Influenciadora dá whey e creatina à filha de 3 anos: o que a medicina diz sobre isso?
Prática pode sobrecarregar rins e fígado, provocar desequilíbrios metabólicos e estimular uma relação inadequada com a comida

Sofia Pilagallo
Whey protein e creatina na mamadeira de uma criança de três anos — a situação pode soar inacreditável, mas aconteceu de fato. Em abril, a influenciadora fitness Carol Borba revelou em um podcast que adiciona ambos os suplementos na mamadeira da filha, alegando que a prática ajuda a evitar o "vício" em doces e que a menina pede por isso porque vê a mãe tomando.
A prática é desnecessária e pode ser, inclusive, prejudicial. Segundo a pediatra Elisabeth Fernandes, uma alimentação equilibrada já consegue fornecer toda a proteína necessária para crianças saudáveis. Carnes, ovos, leite, feijão, cereais, frutas e verduras são suficientes para atender as necessidades nutricionais na maior parte dos casos.
Embora muitos possam acreditar que crianças e adolescentes precisam consumir grandes quantidades de proteína para crescer mais fortes ou ganhar massa muscular, não há evidências que sustentem essa ideia. Na realidade, o excesso de proteína pode sobrecarregar órgãos importantes que ainda estão em desenvolvimento.
Elisabeth explica que o organismo infantil não é preparado para lidar constantemente com excesso proteico. Rins e fígado precisam trabalhar mais para metabolizar e eliminar essa carga extra, o que pode gerar sobrecarga renal, alterações hepáticas e desequilíbrios metabólicos.
Outro ponto de preocupação é que muitos desses produtos são ultraprocessados e contêm aromatizantes, adoçantes artificiais, emulsificantes e conservantes. Com frequência, a atenção se concentra apenas na quantidade de proteína, enquanto a presença de aditivos químicos acaba sendo negligenciada.
"A recomendação é muito clara: crianças e adolescentes saudáveis não precisam usar whey protein ou creatina na rotina", afirma Elisabeth, membro da Sociedade Brasileira de Psiquiatria (SBP) e pós-graduada em nutrição infantil pela Boston Umjversity e também pela Ludwig Maximilian University of Munich.
"Antes de seguir tendências da internet, os pais devem conversar com o pediatra", acrescenta a médica, ressaltando que os suplementos podem ser usados em crianças em algumas situações, como no caso de doenças crônicas, desnutrição ou síndromes de má absorção, sempre com indicação e acompanhamento profissional.
Elisabeth avalia ainda que o impacto negativo do consumo de suplementos na infância não é meramente nutricional. Para ela, a infância não deve ser associada à lógica da performance estética, o que pode favorecer o desenvolvimento de uma relação inadequada com a comida e estimular preocupações excessivas com aparência física.
A pediatra também pontua que a alimentação envolve não apenas nutrientes, mas também aspectos afetivos, sociais e culturais. Nesse contexto, o risco seria fazer com que a criança passe a associar saúde ao consumo de suplementos, criando um distanciamento da chamada "comida de verdade".
"Comer envolve afeto, convivência, cultura e aprendizado alimentar", diz. "Quando a criança passa a enxergar suplemento como sinônimo de saúde, existe um risco importante de desconexão com a comida de verdade."









