Promoções em remédios: a armadilha que pode custar caro
Promoções parecem vantajosas, mas podem incentivar o uso inadequado de medicamentos e aumentar riscos
Brazil Health
Quadrilha foi alvo de investigação contra o tráfico de misoprostol, usado ilegalmente para aborto em vários estados do país | Pexels
Você entra em uma farmácia e recebe um convite: LEVE 2, PAGUE 1. À primeira vista, não há como não pensar: “Que oportunidade! Pagando a metade do preço”. Imagine que, em vez de dois sabonetes ou duas garrafas de água, o produto da promoção seja um medicamento. Nesse momento, a pergunta muda: será que comprar mais por menos, em relação a medicamento, é uma vantagem?
Uma oferta aparentemente vantajosa para o bolso pode esconder uma questão muito mais importante: a segurança do paciente.
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Existe uma diferença fundamental entre comprar um produto de consumo e adquirir um medicamento. Um produto pode ser comprado porque você quer, gosta ou pretende armazená-lo para uma necessidade futura. Com medicamentos, essa lógica precisa ser diferente.
Medicamentos são bens de saúde. Eles produzem efeitos no organismo e, por isso, também podem produzir efeitos adversos, interações, intoxicações e outros danos quando utilizados de maneira inadequada.
A própria Anvisa destaca que medicamentos não são bens de consumo comuns. Por isso, existe o conceito de uso racional de medicamentos: utilizar o medicamento adequado para a necessidade recomendada, na dose certa, pelo tempo necessário e com orientações apropriadas.
O problema não é o desconto, mas o que ele estimula no consumidor quando adquire medicamentos em quantidade maior do que aquela de que realmente necessita.
A própria Anvisa responde diretamente a essa questão em suas orientações sobre a RDC nº 96/2008. Ao ser questionada sobre anúncios como “leve 3, pague 2”, a Agência respondeu que esse tipo de promoção não é permitido para medicamentos isentos de prescrição porque não considera a necessidade real do usuário e pode induzir ao uso não racional.
A pergunta deveria ser: “Eu realmente preciso dessa quantidade?” Mas, se eu não usar agora, posso guardar para usar depois?
Existe o problema de transformar a nossa casa em uma pequena farmácia particular, onde sobras de tratamentos ficam esquecidas em gavetas, armários e caixas. Meses depois, alguém apresenta um sintoma e lembra: “Acho que tenho um remédio para isso aqui em algum lugar”.
E começam as dúvidas: “Qual era mesmo a indicação?”, “Qual era a dose?”, “Por quanto tempo deveria ser utilizado?”, “Esse medicamento ainda está dentro do prazo de validade?”, “Pode ser utilizado junto com outros medicamentos?” Outra situação muito comum acontece dentro da própria família. Uma pessoa sente uma dor, outra oferece um medicamento: “Toma esse. Funcionou comigo”.
A intenção pode ser excelente, mas a experiência positiva de uma pessoa não pode ser a solução segura para outra. Duas pessoas podem apresentar sintomas semelhantes e ter causas diferentes, considerando também idade, peso, funcionamento dos rins e do fígado e interação com outros medicamentos.
Por isso, ter o mesmo sintoma não significa precisar do mesmo medicamento. A prescrição é uma decisão individualizada. E quando alguém realmente precisa do medicamento?
Sobras, doação e venda: onde mora o risco
Existem situações reais de dificuldade de acesso. Há pessoas que precisam de um medicamento, possuem uma indicação profissional, mas enfrentam desabastecimento ou dificuldade financeira. É compreensível que alguém pense: “Eu tenho esse medicamento sobrando. Vou ajudar.”
A intenção de ajudar é legítima. O problema é que, na saúde, uma boa intenção precisa estar acompanhada de segurança. Uma doação informal entre pessoas não garante que o medicamento tenha sido armazenado nas condições adequadas, que sua embalagem permaneça íntegra, que sua procedência seja conhecida ou que aquele produto seja apropriado para o paciente.
A solução para a dificuldade de acesso não deveria ser uma rede informal de circulação de medicamentos entre pessoas. A ajuda mais segura pode ser orientar a pessoa a procurar uma unidade de saúde, a assistência farmacêutica, uma farmácia regularizada ou um profissional de saúde.
Acesso ao medicamento é uma questão de saúde pública. Mas acesso não pode significar ausência de segurança. E vender o medicamento que sobrou?
Se doar já exige cuidado, vender é uma questão ainda mais séria. Um medicamento que sobrou de um tratamento não deve ser tratado como um objeto usado que pode ser anunciado nas redes sociais. É um produto de saúde submetido a controle sanitário.
Quando alguém compra um medicamento de origem informal, não consegue verificar adequadamente aspectos importantes como procedência, condições de armazenamento e integridade.
Preço baixo não compensa risco desconhecido
Se o tratamento terminou e sobraram medicamentos, não guarde automaticamente para uma próxima oportunidade e não ofereça a outra pessoa. Também não descarte medicamentos vencidos ou em desuso no lixo comum ou na pia.
O Brasil possui um sistema de logística reversa para medicamentos domiciliares vencidos ou em desuso, com pontos de recebimento destinados à sua destinação ambientalmente adequada. Em caso de dúvida, procure uma farmácia ou drogaria que disponha de ponto de coleta.
O consumidor também tem um papel importante. O uso racional de medicamentos não é responsabilidade apenas de médicos, farmacêuticos, enfermeiros ou autoridades sanitárias.
Antes de comprar, pergunte se realmente precisa daquela quantidade. Não compre medicamento apenas porque está em promoção. Não utilize medicamento indicado por outra pessoa. Não compartilhe medicamentos, mesmo com familiares. Não venda medicamentos que sobraram de tratamentos. Não mantenha estoques desnecessários em casa. Observe as orientações da bula e dos profissionais de saúde
e procure orientação quando tiver dúvidas. E, principalmente: não confunda facilidade de acesso com segurança de uso. A promoção termina. O risco pode permanecer.
Uma placa de “leve 2, pague 1” pode desaparecer da farmácia amanhã. Mas o medicamento comprado continua na casa do consumidor. Pode permanecer meses em uma gaveta, ser utilizado por outra pessoa ou ser esquecido e posteriormente utilizado sem orientação. É por isso que discutir promoções de medicamentos não é discutir apenas preço. É discutir comportamento, responsabilidade e saúde pública. E talvez seja justamente aí que esteja a maior lição: Nem toda vantagem financeira representa uma vantagem para a saúde.
Comprar dois quando você precisa de um não significa necessariamente economizar. Às vezes, significa simplesmente levar para casa um medicamento que você não precisava.
E, quando o assunto é medicamento, usar menos, quando menos é o necessário, também pode ser uma forma de cuidar. Afinal, medicamento não é produto de consumo. É produto de saúde. E essa diferença precisa começar a fazer parte da cultura de todos nós.
Silvânia Ramalho - Farmacêutica Bioquímica
Promoções em remédios: a armadilha que pode custar caro Promoções parecem vantajosas, mas podem incentivar o uso inadequado de medicamentos e aumentar riscosSaúde2026-10-14T16:10:27.617ZVocê entra em uma farmácia e recebe um convite: LEVE 2, PAGUE 1. À primeira vista, não há como não pensar: “Que oportunidade! Pagando a metade do preço”. Imagine que, em vez de dois sabonetes ou duas garrafas de água, o produto da promoção seja um medicamento. Nesse momento, a pergunta muda: será que comprar mais por menos, em relação a medicamento, é uma vantagem? Uma oferta aparentemente vantajosa para o bolso pode esconder uma questão muito mais importante: a segurança do paciente. 🤳 Notícias em primeira mão: baixe nosso aplicativo gratuito e leve o jornalismo do SBT News com você, onde estiver! . Medicamento não é compra por impulso Existe uma diferença fundamental entre comprar um produto de consumo e adquirir um medicamento. Um produto pode ser comprado porque você quer, gosta ou pretende armazená-lo para uma necessidade futura. Com medicamentos, essa lógica precisa ser diferente. Medicamentos são bens de saúde. Eles produzem efeitos no organismo e, por isso, também podem produzir efeitos adversos, interações, intoxicações e outros danos quando utilizados de maneira inadequada. A própria Anvisa destaca que medicamentos não são bens de consumo comuns. Por isso, existe o conceito de uso racional de medicamentos: utilizar o medicamento adequado para a necessidade recomendada, na dose certa, pelo tempo necessário e com orientações apropriadas. O problema não é o desconto, mas o que ele estimula no consumidor quando adquire medicamentos em quantidade maior do que aquela de que realmente necessita. Quando a promoção incentiva o uso não racional A própria Anvisa responde diretamente a essa questão em suas orientações sobre a RDC nº 96/2008. Ao ser questionada sobre anúncios como “leve 3, pague 2”, a Agência respondeu que esse tipo de promoção não é permitido para medicamentos isentos de prescrição porque não considera a necessidade real do usuário e pode induzir ao uso não racional. A pergunta deveria ser: “Eu realmente preciso dessa quantidade?” Mas, se eu não usar agora, posso guardar para usar depois? Existe o problema de transformar a nossa casa em uma pequena farmácia particular, onde sobras de tratamentos ficam esquecidas em gavetas, armários e caixas. Meses depois, alguém apresenta um sintoma e lembra: “Acho que tenho um remédio para isso aqui em algum lugar”. E começam as dúvidas: “Qual era mesmo a indicação?”, “Qual era a dose?”, “Por quanto tempo deveria ser utilizado?”, “Esse medicamento ainda está dentro do prazo de validade?”, “Pode ser utilizado junto com outros medicamentos?” Outra situação muito comum acontece dentro da própria família. Uma pessoa sente uma dor, outra oferece um medicamento: “Toma esse. Funcionou comigo”. A intenção pode ser excelente, mas a experiência positiva de uma pessoa não pode ser a solução segura para outra. Duas pessoas podem apresentar sintomas semelhantes e ter causas diferentes, considerando também idade, peso, funcionamento dos rins e do fígado e interação com outros medicamentos. Por isso, ter o mesmo sintoma não significa precisar do mesmo medicamento. A prescrição é uma decisão individualizada. E quando alguém realmente precisa do medicamento? Sobras, doação e venda: onde mora o risco Existem situações reais de dificuldade de acesso. Há pessoas que precisam de um medicamento, possuem uma indicação profissional, mas enfrentam desabastecimento ou dificuldade financeira. É compreensível que alguém pense: “Eu tenho esse medicamento sobrando. Vou ajudar.” A intenção de ajudar é legítima. O problema é que, na saúde, uma boa intenção precisa estar acompanhada de segurança. Uma doação informal entre pessoas não garante que o medicamento tenha sido armazenado nas condições adequadas, que sua embalagem permaneça íntegra, que sua procedência seja conhecida ou que aquele produto seja apropriado para o paciente. A solução para a dificuldade de acesso não deveria ser uma rede informal de circulação de medicamentos entre pessoas. A ajuda mais segura pode ser orientar a pessoa a procurar uma unidade de saúde, a assistência farmacêutica, uma farmácia regularizada ou um profissional de saúde. Acesso ao medicamento é uma questão de saúde pública. Mas acesso não pode significar ausência de segurança. E vender o medicamento que sobrou? Se doar já exige cuidado, vender é uma questão ainda mais séria. Um medicamento que sobrou de um tratamento não deve ser tratado como um objeto usado que pode ser anunciado nas redes sociais. É um produto de saúde submetido a controle sanitário. Quando alguém compra um medicamento de origem informal, não consegue verificar adequadamente aspectos importantes como procedência, condições de armazenamento e integridade. Preço baixo não compensa risco desconhecido Se o tratamento terminou e sobraram medicamentos, não guarde automaticamente para uma próxima oportunidade e não ofereça a outra pessoa. Também não descarte medicamentos vencidos ou em desuso no lixo comum ou na pia. O Brasil possui um sistema de logística reversa para medicamentos domiciliares vencidos ou em desuso, com pontos de recebimento destinados à sua destinação ambientalmente adequada. Em caso de dúvida, procure uma farmácia ou drogaria que disponha de ponto de coleta. O consumidor também tem um papel importante. O uso racional de medicamentos não é responsabilidade apenas de médicos, farmacêuticos, enfermeiros ou autoridades sanitárias. Antes de comprar, pergunte se realmente precisa daquela quantidade. Não compre medicamento apenas porque está em promoção. Não utilize medicamento indicado por outra pessoa. Não compartilhe medicamentos, mesmo com familiares. Não venda medicamentos que sobraram de tratamentos. Não mantenha estoques desnecessários em casa. Observe as orientações da bula e dos profissionais de saúde e procure orientação quando tiver dúvidas. E, principalmente: não confunda facilidade de acesso com segurança de uso. A promoção termina. O risco pode permanecer. Uma placa de “leve 2, pague 1” pode desaparecer da farmácia amanhã. Mas o medicamento comprado continua na casa do consumidor. Pode permanecer meses em uma gaveta, ser utilizado por outra pessoa ou ser esquecido e posteriormente utilizado sem orientação. É por isso que discutir promoções de medicamentos não é discutir apenas preço. É discutir comportamento, responsabilidade e saúde pública. E talvez seja justamente aí que esteja a maior lição: Nem toda vantagem financeira representa uma vantagem para a saúde. Comprar dois quando você precisa de um não significa necessariamente economizar. Às vezes, significa simplesmente levar para casa um medicamento que você não precisava. E, quando o assunto é medicamento, usar menos, quando menos é o necessário, também pode ser uma forma de cuidar. Afinal, medicamento não é produto de consumo. É produto de saúde. E essa diferença precisa começar a fazer parte da cultura de todos nós. Silvânia Ramalho - Farmacêutica BioquímicaSão PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/saude/leve-2-pague-1-em-remedios-a-armadilha-que-pode-custar-caro-a-sua-saude