidade absoluta de consumir lactose. O grau varia entre as pessoas, e muitos indivíduos conseguem ingerir determinadas quantidades sem sintomas. Se alguém produz lactase adequadamente, consome leite e derivados normalmente e não apresenta sintomas, não há razão científica para retirar a lactose da alimentação sob o argumento de que ela seria inflamatória. “Mas eu tirei e me senti melhor” Esse talvez seja o argumento mais comum. A pessoa elimina pão, massas, leite e derivados e percebe menos distensão abdominal ou uma digestão mais confortável. Logo conclui que tinha intolerância. Não necessariamente. Quando retiramos esses alimentos, modificamos várias características da dieta ao mesmo tempo. Quem deixa pão, biscoitos, pizzas e bolos pode reduzir também ultraprocessados, gorduras, açúcares, calorias e carboidratos fermentáveis. O mesmo raciocínio vale para determinados produtos lácteos. É possível, portanto, sentir-se melhor. Mas isso não estabelece um diagnóstico. Existe uma diferença importante entre dizer “minha digestão fica melhor quando não como esse alimento” e afirmar “esse alimento provoca inflamação no meu organismo”. A primeira frase descreve uma percepção individual. A segunda exige comprovação científica. “Sem glúten” não significa “mais saudável” Também não podemos confundir restrição com qualidade nutricional. Um biscoito sem glúten pode continuar sendo rico em açúcar, gordura e calorias. A expressão “sem glúten” na embalagem não transforma um ultraprocessado em alimento saudável. Da mesma forma, retirar leite e derivados sem necessidade e sem substituição adequada pode diminuir a ingestão de nutrientes importantes. Dietas restritivas fazem sentido quando existe indicação. Fora disso, podem apenas tornar a alimentação mais difícil, mais cara e, dependendo das substituições, nutricionalmente pior. Há ainda um cuidado importante: quem suspeita de doença celíaca não deve simplesmente retirar o glúten antes da investigação médica. A mudança na alimentação pode interferir nos exames utilizados para chegar ao diagnóstico. Menos folclore, mais ciência Glúten não é veneno. Lactose não é veneno. Para quem tem doença celíaca, o glúten desencadeia uma resposta imunológica e precisa ser eliminado. Para quem apresenta intolerância à lactose, o consumo deve ser adequado à capacidade individual de digestão e aos sintomas. Alergias e outras condições específicas também precisam de diagnóstico e acompanhamento. O que não podemos fazer é transformar doenças reais de uma parcela da população em diagnósticos coletivos. Se uma pessoa consome alimentos com glúten e não apresenta uma condição relacionada a ele, não há evidência para recomendar sua retirada simplesmente para “desinflamar” o organismo. Se consome leite e derivados sem sintomas, também não existe motivo para eliminar preventivamente a lactose. Antes de retirar um alimento porque ele supostamente “inflama”, a pergunta deveria ser outra: existe evidência de que ele realmente esteja fazendo mal? Em medicina, diagnóstico deve vir antes da restrição. E evidência deve vir antes do folclore. ** Alfredo Salim Helito é clínico-geral e head nacional de Clínica Médica da Brazil HealthSão PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/saude/mito-ou-verdade-gluten-e-lactose-inflamam-o-corpo-entenda
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