Saúde

Mais abraço, menos agenda: o alerta sobre a infância na era da pressão por desempenho

Excesso de estímulos e agendas lotadas podem atrapalhar o desenvolvimento das crianças, alertam especialistas

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O que as crianças realmente precisam para desenvolver um cérebro saudável? | Foto: PickPik

Em meio ao rápido avanço da tecnologia desta "era digital", educadores e estudiosos tentam encontrar caminhos para proteger a infância do excesso de informações, telas e compromissos. A rotina acelerada, com agendas cheias e pressão por desempenho, comuns à vida adulta, também está invadindo a infância, o que não é um bom sinal, segundo especialistas.

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Crianças não precisam apenas de atividades, cursos e estímulos constantes, elas precisam de vínculo emocional, presença afetiva e tempo para brincar. A psicóloga e neuropsicóloga, Tatiana Serra, explica que o cérebro infantil é influenciado pelo ambiente emocional em que a criança cresce.

“A forma como ela é acolhida, escutada, estimulada e emocionalmente validada impacta diretamente o desenvolvimento da memória, da autoestima, da segurança emocional e até da aprendizagem”, destaca.

Segundo a especialista, muitas famílias vivem hoje um paradoxo: investem muito no desenvolvimento infantil, mas muitas vezes oferecem cada vez menos presença emocional real.

Temos crianças hiperestimuladas cognitivamente, mas emocionalmente cansadas. Elas fazem inglês, esporte, música, reforço, tecnologia, mas têm pouco tempo para simplesmente brincar, conversar ou viver momentos afetivos espontâneos dentro da família”, afirma Tatiana.

Cérebro infantil aprende pelo vínculo

A neurociência já demonstrou que as experiências emocionais da infância deixam marcas profundas no cérebro. Isso acontece porque as memórias afetivas são registradas junto aos sistemas emocionais responsáveis por sensação de segurança, pertencimento e proteção.

“É por isso que cheiros, músicas, pequenos rituais familiares e momentos simples da infância permanecem tão vivos ao longo da vida. O cérebro emocional registra aquilo que teve significado afetivo”, explica.

A neuropsicóloga pontua que não são necessariamente os grandes eventos que constroem memórias emocionais positivas, mas sim a repetição de experiências afetivas cotidianas, como:

  • brincar junto;
  • ouvir com atenção;
  • acolher emoções;
  • criar sensação de segurança;
  • compartilhar tempo de qualidade.

Riscos do excesso de agenda no desenvolvimento infantil

Outro ponto que preocupa especialistas é o excesso de atividades estruturadas na infância. Muitas crianças passam o dia inteiro entre compromissos, telas e estímulos contínuos, sem espaço para descanso mental ou brincadeiras livres.

“O brincar é uma ferramenta fundamental de desenvolvimento cerebral. É durante a brincadeira que a criança exercita criatividade, linguagem, resolução de problemas, interação social e regulação emocional”, afirma Tatiana.

Segundo ela, o excesso de estímulos pode gerar:

  • ansiedade infantil;
  • irritabilidade;
  • dificuldade de atenção;
  • baixa tolerância ao tédio;
  • exaustão emocional precoce.

“O cérebro da criança também precisa de pausa. O tédio, inclusive, pode ser importante para estimular imaginação e criatividade”, explica.

Dicas para melhorar a conexão com as crianças

Para a especialista, um dos maiores desafios das famílias modernas é compreender que presença afetiva não significa apenas estar fisicamente junto. “Muitos pais estão em casa, mas emocionalmente capturados pelo celular, pelo trabalho ou pela exaustão. A criança percebe isso”, alerta.

Ela explica que pequenos momentos de conexão verdadeira têm enorme impacto no desenvolvimento emocional infantil. “O cérebro infantil se desenvolve na relação. Crianças precisam sentir que pertencem, que são vistas e emocionalmente importantes dentro da família”, afirma. Portanto, priorize:

  • refeições sem telas;
  • conversas antes de dormir;
  • brincadeiras espontâneas;
  • demonstrações de afeto;
  • escuta ativa.

Ainda conforme Serra, experiências afetivas vividas nos primeiros anos influenciam diretamente a maneira como o cérebro responderá ao estresse, às relações e à autoestima na vida adulta.

“A infância é o período de maior neuroplasticidade do cérebro humano. É quando se constroem muitas das bases emocionais que acompanham a pessoa pelo resto da vida”, finaliza.

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